Entrevista Julian Sas

04.01.2018

    A Holanda tem muito a oferecer além da Heineken, dos Coffee Shops e da alucinante obra de Van Gogh. Um produto tipicamente holandês é o blues-rock de Julian Sas, que há quase vinte anos quebra tudo em suas apresentações. O cara é um animal com a guitarra e revela de onde retira um som pesado inspirador, "(...) as influências da minha banda vêm de Jimi Hendrix, John Mayall, Johnny Winter, Rory Gallagher, Muddy Waters, Freddiee King, Allman Brothers e tantos outros". Pesado, sim, mas nem por isso Julian esqueceu as raízes musicais que deram vida ao rock e ao blues, "eu domino diversos estilos e fui bem a fundo, sou um viciado em música! Quando escrevo letras e componho músicas sinto todos esses estilos. Meu estilo de blues favorito ainda é o velho delta blues, é o estilo que mais me inspira na hora de compor o meu material".

   O holandês, super gente boa, ainda conta sobre a admiração ao Rory Gallagher, o qual considera o criador do blues-rock europeu ao lado de Eric Clapton. "Seu legado na Europa é muito grande porque ele e o Cream fundaram o primeiro (e original) blues-rock europeu. Escute a primeira banda dele, Taste, e você entenderá!", explica. O guitarrista ainda contou os detalhes de alguns discos da consistente carreira, em especial sobre os dois últimos, Coming Home e Feelin' Alive. 

 

Ugo Medeiros - A Holanda tem uma forte tradição no blues, podemos mencionar o Climax Blues Band. Os grandes nomes do blues sempre tocam ao menos em Amsterdam. Você poderia falar sobre essa cena blues-rock no país?

 

Julian Sas - Bem, sendo bem honesto, quando falamos em blues-rock, aquele estilo setentista com elementos de jam bands (muita improvisação), nós somos a única banda na Holanda. Agora, nós algumas bandas que tocam estilos raiz e o blues tradicional, alguns bons músicos que tocam acústico. A cena de blues costumava ser maior e com mais bandas. Como eu disse anteriormente, as influências da minha banda vêm de Jimi Hendrix, John Mayall, Johnny Winter, Rory Gallagher, Muddy Waters, Freddiee King, Allman Brothers e tantos outros. Nunca pensei em tocar de forma tradicional, quanto mais eu tocava mais eu o fazia de forma própria, com a minha própria identidade e acho que tem funcionado perfeitamente. Eu devo ter feito alguma coisa boa (rs).

 

UM - Eu entrevistei há alguns meses o bluesman inglês Ian Siegal, que atualmente mora na Holanda. Ele me disse que os músicos holandeses têm grande facilidade para tocar estilos raízes, como o blues e a americana. Você concorda? A música tradicional holandesa dá essa maior facilidade ou isso de nada tem a ver? 

 

JS - Nós tocamos algumas vezes juntos em jams, sempre muito bacana, bons momentos. Concordo parcialmente com ele. A música tradicional holandesa é bem diferente daqueles estilos e não vejo uma ligação entre eles, sobretudo porque a música holandesa não tem aquele groove ou swing que você encontra na americana ou no soul ou no blues. Agora, os músicos holandeses são grandes ouvintes, têm uma forte tradição de fazer covers (tocar as músicas de outros), acredito que venha daí o fato deles conseguirem tocar esses estilos! Claro, alguns músicos mergulharam de cabeça e se tornaram mestres nesses estilos. Falando agora no meu caso, eu domino diversos estilos e fui bem a fundo, sou um viciado em música! Quando escrevo letras e componho músicas sinto todos esses estilos. Meu estilo de blues favorito ainda é o velho delta blues, é o estilo que mais me inspira na hora de compor o meu material.

 

UM - Gosto bastante do seu disco Ragin' River. Você poderia falar sobre o disco?

 

JS - Esse disco foi em um período muito difícil para mim e os membros da banda, excursionamos demais e escrevemos muita música. Um dos membros passava por situações bem complicadas naquela época e nós enfrentamos juntos, como uma banda. E ainda chegou um baixista novo algumas semanas antes das gravações. Foi um período negro. É sobre isso tudo que a canção Ragin' river fala, mas, passado o furacão, tenho muito orgulho do disco porque ele é muito pessoal, único, e nos deixou mais fortes como grupo. O disco em si tem canções bem diferentes, do boogie até às baladas, uma pegada mais southern, rock'n'roll e delta blues. A maioria dos fãs adora o disco, mas a canção-título fala sobre isso tudo.

