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Entrevista Keb' Mo'

24.05.2017

    O leitor conhece algum músico de tambor de aço [steel drum]? Provavelmente, não. Nem eu. Poucos sabem, mas Keb'Mo' começou nesse instrumento caribenho! Pelo bem do blues, mais tarde descobriu a guitarra e apareceu no início dos anos 1990 como um prodígio, sem medo de tocar acústico. Keb' Mo' assumiu, ao lado de Corey Harris e Alvin Youngblood Hart, assentos vagos pela partida de lendas do estilo como BB King.

   Sua carreira no blues, de fato, começou com o disco homônimo, Keb' Mo', que o colocou no topo. Trabalhos como Just Like You, The Door, Keep It Simple e Suitcase são provas de uma carreira sólida e um artista extremamente talentoso. Os últimos dois discos, BLUESAmericana e Hot Pink Blues, são muito bons, com grande destaque para o primeiro (indicado a três categorias do Grammy). Mesmo fora da música é respeitado, sua carreira de ator, cinema e teatro, é conhecida e interpretou Robert Johnson (Can't You Hear the Wind Howl?, de 1998), participou de Honeydripper (filme com Danny Glover, de 2007) e fez peça de teatro inspirada na vida de Hank Williams.

   Uma entrevista com um ídolo, mestre de um estilo. A matéria só não foi "perfeita" porque o músico não respondeu quatro perguntas. Ao contrário do que aconteceu na entrevista com o Marc Ford (ex-Black Crowes), não foram perguntas difíceis ou constrangedoras:

 

1 - Você também tocou com o Big Joe Turner? Uaaaau, como foi essa experiência? Podemos dizer que o rock também tem um pouco do DNA dele, certo?

2 - [Já tinha perguntado sobre o projeto do Scorcese, BLUES]. Novamente sobre BLUES do Scorcese, você mencionou o Robert Johnson diversas vezes. Sua versão de Come on in my kitchen é sensacional! Voce poderia falar sobre a importância dele na sua formação musical e no blues em geral?

3 - Diversos blusmen me disseram que é importante manter a tradição do delta blues e você já gravou muito acústico. Você prefere gravar acústico ou com uma banda elétrica?

4 - Voce também é ator e fez diversos trabalhos nessa área. Eu soube de um filme sobre o Robert Johnson em que você o interpretou (está disponível no NetFlix dos EUA mas não é permitido aqui no do Brasil). Você poderia falar sobre esse projeto? 

 

   Não acredito em mau humor, nas outras respostas mostrou-se paciente e explicou tudo muito bem. Não sei, talvez há um número certo de perguntas. Vai saber. Ainda assim, um papo muito produtivo e interessante com Mr. Keb' Mo', que ainda falou sobre a parceria com Taj Mahal e o disco TajMo!

 

 

Ugo Medeiros - Você nasceu na Califórnia e atualmente vive em Nashville (Tennessee), na minha opinião duas das regiões musicais mais ricas. Você poderia falar sobre a música e as características dessas duas regiões? O que você mais escutava durante a sua infância na Califórnia?

 

Keb' Mo' - O que eu mais escutava na Califórnia era o rádio. Quando mais novo não tinha dinheiro suficiente para comprar discos, então o rádio ou o que estivesse tocando era, basicamente, o que eu escutava. Portanto, escutei as estações de jazz, pop e soul. O som que eu procuro hoje não é aquele específico do Tennessee, mas aquele que, justamente, escutava lá na Califórnia. Viver no Tennessee não me fez virar um "Tennessee player", apenas vivo lá. Estou procurando uma batida/levada mais mainstream.

 

UM - Eu não sabia, você começou tocando tambor de aço [steel drums] em uma banda de calypso! Você poderia falar sobre essa experiência e essa influência caribenha na sua formação musical?

