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Entrevista Ivan Mariz

20.12.2017

Ivan Mariz é carioca, tricolor doente e um guitarrista de mão cheia. Escutou muito Eric Clapton e Jimi Hendrix, mas seu tesão musical é o folk-rock de Neil Young, The Band, JJ Cale e outras feras. "(...) o folk está muito presente em minha vida. Entrei no rock escutando Bob Dylan. Nada mais normal que seguir esta influência até hoje". Fez história no Rio de Janeiro, na virada dos anos 1980/90, ao integrar os Sex Beatles e atualmente lidera o power trio Beale Street. O músico, que se apresenta toda semana na Delirium Tap House em Ipanema, tem uma Gibson 335 belíssima (digna de exposição no Museu do Louvre) e ainda arruma tempo para produzir deliciosos shitakes! Um bate-papo com um grandíssimo amigo que a música me deu, Mr. Ivan Mariz!

 

 

Ugo Medeiros – Ivan, você é um guitarrista extremamente talentoso, te conheci através da cena blues do Rio de Janeiro. Mas não te considero um guitarrista de blues, apesar de você tocar blues muito bem. Primeiramente, qual a sua formação musical? Ouso dizer que passa por Clapton, correto?

 

Ivan Mariz - primeiramente, obrigado pelas suas palavras. Não creio que eu seja tão talentoso assim (rs). Bem, na realidade, eu sou um genuíno guitarrista de blues que toca folk songs. Digo isso por uma específica razão: sou "pentatoniqueiro", ou seja, uso o recurso da escala pentatônica para tocar qualquer gênero musical. É uma escala usada e criada pelos primeiros bluesmen e dela vieram várias outras escalas. Sou muito limitado e acabei sendo um preguiçoso do cacete e, por isso, não investi em outras opções musicais e de escalas. O Rio de Janeiro é péssimo para um músico pois temos muitas atrações que podem nos desvirtuar do estudo como praia e montanhas. Ser vagabundo aqui é fácil, difícil é se aplicar em estudos com tantas bundas de fora nas praias cariocas (rs). Sim, com o Clapton entendi que o Blues e sua escala pentatônica podem ser inseridos em qualquer outro gênero. Até no Samba, que por sinal, me amarro. Contudo, entendo seu ponto de vista ao não me ver como um guitarrista de blues, justamente pelo fato de eu tocar muito folk rock, gênero que me amarro e difundo. E ainda, também não sou um guitarrista de blues tradicional. Entrei no blues pelo lado Britânico e até hoje me identifico com este estilo, é mais pesado e intenso que o americano.

 

UM – Por falar em blues e na formação musical, já tivemos esse papo ao vivo, NUNCA falaremos mal de Hendrix e outros gênios! Que fique claro! Agora, a parada é o folk rock, né?! The Band, JJ Cale, The Byrds...

 

IM - Como disse anteriormente, o folk está muito presente em minha vida. Entrei no rock escutando Bob Dylan. Nada mais normal que seguir esta influência até hoje. A minha diferença para outros músicos de blues é que a grande maioria fica no Blues. Quando tocam folk comigo, se embaralham um pouco e vice-versa. Muitos músicos de folk desconhecem como tocar blues, eu boto o blues no folk!

 

UM - Falando um pouco sobre a sua trajetória na música, você teve uma passagem por uma banda cover de Beatles, certo? Fale um pouco sobre essa banda.

 

IM - Bem, apesar do nome, os Sex Beatles nunca tocaram nada de Beatles nem de Sex Pistols. O nome da banda veio de um trocadilho bobo com as duas bandas. Uma que adoro, os Beatles, e a outra que desconheço completamente. Os Sex Beatles foram uma banda que, como disse o Dinho Ouro Preto, foi a derrocada do rock BR anos 1980 mas foi o link para o rock BR dos anos 1990. Segundo ele, graças aos Sex Beatles, o Capital Inicial retornou. Era uma banda de Rock autoral e totalmente em português. Foi uma banda aclamada pela crítica e por muitos formadores de opinião como Renato Russo, que gravou uma música conosco, Marina Lima, Lulú Santos, Paula Toler, que tb gravou conosco, Dado Vila-Lobos entre outros. Para mim o nome Sex Beatles contém as duas melhores coisas do mundo num nome só: Beatles e sexo (rs)!

