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Entrevista John Papa Gros

29.05.2017

 

 

   Um coroa gordo, mas não é o João Gordo. Um pianista de Nova Orleans e não o Dr. John. John Papa Gros - e ele deixa claro, pronuncia-se "grôu" - é um respeitado músico da mágica e acolhedora Nova Orleans e por trezes anos liderou a banda Papa Grows Funk, que tocou nesse período em uma das casas mais tradicionais da cidade, Maple Leaf Bar. 

   Agora em carreira solo, mistura o funk, o jazz e os ensinamentos de seu mentor Allen Toussaint. Após um período um tanto descrente com a música, lançou ano passado o bom disco River's On Fire. John Papa Gros falou sobre a trajetória profissional e alguns detalhes do seu último trabalho.

 

 

Ugo Medeiros - Como foi crescer em Nova Orleans, cidade com tanta diversidade cultural, diversão e boa comida?

 

John Papa Gros - Ser um nativo de Nova Orleans é uma honra e uma grande responsabilidade, especialmente como músico. Quando criança, cresci em Baton Rouge, cerca de 140Km subindo o rio a partir de Nova Orleans. Fui sortudo porque eu tive Nova Orleans como segunda casa, minha mãe sempre me levava para a casa dos meus avós que moravam lá. Eu tenho na memória, de forma bem viva, a "experiência" Nova Orleans desde muito novo: Cafe du Monde e Jackson Square no French Quarter, os bondes subindo e descendo pela St. Charles Avenue, o nosso belo City Park, a região do lago e o aroma dos frutos do mar frescos e, é claro, os desfiles de Mardi Gras e as bandas de marcha e as bandas de rua. Então quando me mudei para Nova Orleans para estudar na Loyola University em 1984 me senti finalmente em casa.

 

UM - Qual o estilo musical que melhor representa a cidade? O zydeco, o jazz ou o funk?

 

JPG - Nova Orleans é o berço do jazz, é a identidade da cidade. Fora esse jazz de Nova Orleans, veio a grande batida [Big Beat] do rock and roll que foi espalhada mundo afora pelo Fats Domino. Allen Toussaint pegou esse som e escreveu, produziu e/ou arranjou para Irma Thomas, Ernie K. Doe, Lee Dorsey e esse som, essa batida, evoluiu em direção ao funk e criou o som dos The Meters e do Dr. John. Já o zydeco e o cajun veio de Lafayette (também do estado da Louisiana) embora por caminhos paralelos, esse estilo celebra/representa uma cultura diferente da de Nova Orleans.

 

UM - Escutei alguns discos do Papa Grows Funk, que funk matador! Como a banda foi formada? Vocês tocaram em um casa específica por alguns anos, certo?

 

JPG - Papa Grows Funk começou em 2000 a comandar uma jam session à noite com os meus músicos favoritos naquela época. Desde a primeira noite noite foi mágico e assim foi durante os treze anos juntos até o último show. Apesar de termos tocado por todo os EUA e ao redor do mundo, éramos mais conhecidos por tocar toda segunda-feira à noite no Maple Leaf Bar na parte alta da cidade [uptown New Orleans]. Nós éramos uma banda única e, se tudo der certo, o tempo dirá que tipo de impacto causamos na música de Nova Orleans.

 

UM - Um dos discos do Papa Grows Funk, Needle in the Groove, foi produzido pelo Allen Toussaint. Como você o conheceu? Você poderia falar um pouco sobre o álbum?

 

JPG - Quando comecei o planejamento do disco Allen Toussaint estava no topo da lista de possíveis produtores e ele foi muito gentil em aceitar o convite. Passamos uma semana com ele no estúdio. Ainda me dá arrepios só de pensar que eu fiquei sentado próximo a ele e que conversamos sobre as músicas. Digo, eu tentava prestar atenção e absorver todas as palavras que saíam da boca dele, mas eu só pensava em artistas que também estiveram naquela posição, gente como Paul McCartney, Robert Palmer, Patti LaBelle, Elvis Costello. Foi um aprendizado, uma experiência incrível. O foco, a energia e a atenção aos detalhes eram constantes ainda que fossem dez horas por dia. Ele escutou e entendeu tudo o que queríamos gravar e conseguiu extrair e melhorar tudo aquilo para que resultasse no melhor.

Fiquei muito feliz, o Allen me "validou" como um compositor e músico típico de Nova Orleans e ainda me colocou na linhagem dos grande pianistas da cidade. Ele adorou as minhas músicas Yes Ma'am e Back home. Eu peguei todo esse aprendizado e apliquei no meu último disco solo, River's On Fire. Na nossa última conversa falei o quanto eu estava ansioso para que ele escutasse meu novo trabalho e ele se mostrou muito interessado. Infelizmente ele faleceu no segundo dia de gravação. Eu fico feliz em saber que River's On Fire foi inspirado nele.

