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Entrevista Dave Hole

20.05.2017

Minha vida no blues começou graças à saudosa Satisfaction Discos, loja de rock em Copacabana (Rio de Janeiro) que fechou há alguns anos. Quando passei a frequentá-la eu era um viciado em Pink Floyd e ouvia progressivo a maior parte do tempo. Tudo mudou em uma tarde, quando pedi uma indicação de blues e o dono, Renato Arias, recomendou um guitarrista australiano, um tal de Dave Hole. Eu não levei tanta fé, apesar de ter gostado da capa (um slide deslizando na guitarra). Ele tocou o CD e... e tudo mudou! Uma música acelerada e enérgica, com punch, um som estridente estranho. Aquilo era efeito do slide? Eu já conhecia esse aparato nos fraseados do David Gilmour, mas naquele disco era diferente.

Aquilo era blues e a partir dali minha relação com a música foi por caminhos inesperados. Claro, mais tarde descobri o folk-blues, o country-blues, os clássicos do delta blues e mergulhei de cabeça na fonte, pelas águas do Rio Mississippi, mas foi graças a esse senhor que hoje edito o Coluna Blues Rock. É com grande emoção (e gratidão) que publico abaixo a entrevista com o "culpado" por tudo isso que vocês, leitores, têm acesso! 

 

Ugo Medeiros - Você é inglês, mas se mudou muito cedo para Austrália. Você e sua família foram para Perth, oeste do país, bem longe das maiores cidades, como Sydney e Melbourne. A vida por lá era diferente do resto da Austrália?

 

Dave Hole - Sim, eu cresci em uma região de colinas um pouco mais afastada de Perth. Era muito isolado, eu passei boa parte do tempo sozinho, tocando e escutando o rádio. Foi aí que o meu amor pela música começou. 

 

UM - Ainda sobre a infância em Perth, o que você mais escutava? Alguma banda australiana ou as maiores influências vieram do estrangeiro, as bandas clássicas do rock?

 

DH - Pelo que eu me lembro, as primeiras músicas que me atraíram foram do Buddy Holly e dos Everly Brothers, assim como coisas com muita guitarra, como Duane Eddy e os The Shadows. Um pouco depois escutei gente como Roy Orbinson, Chuck Berry e Ike & Tina Turner. Também tinham algumas boas bandas australianas, casos de Col Joye & The Joy Boys e Johnny O'Keefe, mas no geral foram as bandas americanas e inglesas do rádio. Claro, nos anos 1960 as rádios eram inundadas pelas bandas inglesas, como Rolling Stones, Beatles, Them e The Animals, e eu adorava todas. Foram esses grupos que me fizeram tocar blues e descobrir todos aqueles grandes bluesmen americanos. 

 

UM - No Brasil toda criança ganha uma bola de futebol, já escutei que na Austrália as crianças ganham uma prancha de surfe. O Blues-rock também está no DNA australiano assim como o surfe?

 

 

DH - Sim, na Austrália a maioria das crianças são malucas por esporte e eu não fui exceção. Eu estava bem longe da praia, portanto não ganhei uma prancha, mas eu adorava jogar cricket e futebol australiano (aquele que é jogado com uma bola de formato engraçado). O blues-rock parece que se encaixa perfeitamente ao temperamento australiano, ele traz uma energia muito grande, sempre foi muito popular aqui "embaixo" (hemisfério sul).


UM - Você poderia indicar algumas bandas australianas de blues e rock?

 

DH - Minhas bandas australianas favoritas são Cold Chisel e AC/DC. Alguns do nossos melhores artistas de blues são Kevin Borich, Matt Taylor & Phill Manning (ambos da banda Chain), Mal Eastick, The Backsliders, Hat Fitz & Cara, Jeff Lang, Bob Patient, Dave Brewer e Ivan Zar com John Wilson.

 

UM - Você é um dos grandes mestres do slide. Como o slide entrou na sua vida? É verdade que foi devido a um acidente no futebol? Quais bluesmen de slide mais te influenciaram?

  

DH - Sim! Eu comecei a tocar depois que eu quebrei um dedo da mão esquerda jogando futebol australiano (novamente esse jogo!). Tive que imobilizar o meu dedo por três meses, durante esse tempo eu não podia tocar a guitarra, digamos, de forma tradicional, mas eu conseguia tocar com a mão por cima da guitarra, deslizando o slide em cima das cordas e tirando alguns licks básicos. Quando me livrei do "imobilizador" toquei com o estilo usual, mas não gostei. Desde então tenho tocado com a mão pela frente do "braço" da guitarra e com o slide no meu dedo indicador. Sobre as influências, o Elmore James foi o primeiro slideman que me excitou e, provavelmente, ainda hoje é o meu grande mestre. Eu também escutei muito Muddy Waters, Robert Johnson e Earl Hooker desde cedo, esses me influenciaram demais.

