Entrevista Toquinho

08.01.2018

   O que escrever sobre um gênio? Confesso que essa entrevista gerou uma enorme dificuldade a este medíocre editor. O conflito em perguntar sobre o clássico mas parecer batido ou inovar e soar como um herege musical. Por onde começar? Como indagar? A melhor saída, deixá-lo à vontade. "Dificilmente acontecerá em minha carreira uma parceria tão profícua e importante que a com Vinicius de Moraes, consolidada pela generosidade, pela compreensão das diferenças e pela troca de talentos. Enfim, trocamos vivências: eu passei para ele a experiência da juventude; ele me transmitiu a juventude da experiência", relembra sobre o grande amigo Vinícius de Moraes.

   O grande mestre do violão e da música popular brasileira - Por Deus! Quando alguém de maior intimidade imaginou uma entrevista com um ícone da MPB no Coluna Blues Rock? - ainda opinou sobre as possíveis ligações do blues e do samba, "Tudo isso se refletiu na música popular, que concentrava em seu conteúdo a vida cotidiana, ecoando mais livremente sobre seus sentimentos privados, cantando suas fraquezas, seu medo da perda, seus sentimentos com relação aos sonhos e objetivos de liberdades. Tanto o blues como o samba refletem as mesmas aspirações". E ainda registrou a experiência de ter participado da geração de ouro da música brasileira, "Pertenço a uma geração privilegiada, que carrega em sua trajetória musical, ao longo do tempo, toda beleza da estrutura melódica da Bossa Nova. Soubemos conservar essa qualidade através das várias gerações e das muitas tendências musicais".

   Este site tem uma identidade blues-roqueira, inegável!, e desde o seu nascimento traz o melhor desse mundo. Porém, há tempos, esse que vos escreve, largou o fanatismo e se propôs a escutar. Escutar tudo o que fosse de qualidade, enriquecendo os sentidos, alargando os sentimentos, adocicando ferida amargas. A música de Toquinho é um incrível remédio contra a rabugice musical, e digo por experiência própria! Viva Toquinho!

 

Ugo Medeiros - Bom dia, Sr. Toquinho! É uma imensa honra trocar meia dúzia de palavras com o Sr.! Tenho que admitir que eu era aquele típico roqueiro bairrista com a música popular/instrumental brasileira (rs). Passados esses anos de radicalismo musical, vejo hoje o quanto a nossa música é simplesmente fantástica! Entrevistei certa vez um dos produtores do Michael Jackson, Larry Williams, que também tocou com muitos músicos brasileiros, e ele disse que a música brasileira é única pela riqueza na harmonia. O Sr. concorda com essa análise? A harmonia de fato é o diferencial na nossa música?

 

Toquinho - Tive o privilégio de conviver e aprender muito de harmonia com Edgard Gianullo e Oscar Castro Neves, verdadeiros ícones da harmonia no Brasil. A música brasileira sempre se destacou por suas melodias harmonizadas com originalidade. Desde Pixinguinha e Radamés Gnattali, considerado por Tom Jobim como seu professor, até Johnny Alf, que dotou a estrutura musical com suas melodias e harmonias revolucionárias, consideradas precursoras da Bossa Nova.  Aí surgiram Roberto Menescal, Carlos Lyra, Baden Powell e a insuperável simplicidade sofisticada de Tom Jobim, esse, genial!

 

UM – Falando em riqueza musical/harmônica, foi o samba o estilo preponderante na sua formação musical? Ou o Sr. também consumiu na sua juventude músicos de violão clássico, como Canhoto e Dilermando Reis? Pergunto, pois a sua música une a exímia técnica de músicos como os acima citados e a profundidade dos sambas mais antigos...

 

TO - Durante minha infância eu ouvia de tudo, desde Luiz Gonzaga até Chopin, com predomínio, claro, dos sambas antigos e, depois, com o advento da Bossa Nova, fiquei totalmente ligado àquelas composições que acabaram por encantar o mundo inteiro. O violão de João Gilberto me fascinava, aquela maneira simples como ele lidava com harmonias revolucionárias, tudo isso me levou a aprender a tocar violão. O aprimoramento veio aos poucos, inclusive com Isaias Sávio, com quem tive noções de violão clássico, jamais me afastando do virtuosismo dos mestres Canhoto e Dilermando Reis.