 

KM - Ironicamente, quando comecei nessa banda eu tinha acabado de ser expulso da banda da minha escola. Eu tocava trompete e fui expulso porque as minhas notas não eram muito boas, fiquei com o coração partido. Então a minha mãe me colocou em uma aula particular de trompete, mas o problema é que eu tinha um mau hábito e só praticava quando estava a fim. O trompete pede maior comprometimento, tem que praticar todo o dia. Claro, ela parou de pagar por essas aulas e o próprio professor falou para ela não gastar o dinheiro dela nisso, ele não tinha esperança em mim. Pouco depois nos mudamos para uma rua diferente e atrás desse novo endereço tinha essa steel band (calypso). Meu amigo Carlos Countee me levou e começou a me ensinar algumas músicas no steel drums, assim que ele terminava de tocar eu tocava, essa era a minha lição. O pai dele acabou sabendo da coisa toda e começou a me observar e a ensinar a algumas crianças do bairro. Uma coisa leva à outra, um pouco depois ele demitiu toda a banda e formou uma nova com as crianças do quarteirão. Em alguns meses aprendemos cerca de oito canções e começamos a fazer algumas gigs. Fiz isso dos meus onze até, provavelmente, os dezoito anos.

 

UM - O Papa John Creach foi como um mentor no início da sua carreira, certo? É impressionante como o violino dele dava mais alegria ao som do Jefferson Starship. Como vocês se conheceram? Poderia falar sobre a amizade de vocês?

 

KM - No dia em que conheci Papa John Creach, eu tocava em uma banda chamada Zulu. Não sei o que estávamos fazendo, acho que escrevendo algo e nos preparando para algo, meio que ensaiando no escuro. Papa John, o seu arranjador e o seu produtor estavam a caminho de jantar [soul food dinner] naquele mesmo lugar, apenas dois prédios de onde ensaiávamos. Eles nos escutaram e foram nos ver. Ele nos contratou ali mesmo, tocamos no disco dele chamado Filthy Funky e ainda nos levou para a estrada.

 

UM - O projeto The Blues do Martin Scorcese é simplesmente FANTÁSTICO, um dos grandes tesouros da humanidade! Como se deu o contato com o Scorcese e com o projeto?

 

KM - Foi fantástico! Sinceramente, eu levei um tempo para realmente entender o quão legal foi, embora eu sabia o quão grande era quando estava sendo feito. Mas quando eu olho para trás agora e eu olho para a foto na parede que tiramos, muitas pessoas naquela foto já faleceram, incluindo Natalie Cole, BB King, Ruth Brown. Havia um monte de pessoas lá que não estão mais ao nosso redor. Foi um evento épico, todos o pessoal do blues que estava por perto e disponível foi chamado para fazer aquelas apresentações. Foi filmado em algumas noites, eu não me lembro muito bem mas sei que foi fantástico. Digo, eu tive a chance de tocar com o James Blood Ulmer e com a Allison Kraus ao violino. Steven Tyler e Joe Perry estavam lá. Eu recomendei que Larry Johnson, um guitarrista acústico mais obscuro, fosse chamado. Robert Junior Lockwwod também estava lá. Artistas lendários! Scorcese teve a visão de fazer isso, foi épico. 

 

UM - Eu li que você fará uma participação na série Sun Records, diga-se, um programa maravilhoso! Você poderia nos contar sobre a sua participação?

 

KM - Eu faço uma participação muito breve, eu canto algumas músicas. Se não me engano, compus uma e cantei algumas outras. É uma pontinha, uma aparição, não tenho fala nem nada do tipo.
 

UM - Sua participação em Timeless (tributo a Hank Williams que levou o Grammy) é bem interessante. Algumas pessoas acham que de um lado está o blues e do outro o country, mas eles são praticamente irmãos siameses. Você poderia falar sobre o country na sua vida e a influência no blues?