 

UM - Ainda sobre o slide, acho que o maior slideman fora do blues foi o Duane Allman. Ele tocava como um bluesman original, com a energia do rock e ainda colocava umas pitadas de soul music. Você concorda?

 

DH - Eu não escutei muito do Duane Allman quando ele estava com o Allman Brothers, mas eu amava o disco que ele gravou com o Eric Clapton (Layla And Other Assorted Love Songs). Curiosamente, acredito que o Elmore James foi também a maior influência do Duane. Nos últimos anos tenho escutado bastante coisa das suas variadas gravações, sem dúvida um guitarrista fabuloso. Sempre que eu o escuto fico perplexo com a sua extraordinária musicalidade. Parecia que ele tocava algumas partes "chaves" que complementavam a música, mas às vezes, na verdade, "fazia" a música (se tornava a parte protagonista). 

 

 

UM - Como quase todo não-americano escutei falar em blues através do BB King. Mas o primeiro disco de blues que eu comprei foi o seu Steel on Steel, indicação do dono da loja. Escutei o disco e pirei!

 

 

DH - Me sinto muito honrado em pensar que o Steel on Steel foi o seu primeiro disco de blues que você comprou, fico muito agradecido ao dono da loja pelo bom gosto musical (rs)! Já que você citou BB King, ele também foi uma mega influência para mim e foi o primeiro bluesman que vi ao vivo (quando estava em Londres, 1972).

 

UM - O seu primeiro disco, Short Fuse Blues, foi pré-produzido por você, mas logo depois chegou à Alligator Records. Como foi isso? A propósito, fale um pouco sobre a Alligator Records, talvez a gravadora de blues mais importante...

 

DH - Eu gravei Short Fuse Blues em três dias com pouco dinheiro em um estúdio local. Minha intenção era vender apenas aos meus fãs durante os shows pelos arredores de Perth, mas mandei uma cópia para a Guitar Player Megazine dos EUA com a esperança deles mencionarem o disco. Três semanas depois recebi uma ligação no meio da noite do editor da revista, Jas Obrecht, dizendo que foi uma das melhores coisas que ele tinha escutado nos últimos anos e que faria uma baita resenha (e, de fato, ele a escreveu na edição seguinte). Eles também escreveram um perfil sobre mim e o Jas também entrou em contato com diversas gravadoras para ver se teriam interesse por mim. Uma dessas foi a Alligator e o presidente, Bruce Iglauer, decidiu por dar uma chance a um desconhecido da austrália. O resto, como dizem, é história. Assinar com a Alligator e a minha forte amizade com o Bruce Iglauer foi muito importante para a minha carreira e para ser conhecido no mundo. Bruce é um cara apaixonado pelo blues e ele sempre foi guiado, justamente, pelo seu amor à música, mais até do que pelo dinheiro dos negócios. Eu e tantos outros bluesmen somos muito agradecidos a ele.

 

UM - O seu último disco foi Rough Diamond (2007). Você poderia falar sobre o disco? Você planeja um novo disco?

 

DH - Fazem dez anos desde Rough Diamond. Foi muito prazeroso gravar esse disco, que contou com meu bom amigo John Villani como engenheiro de som, que infelizmente faleceu uns anos depois. O John também gravou os meus disco anteriores e o falecimento dele foi uma das razões de eu ter ficado tanto tempo sem gravar. A boa notícia é que eu gravei onze músicas novas e elas estarão no meu novo disco que será lançado ainda este ano. O disco provavelmente se chamará Heat of the Moment e eu toquei vários instrumentos, assim como produzi e fui responsável pela engenharia de som. Outra razão por ter demorado tanto.

 

UM - Eu sei que é difícil, quase um sacrifício, mas você só pode escolher um, ok?

 

DH - Como você disse, é duro, mas vamos lá...

 

UM - AC/DC ou Led Zeppelin?

 

DH - Led Zeppelin.

 

UM - Duane Allman ou Johnny Winter?

 

DH - Johnny Winter.

 

UM - Eric Clapton ou Jimi Hendrix?

 

DH - Jimi Hendrix.

 

UM - Muddy Waters ou Freddie King?

 

DH - Freddie King.

 

UM - Blind Willie Johnson ou Blind Lemon Jefferson?

 

DH - Willie Johnson.

 

UM - Gibson ou Fender?

 

DH - Gibson.

 

UM - Slide de aço, cerâmica ou vidro?

 

DH - Vidro.

 

 

 

 

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