Olho nele: Marcus Kenyatta

08.10.2019

   Ele usa um chapéu, mas não é cowboy, tampouco músico do antigo Sabadão Sertanejo do SBT. Marcus Kenyatta é mais  um talentoso guitarrista da fértil cena do blues brasileiro. Liderando a Laranjeletric e a Caravana Cigana do Blues, ambas ao lado de Marco Lacerda, o carioca vem se destacando. "Tenho bastante admiração por ele [Marco]. Canta bem, compõe bem e toca bem guitarra. Sempre pensa no que é melhor para a canção, sem vaidade! E depois de tantos anos de convivência desenvolvemos um entrosamento grande, nossas guitarras dialogam de maneira muito orgânica", comentou sobre a amizade com Marco Lacerda, seu partner in crime do blues.

   Além do acessório estético, Kenyatta é um devoto da Fender Telecaster, uma relação que começou em 2009 e, ao que tudo indica, sem brechas para o divórcio. "(...) Fiquei completamente apaixonado pelos timbres que ela me proporcionava. A partir dali fui desenvolvendo minha maneira de tocar e minha sonoridade com uma identidade muito ligada a esse modelo", explicou.

   Marcus Kenyatta é presença certa nas noites de blues carioca. Vale à pena conhecer o seu trabalho, em qualquer um dos seus projetos, mesmo porque ele já é um sideman bem respeitado. 

 

Ugo Medeiros – Você está à frente de dois projetos muito interessantes, Laranjeletric e Caravana Cigana do Blues. Comecemos pelo Laranjeletric. Como a banda nasceu? Poderia falar sobre a banda?

 

Marcus Kenyatta - A Laranjeletric e a Caravana Cigana do Blues são trabalhos os quais tenho muita felicidade e orgulho em fazer parte desde a fundação. A Laranjeletric surgiu a partir da amizade e sintonia musical com meu camarada Marco Lacerda, já tocávamos guitarra há algum tempo. Em 2008, começamos a desenvolver o gosto pelo blues e a frequentar os lugares onde, na época, era possível ouvir e ver as pessoas tocando o gênero afro-americano e também encontrar entusiastas do estilo. Espaços como a Banca do Blues, na Cinelândia, e o primeiro Bar do B, em Laranjeiras, eram importantes para conhecermos e trocarmos ideias sobre o blues. No fim de 2009, até pelo blues que nos cercava, começamos a compor juntos, sem compromisso e, naturalmente, as músicas vieram com um sotaque de blues. Mas também vieram com uma veia de soul, rhythym and blues e funk por conta da forte influência tivemos desde moleques da música negra. Em meados de 2010 nos juntamos com dois camaradas, Marcos Silva (baixo) e Tom Queiroga (bateria), para darmos início ao trabalho da banda. Curioso que esses caras trabalhavam conosco em uma  livraria aqui no Rio de Janeiro! Desde então diversos músicos trabalharam conosco, como os baixistas Ebano Machel e Mario Portella, o saxofonista Glaucus Linx, além do grande e saudoso Bruno Zé Durans (que Jah o tenha!). Atualmente os integrantes fixos da Laranjeletric são Marco Lacerda (voz e guitarra), Ygor Helbourn (bateria e backing vocal) e eu (guitarra e backing vocal). Ainda temos as participações do Pedro Leão (contrabaixo) e Tiago Didac (percussões). Com essa formação estamos no processo de gravação do segundo disco que, provavelmente, deve ser lançado nas plataformas digitais no segundo semestre de 2020.

 

UM – Podemos dizer que a Caravana Cigana do Blues é uma extensão natural do Laranjeletric? É uma banda maior, com mais peso e, talvez, com uma musicalidade mais “complexa”. Vocês, inclusive, tocaram no Festival de Rio das Ostras ano passado...