 

KM - Bem, o blues e o country são primos de primeiro grau, não diria irmãos siameses. Eles surgiram quase que nas mesmas circunstâncias: a vida interiorana, pobreza, problemas da vida, a agricultura e outras coisas, tudo isso misturado. Portanto, quando tive a chance de gravar uma música do Hank Williams não hesitei, foi demais. Eu já tinha feito uma peça, anos atrás, chamada Lost Highway no Old Globe Theater em San Diego, eu interpretava um cara chamado Rufus que era parceiro do Rufus Tee Tot Payne. Rufus Tee Tot Payne foi, na verdade, o cara que ensinou guitarra ao Hank Williams. Ele era um negro mais velho e morava no mesmo bairro que o Hank. Eu já conhecia bastante sobre a história e as músicas do Hank Williams, por isso quando me perguntaram se eu faria essa gravação, foi como se eu já tivesse uma ligação. Me pediram para eu gravar I'm so lonely I could cry, a versão ficou muito boa e é até hoje um dos meus trabalhos favoritos. 

 

UM - Você gravou Big Wide Grin, um disco para as crianças e as famílias com o seu padrão de qualidade usual. Acho a ideia muito bacana! Eu tenho uma filha de um ano e meio e, às vezes, coloco pra ela escutar. Também coloco a sua participação ou a do BB King na Vila Sésamo e ela adora! Como surgiu essa ideia?
 

KM - A ideia chegou a mim através da área infantil da Sony, destinada às gravações para crianças. Inicialmente eu recusei, mas depois topei desde que eu pudesse fazer do jeito que eu bem entendesse. Eu não queria um disco de músicas infantis, eu fiz apenas um disco com músicas que eu gostava. Algumas foram sugeridas pelo produtor, Kevin McCormick, como Isn't she lovely ou Love train, essas eu nunca teria cogitado. Não se regrava uma música do Stevie Wonder ou dos The O'Jays, simplesmente não faça isso. Acabei fazendo algumas coisas inimagináveis nesse disco. Acho que o disco teve quatro músicas autorais (não regravações) e o título veio de uma canção chamada Color him father que tem uma frase "Big wide grin". Intitulei assim pois achei que seria alegre, bem bacana. Na real, foi um disco infantil mas mais voltado para a família, foi muito legal gravar, fiquei bem feliz por tê-lo feito. 

 

UM - O seu disco BLUESAmericana é demais, estou viciado nele! Ele até ganhou o Grammy! Você também tocou banjo, né? Você poderia falar sobre o álbum?
 

KM - Sim, eu toquei banjo e, na verdade, diversos outros instrumentos. A gravação se deu por alguns meses e teve produção minha e de Casey Wasner, foi uma ótima experiência. Tivemos o California Feetwarmes na faixa Old me better, os conheci em uma festa em Toponga Canyon em Los Angeles. Eles chegaram com os instrumentos em mãos e começaram a tocar, na mesma hora eu disse "Oooh, esses são os caras". Depois, mandei o material para eles e fizeram um trabalho fantástico. O disco foi indicado em três categorias, Melhor Álbum (Best Recorded), Melhor Americana (Best Americana) e Melhor Raiz Americana (Best American Roots). Fui indicado nessas três, entretanto não ganhei nenhum o que é Ok, pois apenas um artista em cinco ganha. Ser indicado já é bem legal.

 

UM - O seu último disco é formado por diversas canções ao vivo durante a turnê de 2016. Agora, o porquê do nome Hot Pink Blues?

 

KM - Rosa é uma cor divertida. Sempre que você vê um disco de blues é sempre uma capa de um lugar todo ferrado. A minha esposa me fez uma pergunta, "o que você quer que as pessoas sintam com esse disco?". E eu a respondi que o meu objetivo era as pessoas sentirem a alegria do show ao vivo, por isso fiz uma capa rosa!

 

UM - O seu disco com o Taj Mahal, TajMo, é excelente! Escutei algumas faixas pelo Spotfy. Você poderia falar sobre o disco e a parceria? 

 

KM - Acho que esse é o meu melhor trabalho em parceria, gravar com o Taj Mahal foi épico.

O Taj perguntou se eu toparia um disco há sete anos, claro que aceitei. Nós começamos a gravar mesmo sem ter muita certeza do resultado, de como seria a nossa parceria. No final, foi bem fácil trabalharmos juntos, gravamos TajMo e ficamos muito orgulhosos. Sairemos em turnê do disco por um ano, eu não vejo a hora. É muito emocionante! 

 

 

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