 

UM - Falando em Allen Toussaint, quem melhor representa Nova Orleans, ele ou Dr. John?

 

JPG - Os dois, eles são Nova Orleans. O Dr. John é mais uma figura pública que representa Nova Orleans, mas o Allen foi o responsável pela fundação e criação da nossa música. 

 

UM - Como foi a transição para a carreira solo? É diferentes de liderar uma banda inteira como a Papa Grows Funk?

 

JPG - Com o Papa Grows Funk, todos os cinco membros contribuíam nas composições e na criação da música. Como artista solo sou o único responsável pela música. Estou muito animado com a nova banda porque posso mostrar quem é o músico John Papa Gros. Tem canções de funk, rock and roll, baladas amorosas e até um reggaezinho. Com o Papa Grows Funk eu era conhecido por tocar o Hammond B3, agora toco bastante piano. Tenho tocado até trompa [french horn], estudei nos tempos de faculdade, em algumas músicas.

 

UM - Você gravou o seu secundo disco solo, River's on Fire, ano passado. Por que demorou tanto, o seu primeiro foi de 2005, certo? Você poderia falar um pouco sobre o disco?

 

JPG - Em 2005 eu estava totalmente focado em seguir com o Papa Grows Funk depois do Katrina. Havia muita incerteza sobre o futuro de Nova Orleans como cidade. Nós nos comprometemos a continuar tocando e buscar um caminho por aquele cenário horroroso que cidade nunca havia experimentado. Desde aquela catástrofe o Papa grows Funk gravou três discos e excursionou bastante pelos anos seguintes, eu perdia mais tempos, digamos, nos negócios do que na minha música. Me sentia mais um homem de negócios do que um músico. Uma vez que o Papa Grows Funk encerrou as atividades, me afastei de vez dos negócios da música e me apaixonei novamente pela música em si. Voltei a escrever músicas até o momento que eu tive material suficiente para um disco. Felizmente, eu não estava com pressa e fiz tudo no meu tempo, senti que eu poderia aperfeiçoar e acrescentar as coisas que eu amo na música. Coloquei tudo isso nesse disco, é bom se empolgar novamente com a música.

 

UM - Li um depoimento seu sobre esse último disco, você compôs mais no piano do que na guitarra. Como isso alterou o seu som?

 

JPG - Eu não sou muito bom na guitarra e isso deixa as músicas mais simples, o que às vezes pode ser uma coisa boa. No piano posso explorar harmonias e ritmos mais complexos o que revelava uma maior profundidade na minha música. 

 

UM - Como foi gravar com o Brian Stoltz, um músico que gravou com Bob Dylan, Tab Benoit e The Meters?

 

JPG - Brian foi um dos meus heróis na música desde os tempos que ele tocava nos Neville Brothers. Felizmente, com o tempo, nos aproximamos, nos tornamos amigos e ele virou um irmão na música. Eu posso tocar as minhas ideias e ele sabe exatamente o que estou tentando dizer, ele tem um grande entendimento (melhor do que eu) de como pegar essas minhas ideias e colocar na gravação. Nossos gostos e influências musicais são bem parecidos (e bastante variados). Ele é um mestre em gravar canções, no groove e em sonoridades.

 

UM - A sua letra Cocaine and chicken fricassée, você poderia explicá-la?

 

JPG - Cara, o Papa Grows Funk tocou toda segunda-feira à noite por treze anos e durante esse tempo vi todo tipo de doidera. Foi tanta maluquice que acabou virando o usual. Quando algo MUITO louco acontece você tem que compor sobre. Cocaine and chicken fricassée elucida o bom, o ruim e o feio [The good, the bad & the ugly] de tocar por trezes anos às segundas-feiras.

 

UM - Uma outra me chamou atenção, Shaky Frank. Para mim é como se o Dr. John entrasse no rock and roll...

 

JPG - Obrigado! É um grande elogio. Musicalmente, ela veio a partir do rock and roll do Fats Domino com uma pitada de Dr. John. Liricamente, falar sobre a estória real de um personagem de Nova Orleans, Shaky Frank, o pintor de casas.

 

UM - E Why'd Ya do it? Tem um pé no reggae, né? O reggae foi uma das influência na sua vida?

 

JPG - Não foi uma grande influência, mas quem não gosta de Bob Marley? Um dos meus artistas favoritos é o Toots Hibbert do Toots and the Maytalls. Eu passei uma semana tocando na Jamaica e quando cheguei em casa toquei melodias de reggae no baixo por outra semana. Pensei, "é melhor eu fazer uma música com isso antes que me esqueça". E fiz. Essa canção me recorda a semana maravilhosa na Jamaica e o Toots. E se você escutar com muita atenção, tem alguma coisa de Neville Brothers também. Eles foram muito influenciados pelo reggae. Ya mon!

 

 

 

 

 

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