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Entrevista Roy Rogers

07.05.2017

 

Roy Rogers é um mestre do blues e domina o estilo como poucos. Nascido na Califórnia, é um estudioso do delta blues (acústico) mas a sua marca registrada é o blues elétrico e o seu slide incendiário. O norte-americano já produziu e tocou com a lenda do country Ramblin' Jack Elliott e gravou três discos com o genial Ray  Manzarek (tecladista do The Doors). O guitarrista, que deu uma aula de humildade e simpatia, bateu um papo com o Coluna Blues Rock. 

 

 

Ugo Medeiros - Você nasceu na Califórnia. Sempre que converso com um músico de lá pergunto sobre a tradição musical da região. Acredito que o sol deixe o som mais dançante. Você concorda? Acho que a música californiana é uma grande fusão entre diversos estilos norte-americanos. Peguemos o Grateful Dead como exemplo, eles tocavam um rock psicodélico com influências do folk, blues, jazz e country...

 

Roy Rogers - Eu concordo, sim. A Califórnia, ao longo do tempo, sempre teve uma variedade de estilos com combinações bem interessantes em todas as áreas da música. Pode voltar no tempo, décadas e décadas atrás, e sempre terá essa característica. Posso dar alguns exemplos. O tradicional jazz dixieland renasceu nos anos 1940 como Turk Murphy. O jazz progressivo tinha uma escola importante na Costa Oeste, nomes como Dave Brubeck e Stan Getz. A cena de R&B/blues era imensa nos anos 1950 e 1960, sobretudo em Los Angeles e em Oakland com Charles Brown, Hank Ballard e outros. E, claro, todas aquela cena de rock and roll no início dos anos 1960, de Richie Valens a Beach Boys. Logo depois veio aquele folk-rock de São Francisco (Grateful Dead) e o East Bay Funk (Tower of Power) e chegamos aos dias atuais com mega bandas como Metallica, Green Day, etc. É uma grande variedade musical!

 

UM - Certa vez um guitarrista texano me disse que durante os anos 1930/40 quando um guitarrista negro tocava era taxado como blues, mas quando o guitarrista era branco classificavam como country. Tanto o country como o blues são estilos da raiz norte-americana. Você poderia falar sobre as semelhanças e diferenças?

 

RR - Blues e country são ramos diferentes da mesma árvore, ambos expressam as mesmas emoções humanas. Se a canção consegue te tocar, é o que importa. Eu, particularmente, prefiro o blues, mas gosto de música de todos os gêneros.

 

UM - Por falar em country, você produziu e tocou com o Ramblin' Jack Elliott. Como você o conheceu? Você poderia falar sobre essa parceria?

 

RR - Ramblin' Jack Eliott é uma lenda americana, se alguma vez houve uma! Ele viajou e tocou com Woody Guthire e foi uma importante fonte, através de seus discos e suas turnês, do folk/blues americano em todo o mundo (sobretudo no Reino Unido). Eu conheci o Jack nos anos 1980 em uma gig na Bay Area de São Francisco e rapidamente nos tornamos amigos [N.E.: "fast friends"]. Essa amizade me levou a produzir dois discos dele, ambos indicados ao Grammy. Aos 85 anos continua se apresentando e ainda tem uma memória fotográfica. Estou produzindo um "Spoken Word" com o Ramblin' Jack Elliott que, se tudo der certo, ficará pronto este ano. Ele tem as estórias mais incríveis que você sempre quis ouvir.

 

UM - Uma vez perguntei a um bluesman brasileiro se o rock o levou para o blues. Ele me respondeu, brincando, que todo bluesman branco começou no rock e só depois foi para o blues. É o seu caso?

 

RR -   Eu comecei como um pequeno roqueiro aos treze ano (1963). Naquela época todos usávamos jaquetas douradas idiotas e tocávamos MUITO Chuck Berry, Bo Diddley e Little Richards, além de canções com um pé no rock, como What'd I say, Green onions, Hi-Heeled sneakers, etc. Escutei algumas música do Jimmy Reed e outras coisas de R&B. Depois, com a chamada "invasão britânica" liderada por Beatles, Stones e Animals entrei em contato com outros artistas do blues, pois essas bandas inglesas faziam muitos covers. Tudo isso, e uma das coisas mais importantes foi quando o meu irmão mais velho trouxe para casa um LP do Robert Johnson. Aquilo me fez mergulhar de cabeça no delta blues. 

 

UM - Quais são os melhores artistas/discos para aprender a técnica de slide?

 

RR - Tem uma infinidade de guitarristas para aprender a tocar slide. Eu sempre recomendo voltar às origens, tem muitos caras com estilos bem diferentes. O número um é Robert Johnson, está acima de todos. Depois dele, escute Muddy Waters, Elmore James, Tampa Red, Son House, Earl Hooker, Robert Nighthawk. Dos mais "novos", pode escolher Al Wilson (Canned Heat), Johnny Winter, Duane Allman, Ry Cooder, todos grandes guitarristas com estilos próprios. 