 

UM - Você chegou a tocar um tempo com a Paula Toler? Como foi isso?

 

IM - Caramba! Respondendo sua pergunta e agora, na rádio que está sintonizada aqui em casa, Antena 1, está tocando a Paula. Não, infelizmente, nunca toquei com ela. Na realidade, ela gravou backing vocal numa música do primeiro álbum dos Sex Beatles e era uma amiga querida e frequentadora de nossos shows. Uma mulher linda, charmosa e super educada.

 

UM - O seu principal projeto é o Beale Street. Como/quando nasceu a banda? Vocês gravaram dois discos e tocaram demais pelo Sul do país. Novamente, tem muito mais folk-rock, tem uma versão belíssima de The Weight  (The band)...

 

IM - Sim, o Beale Street está alcançando a maioridade este ano, 18 anos de banda, dois álbuns e um dvd lançados com muito esforço como qualquer trabalho independente. O Beale começou com um ex-sócio meu no estúdio de ensaio Bulldog, em Ipanema, que também é baterista, o Alexandre Baca. Ele tocou comigo no Blues & Cia de 1986 a 88, banda que também tinha o Gabriel Moura no baixo. Depois formamos, nós três, o Baleia Blues de 1988 a 89. Em 1990 passei um tempo na Austrália e quando voltei fui convidado a ingressar nos Sex Beatles no lugar do Dado Villa-Lobos que, por questões contratuais com o Legião Urbana, não podia participar de outra banda. Em 1999, quando surgiu o Miller Time & Blues, um festival muito legal, resolvi, junto com o Baca, buscar um baixista para formarmos um power trio, o qual eu já tinha o nome na cabeça: Beale Street. Nos ensaios em nosso estúdio, escutávamos as bandas que ensaiavam para tentar encontrar um baixista que fosse bom e gente boa. O destino foi generoso comigo e pôs o Cesar Lago em nosso caminho. Além de ser um incrível baixista, é um irmão que a música me deu. Sou eternamente grato com este encontro. O nome Beale Street está em toda literatura sobre Blues, é uma rua em Memphis onde, suponho, o Blues deixou de ser acústico para se tornar elétrico. Na Beale Street, B.B. King começou com o case de sua guitarra aberta para ganhar uns trocados e hoje, lá, existe o B.B King Club. O Beale tocou muito no Rio Grande do Sul, no advento do Mississippi Delta Blues Bar e, por sua vez, no MDBF (Mississippi Delta Blues Festival). Em 2009, com a saída do Baca para morar ir em Teresópolis, realizei o sonho de ter na banda o talentoso e amigo Beto Werther, ex-Big Allanbik. O primeiro álbum solo do Beale tinha mais blues, no segundo incluímos mais material autoral em português e a versão de The Weight com amigos participando, como um grand finale.

 

UM - Além do Beale Street você toca com a Só Gansgster, projeto 100% folk-rock. ADORO essa banda! Poderia falar um pouco sobre a banda e o repertório?

 

IM - Legaaaal! Adorei saber que você gosta da Só Gangsters. É uma banda "leve", sem pretensão e com muito alto astral. Pincei cada integrante não só pelo que tocam mas pelo que são. É uma banda para não nos aborrecermos entre nós. O lema é: dá pra fazer? Não dá, tranquilo. Os caras são fenomenais e a energia contagia o público. É um repertório "lado B do lado B". Músicas que quase ninguém conhece mas que todos adoram. Uma vez, num show na Barra, uma turma que nunca tinha escutado as músicas dançou o show inteiro! Os caras vieram falar comigo que nunca tinham dançado músicas que não conheciam, e olha que era uma mesa de mais de 30 pessoas. A Só Gangsters é uma tentativa de sair um pouco da onda blues e tocar coisas que escutei a vida toda no meu quarto mas que nunca toquei em nenhuma das bandas nas quais toquei. Em 2016, com alguns meses de existência, fomos convidados para tocar no MDBF, no Folk Stage, e foi muito legal! Na realidade, antes dos Jogos do Rio, andei frequentando muito a Tijuca, que estava sendo um bairro com vários bares de blues e rock. No Duck Walk, na Rua Ceará, o Felippão Santos fazia uma residência e tinha convocado o Beto Brown (baixo), o Alexandre Barcelos (guitarra) e o Rabicó (na batera). Eles tocavam e levavam adiante a proposta de tocar Blues naquela região, que é um baixo meretrício danado mas também muito rock'n'roll. Depois de ser convidado pelo Felippão para fazer um som com eles, pensei: "vou roubar esses caras do Felippão" (rs). E assim surgiu a Só Gangsters, banda que tenho muito carinho.