 

UM - Ainda sobre Ragin' River, o que você prefere: um blues mais pesado/rápido (como Like devil woman) ou um blues lento (como a canção Ragin' river)?

 

JS - Nesse caso, prefiro Ragin' river porque, como disse anteriormente, ela fala sobre aquele período em nossas vidas...

 

UM - Eu amo blues acústico, a canção Signature blues é fantástica! O disco Ragin' River traz algumas faixas acústicas extras (não cheguei a escutar, o Spotfy não disponibiliza!), mas você considera gravar um disco inteiramente acústico?

 

JS - Essa é uma pergunta que eu me fiz diversas vezes e a resposta é "sim", apenas não sei quando nem o tipo de música que eu gostaria de gravar. Seria apenas blues acústico ou, talvez, algo de texas swing ou americana? Todas essas questões e possibilidades de tocar diferentes estilos musicais... É difícil decidir o que eu realmente quero, porém eu garanto que um dia acontecerá (rs). Amo tocar acústico, apenas não me organizei mentalmente ainda.

 

UM - Ainda sobre discos, eu te conheci através de um sebo de vinis e CDs no Rio de Janeiro. Eu descobri o blues e a maior parte dos novos guitarristas nessa loja. Tipo, a coisa de entrar, ver e comprar o disco. Você sente falta desse tempo? Naqueles tempos havia uma conexão física entre músico e ouvinte, certo?

 

JS - Sim, eu sinto falta disso, mas na Holanda aos poucos está voltando. A coisa do vinil está voltando, assim como as lojas de discos. Quando eu era mais novo, um dos meus hobbies favoritos era ir ao centro e visitar as lojas de discos, ver as novidade, comprar alguma coisa. Chegar em casa e colocar na mesa da vitrola e viajar com aquela música nova. INCRÍVEL! Ainda temos que esperar e ver o que o futuro nos trará. A música digital é legal para explorar, mas a parada é quando você segura o disco e coloca para escutar. Tenho esperança que isso tudo volte.

 

UM - É verdade que você é um grande fã do Grateful Dead? Eu AMO o Dead, sou um Dead Head! Você poderia falar sobre a banda?

 

JS - Basta escutar e você entenderá (rs). O Grateful Dead é uma das minhas bandas favoritas de todos os tempos, eles apenas tocavam o que sentiam, com grandes poemas e ótimas canções. Os covers que tocavam eram inacreditáveis. E o Jerry Garcia até hoje é um dos meus guitarristas favoritos, um estilo único e um som maravilhoso. Grande inspiração.

 

UM - Bound to Roll é um grande álbum, me lembra um daqueles bares de beira de estrada! Acho que, justamente, por isso traz Highway 61 revisited do Bob Dylan. Mas um outro cover me chamou atenção: Shadow play do Rory Gallagher. O considero um guitarrista subestimado, sobretudo fora da Europa. Você poderia falar sobre o legado do Gallagher e, claro, sobre o cover de Shadow play?

 

JS - Highway 61 foi um tributo ao grande Johnny Winter. Eu o vi diversas vezes e ele foi uma grande influência na minha forma de tocar o slide. O Rory Gallagher era um guitarrista único, com grandes canções, um dos mais talentosos que eu já vi. A primeira vez que o vi me causou uma impressão fora do normal, a ponto de eu decidir largar a escola e me tornar um músico profissional! E eu ainda o agradeço por isso (rs)! Seu legado na Europa é muito grande porque ele e o Cream fundaram o primeiro (e original) blues-rock europeu. Escute a primeira banda dele, Taste, e você entenderá! Shadow play foi uma das primeiras músicas dele que escutei ainda moleque, e naquele momento prometi a mim mesmo que um dia a gravaria. Cumpri a promessa em Bound to Roll. Amo a canção, a letra, a estrtura em si, o riff é sensacional e o tempo dos acordes para a guitarra solo é lindo para tocar. É a minha favorita do Gallagher, de longe, MUITO longe! Sou fã dele até hoje, ainda é um dos melhores . Claro, essa é a minha humilde opinião.