 

UM - Você integrou o John Lee Hooker's Coast to Coast Blues Band por quase quatro anos. Você poderia falar sobre a experiência, amizade e ensinamentos?

 

RR - Eu entrei para a banda do John Lee Hooker em 1982 e fiquei com ele até 1986. O que eu posso dizer? Tocar com o Hooker foi uma experiência maravilhosa! Fico feliz por poder dizer que viramos "família" e a nossa amizade me levou a produzí-lo alguns anos depois. Sempre me perguntam ou até afirmam que eu devo ter aprendido musicalmente muito com ele, mas eu sempre respondo "não, na verdade, eu aprendi sobre a VIDA". Ele podia pegar a música e colocar um sentimento profundo como ninguém no mundo, me refiro a isso. Só nos resta tentar/ter esperança, como artistas, em alcançar aquela "profundidade" que lhe era característica.

 

UM - Você tocou/produziu a Bonnie Raitt. Ela é tão maravilhosa! Você poderia falar da relação com ela?

 

RR - Pelo que me lembro, primeiramente eu fui apresentado a ela muito rapidamente em um show em São Francisco. Mas conhecê-la de fato apenas quando eu já estava em turnê com o John Lee Hooker durante algum festival. Ela se tornou uma grande amiga e toquei muitas vezes, como convidado, com ela e sua ótima banda.  Também compusemos juntos. Ela é sempre tão graciosa e solidária com todos à sua volta, ela é muito comprometida com a sua música e reconhece uma boa canção quando a escuta. Ela é magnífica no slide! Tivemos grandes momentos tocando em shows com banda ou apenas em dueto. A considero uma verdadeira amiga.

 

UM - Como você conheceu o Ray Manzarek? Vocês dois gravaram três álbuns excelentes e ainda excursionaram pelos EUA e pela Europa. Poucos sabem mas, além de grande músico, ele era um grande cantor...

 

RR - Sinto muita falta do Ray Manzarek! Nós viajamos em turnê por quase oito anos, primeiro como dueto, depois com banda. Parece que foi ontem. Tenho muito orgulho dos três discos que gravamos juntos. Sabe, Ray cresceu na parte sul de Chacago, por isso, apesar da sua formação clássica, ele sabia muito sobre o blues e sempre dizia "The Doors era apenas uma banda de blues com um grande poeta". Ele tinha um ótimo senso de humor e era um cara muito bacana para conhecer e sair, nos tornamos grandes amigos. Eu acredito que o jeito dele cantar influenciou diretamente o Jim Morrison, sem dúvida. Nós escrevemos algumas músicas juntos e gostaria, apenas, de ter feito mais turnês com ele. Minha lembrança mais importante é uma turnê que fizemos na Polônia, foi demais! Tem uma gravação em algum lugar. Terá um documentário em vias de ser lançado sobre nossa parceria, viagens e gravações, se chamará The Third Mind.

 

UM - Agora, falemos um pouco sobre Brasil. Eu te vi no Festival de Rio das Ostras em 2007, tenho até uma foto contigo! Assisti ao seu show ao lado de um guitarrista brasileiro. Em um dado momento, com aquele seu slide alucinante, ele simplesmente abriu a boca e o queixo caiu!

 

RR - Rio das Ostras foi um grande festival, muito bacana ter tocado lá. Tivemos um grande momento!

 

UM - Atualmente você tem um projeto com a Badi Assad, ela é uma violonista incrível. Como nasceu esse projeto?

 

RR - Sim, meu novo projeto é com a incrível violonista e cantora Badi Assad. A conheci através do meu filho, Sam, que deu um workshop de percussão vocal no Brasil há uns anos e ela participou. Eu tinha a ideia de misturar diferentes elementos musicais em uma nova abordagem musical, é uma combinação de blues, jazz e música brasileira. Mal posso esperar para as pessoas escutarem, Badi é muito talentosa e sempre mostrou muito interesse, desde o início, pelo projeto. Sua virtudes encaixaram perfeitamente no projeto. A banda se chama Stringshot e inclui meu amigo Carlos Reyes no violino e na harpa paraguaia. Uma reunião de músicos bem interessante, não? Nós já gravamos cinco músicas e gravaremos outras cinco em junho. Espero excursionar em 2018, mas tudo depende dos rumos da economia, pois atualmente é mais difícil fazer uma turnê com uma banda nova.

 

UM - Muito obrigado Sr. Rogers pela excelente conversa!

 

RR - Eu que agradeço! Espero voltar a tocar pelo Brasil novamente, uma das canções do Stringshot é intitulada Blues for Brazil!

 

 

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