 

UM - A sua guitarra, uma Gibson 335, é uma das mais lindas que eu já vi. Pode contar um pouco sobre a história dela? Você a comprou em Londres, né?

 

IM - A minha Gibson é realmente muito rara. Se chama ES - Artist 335. Eu a comprei em Londres em 1984 quando tinha dezoito anos, numa viagem com mais dois amigos. Foi muito cara na época mas foi o melhor negócio que fiz na vida. Ela é uma preciosidade e todas a marcas dela foram feitas comigo. Uma guitarra única e fica melhor com o passar dos anos, prova da qualidade de um instrumento que vai me enterrar e vai ficar para minha filha. Nunca a deixo no carro ou em um bar. Está sempre comigo e tem cheirinho.

 

UM - Você tem liderado um projeto musical na Delirium Tap House (Ipanema), sempre chamando um convidado bem bacana. Pode contar como começou e sobre o projeto em si? Sei que foi através do nosso amigo/sensei/enciclopédia do rock, Sérgio Simon...

 

IM - Você tem que ir mais vezes beber conosco aquelas maravilhas que tem na Delirium Tap House. O sommelier Sergio Siciliano é um lord, um cara super antenado e uma de pessoas de melhor caráter que conheci na vida. Ele implementou a filosofia blues e rock na casa e, além de ser o sommelier da casa, teve a visão de fazer noites de blues e rock num espaço que antigamente era mal aproveitado. Ele, sem ser músico, é uma enciclopédia ambulante de rock e blues. Alinhado com sua proposta inicial, comecei a chamar meus amigos do blues para tocarem comigo, sempre de forma intimista e sem muito glamour, mas com muita energia e bom senso. Ao tocar num bar, o músico deve ter bom senso, sacar qual é a do público e não impor a música quando os clientes da casa estão numa de conversar. Contudo, muitas vezes, quase botamos a casa abaixo. É uma casa que trata o músico com respeito e carinho. Diferente de muitas outras que tratam músicos como capacho.

 

UM - Vou fazer aquele bate/volta, pode justificar ou não, fique à vontade! A primeira, Beatles ou Rolling Stones?

 

IM -  Divido este quesito em trimestres, três para os Beatles, três para Stones, depois mais tres para os Beatles e fechando o ano mais três para os Stones.

 

UM - Neil Young ou The Band?

 

IM - Divido o ano em dois: por 182 dias escuto Neil Young, nos demais 183 dias escuto The Band.

 

UM - Allman Brothers ou Creedence?

 

IM - Um ano Allman, no ano seguinte Creedence.

 

UM - Ver o Flamengo campeão com o Fluminense livre do rebaixamento OU Flamengo vice e Flu rebaixado? (Desculpe, mas não resisti! Rs).

 

IM - Rapá, por causa de pessoas como você, Cesar Lago, Leo Torresini, Sergio Siciliano Simon e outros, não consigo odiar o Flamengo. Aliás, como digo para meus comparsas tricolores: "eu teria, um desgosto profundo, se faltasse o Flamengo no mundo...".

 

UM – Além da música você tem produzido shitake, diga-se, MARAVILHOSO! Como começou essa atividade?

 

IM - O cultivo de cogumelos shiitake surgiu da necessidade de fazer meu sítio em Teresópolis gerar renda. Hoje em dia é a minha atividade mais lucrativa e a que estou depositando minha fichas. Obrigado por gostar dos shiitakes, são cultivados com muito carinho e esforço. São tratados a pão de ló e, seguindo uma filosofia que conheci perto de Caxias do Sul, muita música clássica. Claro, de vez em quando um blues pra dar uma tensão porqie ninguém é de ferro, nem mesmo os shitakes aguentam tanta calmaria assim né (rs)... [Clique aqui para conhecer a Shitakeria dos Ursos!]

Quero te agradecer de coração a oportunidade de falar com os seguidores de suas entrevistas. Você é um irmão querido e ainda vamos curtir muita coisa juntos. Abração a todos!

 

 

 

 

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