 

MK - Na verdade, a Caravana Cigana do Blues surgiu de fato em abril de 2015, a partir de uma gig que rapidamente tornou-se uma roda de blues semanal em um botequim de quinta categoria na Olegário Maciel (Barra da Tijuca). No princípio, éramos eu (guitarra), Sonja (voz) e Luca Neroni (guitarra). Era uma espécie de jam conduzida por nós três, mas que também recebia os músicos que chegassem com seus instrumentos. Logo na sequencia se juntaram o Bruno Zé (percussões), Marco Lacerda (voz e guitarra), David Taveira (harmônica) e, por último, Daniel Taveira (contrabaixo) e Eduardo Souto Maior (bateria). Conforme tocávamos em diversos lugares pelo Rio, sentimos uma necessidade de transformar aquilo, que até então era uma coisa mais informal, em uma banda. Queríamos um trabalho com mais direção, e vimos que a vontade de fazer o tradicional blues de Chicago era o ponto comum entre todos nós. Passado um ano, ou mais, achamos que três guitarras eram demais e ficamos apenas Marcão e eu como. Com essa formação tocamos em muitos bares, alguns festivais bacanas e ficamos fixos em algumas casas aqui no Rio. No começo de 2017 gravamos um EP que foi lançado na Casa do Jazz, no Festival de Jazz e Blues de Rio das Ostras do ano passado. Foi um show com uma energia incrível do público! Infelizmente tivemos a baixa da perda precoce do Bruno no começo do ano passado, mas seguimos em frente, mantendo a chama da Caravana acesa. Atualmente tocam conosco Pedro Leão (contrabaixo) e Stephan Vidal (gaita). Até o fim desse ano acredito que lançaremos nosso primeiro álbum, também nas plataformas digitais e ainda sem previsão de prensagem. Teremos a honra de ter como produtor musical o mestre Álamo Leal!

 

UM – Qual a diferença de repertório entre as duas bandas?

 

MK - O repertório da Laranjeletric é, em sua maioria, composto de canções autorais. Fazemos também releituras de músicas que nos identificamos, adaptando-as à nossa maneira de tocar. E aí pode ser algo de Albert King, Buddy Guy, Jimi Hendrix, Bob Marley, Tim Maia... Já a Caravana Cigana do Blues se dedica a divulgar e manter viva a tradição do blues de Chicago, tocando clássicos imortalizados por Muddy Waters, Howlin Wolf, Little Walter, Jimmy Rogers, Jimmy Reed, dentre outros. E, apesar de não ser o foco principal da banda, também tocamos músicas autorais nos shows.

 

UM - O Marco Lacerda está ao seu lado nos dois projetos. Como vocês se conheceram? Poderia falar sobre o músico Marco Lacerda?

 

MK - Exato! Eu e Marcão somos irmãos de vida e de som. Acredito que isso reflete no som que desenvolvemos, seja tocando ou produzindo. Nos conhecemos em 2007 em um show que fiz com uma cantora amiga dele. A partir dali nos aproximamos bastante, até por termos amigos em comum e por conta da afinidade musical e da paixão por guitarra. De lá pra cá estivemos juntos em diversos trabalhos, sendo os mais significativos com a Laranjeletric, com a Caravana Cigana do Blues e na produção do disco da Sonja. Marcão é um cara muito talentoso! Tenho bastante admiração por ele. Canta bem, compõe bem e toca bem guitarra. Sempre pensa no que é melhor para a canção, sem vaidade! E depois de tantos anos de convivência desenvolvemos um entrosamento grande, nossas guitarras dialogam de maneira muito orgânica. É uma parceria que tenho muito orgulho! Sou grato a Jah por esse encontro.

 

UM – Já te vi tocando com muito músico bom, sinal que o seu trabalho está sendo reconhecido. Na real, acho que você está se tornando um sideman muito bem quisto na cena blueseira carioca...

 

MK - Agradeço sua observação! Fico bastante feliz em poder desenvolver meu trabalho tocando com diferentes artistas, podendo contribuir com meu som e minha visão musical. É bacana se dedicar e ser reconhecido pelo que se gosta de fazer.