 

UM - Eu escutei o disco Coming Home, é o meu favorito porque ele é extremamente bem equilibrado entre rock e blues. Ele traz um teclado bem pesado, né? A faixa Jump for joy me lembra o teclado do Grand Funk Railroad. Você poderia falar sobre o disco?

 

JS - Esse órgão pesado tem nome, Roland Bakker (rs), eu o conhecia há anos e sempre o quis nas sessões de gravação. A cooperação dele foi tão bonita, ele veio pra banda e me deu asas, inacreditável. Cara excelente, grande músico e um baita compositor, portanto eu não o deixarei ir embora (rs). O disco foi gravado em um estúdio na região onde moro, até a capa de uma floresta é perto de mim. As canções são biográficas e duas delas falam sobre a perda de dois grandes amigos, Walking home with angels e Fear of falling. Já Brighter days e A change is gonna come são sobre esperança. Shame on you é uma música mais dark, com sentimentos mais pesados, eu adoro tocar essa. É um disco com a minha cara, bem pessoal, e é um dos que mais gostei de gravar. Vê só, a canção Coming home foi para o meu pai. Nós voltamos para uma banda com quatro integrantes: Roland Bakker (órgão hammond), Fotis Anagnostou (baixo), Rob Heijne (bateria) e eu na guitarra e nos vocais. A melhor banda que eu já tive.

 

UM - Ainda sobre esse disco, todas as canções são autorais. Isso é muito legal porque você não é um bluesman que vive de shuffles clássicos...

 

JS - De fato, não. Eu tento escrever o meu próprio material em vez de fazer uma porrada de covers. Às vezes fazemos alguns covers, mas sempre por uma razão especial. Nós temos facilidade em compor e temos sempre muita inspiração pois estamos sempre improvisando durante os ensaios e as passagens de som. Por isso novas e boas músicas saem do forno, pensamos como músicos de jazz, em constante jam, deixando a música nos levar. Para nós, música é liberdade e é isso o que nós tocamos.

 

UM -  Ainda não escutei seu novo disco, Feelin' Alive. Poderia falar sobre o disco?

 

JS - É o disco ao vivo da turnê do Coming Home (2016), passamos por todo o continente europeu novamente. É um disco ao vivo cheio de adrenalina e com a energia lá em cima, exatamente como nós tocamos. É um disco ao vivo natural, o disco começa e você entra naquele trem de boogie, o disco termina e você sai do trem (rs). Foi divertido escutar todo o material e escolher as faixas que entrariam no disco. Os fãs queriam um disco duplo ou triplo, mas nós já gravamos três discos ao vivo duplo, decidi por um simples mesmo. Pra mim, a música no disco representa tudo o que sentimos naquela turnê. Faça um favor, vá e escute o disco (rs)!

 

UM - Muito obrigado pela sua atenção, Julian! Para concluir, gostaria de te falar que quando coloco alguma música sua no máximo, minha filha de dois anos começa a pular e a dançar! É incrível! Espero vê-lo no Rio de Janeiro o quanto antes!

 

JS - Obrigado, bicho, a garotinha pula de alegria como em Jump for joy! Eu escrevi essa música para o meu filho de sete anos. Quando eu tocava o riff da música ele começava a dançar e a pular pela sala e dizia "papai, essa é uma música feliz". Claro que isso me fazia rir, ele pulava de alegria. A letra é sobre uma banda que chegou em uma cidade e rolou uma conexão forte entre o grupo e o povo através da música. Agora você sabe. Eu espero ir o quanto antes, dê um alô a todos (rs)! Se você precisar de qualquer coisa, me dê um toque, sem problema, porque nós conversamos sobre música, meu amigo. Tome um drink por mim. Cheers, Julian.

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

anuncie aqui

Destaques:
Please reload

 procurar por TAGS: 

© 2017 Coluna Blues Rock

Brasil

  • Instagram ícone social
  • Twitter Social Icon
  • Facebook Social Icon
  • YouTube Social  Icon