 

UM – Você tocou com o JJ Jackson pouco antes dele falecer. Poderia falar sobre a experiência?

 

MK - Foi uma experiência incrível, mesmo que em apenas um ensaio e um show. Apesar do pouco tempo que tivemos de convívio, foi bastante enriquecedor ver aquele cara bastante experiente se comporta e conduz a coisa. Tanto musicalmente quanto administrativamente. Era bastante exigente e convicto do que queria e como queria as coisas. Era também um grande crooner e um verdadeiro showman, que sabia muito bem liderar a banda e cativar o público. Além disso tinha um alto astral contagiante.

 

UM – Todas as vezes que te vi, você estava com uma Telecaster. Por que essa escolha? Digo, o que ela te oferece de diferente que outras guitarras, como a Stratocaster, não dão?

 

MK - Sou apaixonado por Telecaster, poderia falar por horas sobre essa paixão! (rs) Além de achá-la esteticamente linda, considero uma guitarra de simples manuseio, bastante resistente. E, diferentemente da Stratocaster, por exemplo, que tem um som mais doce, estalado e brilhante. Ela possui, além do som estalado (twang), também um som mais cru, visceral e cortante. O som que ouvi em muitas das gravações antigas de soul e funk, bem como de blues. É um modelo de guitarra bem versátil, na minha opinião. Já toquei, por um curto período, com Stratocaster e com semi-acústica modelo 335, mas quando comprei minha primeira Telecaster, em 2009, fiquei completamente apaixonado pelos timbres que ela me proporcionava. A partir dali fui desenvolvendo minha maneira de tocar e minha sonoridade com uma identidade muito ligada a esse modelo. Possuo duas Telescaster, uma reedição da Fender Telecaster 52 Butterscotch (a titular) com captação do Solon Fishbone e uma Olympic White montada com corpo de Squier, braço de luthier e captadores Seymour Duncan. Se pudesse teria mais! (rs) 

 

UM – ACHO que nunca te vi em uma apresentação acústica. Você curte o blues acústico?

 

MK - Tem razão, sempre toco com guitarra. Esse tipo de blues, tocado com violão, requer uma linguagem e familiaridade com o estilo na qual nunca me aprofundei a ponto de desenvolver e me sentir satisfeito. Acabei me dedicando mais a aprender o blues elétrico de Chicago. E ainda estou nesse processo, que não acaba nunca! (rs) Apesar disso, gosto bastante de ouvir blues acústico: Skip James, Charley Patton, Lonnie Johnson, o disco Blues Singer de Buddy Guy e as gravações acústicas de Muddy Waters e de John Lee Hooker. Essa é uma parte do material que escuto frequentemente.

 

UM – E o chapéu? Tornou-se uma marca registrada do Kenyatta? (rs)

 

MK - Verdade! Acabou se tornando marca registrada. (rs) Comecei a usar com frequência no começo da Caravana Cigana do Blues. Acho que compõe bem o visual e acabou se tornando parte do meu set junto com minha Telecaster, meu pedal de reverb e meu amplificados. (rs)

 

UM – Você estava na banda da última Coluna Blues Party. O que era pra ser o show de uma banda, tornou-se uma jam fantástica! Lembrou o Last Waltz do The Band (guardando as devidas proporções, claro!). Você esteve ao lado do Leo Torresini, Cesar Lago e Pedro Strasser. Espero te ver nas próximas edições!

 

MK - Foi bem bacana esse dia! Muitos bons músicos reunidos fazendo som e se divertindo. Fiquei feliz em ter participado, principalmente ao lado desses grandes camaradas! Nos vemos nas próximas edições, sim! Retribuindo, também espero te ver num show da Caravana Cigana do Blues e Laranjeletric. E obrigado pelo espaço para falar um pouco sobre meu trabalho! Parabéns pelo site!

 

 

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