 

UM – Por falar em “profundidade” e samba, minha pesquisa para um possível mestrado será uma comparação entre o blues e o samba. Fiz essa mesma pergunta para um dos maiores especialistas em blues vivo, Mr. Peter B. Lowry, e agora faço ao Sr. Aquela tristeza solitária do blues agrário/acústico tem algo a ver com o samba? Digo, as influências africanas, elas têm um DNA em comum?

 

TO -  Estados Unidos e Brasil eram habitados por povos nativos antes da chegada dos colonos europeus, predominando a escravidão até a segunda metade do século XIX. O começo do século XX foi marcado por grandes transformações em ambos os países, com a abolição da escravidão. Tudo isso se refletiu na música popular, que concentrava em seu conteúdo a vida cotidiana, ecoando mais livremente sobre seus sentimentos privados, cantando suas fraquezas, seu medo da perda, seus sentimentos com relação aos sonhos e objetivos de liberdades. Tanto o blues como o samba refletem as mesmas aspirações.

 

UM – O Sr. se dedicou bastante à música infantil, um trabalho muito legal, acho bacana ter músicas infantis com qualidade musical. Tenho uma filha de dois anos e ela sempre sorri/dança com um blues de Nova Orleans cantado em francês. É mais uma prova que a música é um idioma universal, né? Como surgiu essa ideia?

 

TO - A ideia partiu de Vinicius, que me incentivou a musicar alguns poemas de seu livro Arca de Noé. Eu nunca tinha feito um trabalho dessa natureza. Esse trabalho para o público infantil, iniciado em 1980 em parceria com Vinicius de Moraes nos discos Arca de Noé e Arca de Noé 2, ganhou um aspecto de maior responsabilidade por atrair criaturas em formação educacional e de cidadania. Depois realizei mais dois trabalhos para crianças. Com Mutinho, o disco Casa de Brinquedos, em 1983, e com Elifas Andreato, Canção Para Todas as Crianças, em 1986. Sempre trabalhei com essa preocupação, ou seja, de falar para elas coisas sérias em tom de brincadeira. A única maneira de conquistar a criançada, que há tempos já representa a renovação de meu público. Numa carreira de mais de cinquenta anos, tudo se torna importante. Desde o maior sucesso até a canção mais desconhecida, que, certamente, nasceu também da dedicação e do empenho criativo.
 

UM – O Sr. tocou com gênios da música brasileira, gente como Tom Jobim e Vinicius. Não quero ser chato ao perguntar o que sempre te perguntam há quarenta anos! Mas, o que cada um desses te ensinou? Seria correto dizer que o Tom te ensinou mais sobre música e o Vinicius mais sobre a vida?

 

TO - Dificilmente acontecerá em minha carreira uma parceria tão profícua e importante que a com Vinicius de Moraes, consolidada pela generosidade, pela compreensão das diferenças e pela troca de talentos. Enfim, trocamos vivências: eu passei para ele a experiência da juventude; ele me transmitiu a juventude da experiência. E nos completamos na música e na amizade. Nossa música, simplesmente sofisticada, aflorou e se consolidou em meio ao predomínio do Tropicalismo, e reacendeu nas pessoas os valores do samba de raiz. Além disso, faço parte de uma geração privilegiada, herdeira da estrutura musical da Bossa Nova, que nos confere ainda, até hoje, a qualidade maior no cenário musical brasileiro. A parceria com Vinicius me consolidou como compositor, e ele era também um grande músico. Foi um privilégio ter participado tão de perto da exuberância humana de Vinicius, que soube transformar em poesia a paixão que tinha pela vida.
A convivência com Tom Jobim aperfeiçoou não somente meu enfoque musical, mas a consciência sobre a relação homem e existência plena e simples. Ele era genial em suas observações sobre a riqueza da simplicidade em todos os aspectos.

 

UM – Ainda sobre o Vinicius, o Sr. o conheceu de fato em 1969, antes de uma turnê em Buenos Aires? Como foi esse encontro? Eu li que a canção em parceria preferida era Tarde em Itapoã. Por quê?

 

TO - Passei a conviver com Vinicius de Moraes a partir de junho de 1970, quando fizemos uma temporada de shows em Buenos Aires, na boate La Fusa, que contava também com a participação de Maria Creuza. Essa temporada em La Fusa tornou-se inesquecível. Era o início de minha carreira, estimulado por Vinicius de Moraes. Tudo contribuiu para uma evolução profissional. O sucesso do show, a dimensão que tomou o disco que gravamos, até hoje em catálogo, o ambiente alegre e descontraído, uma festa a cada apresentação. Fica tudo isso na memória, renovado a cada show que faço atualmente.  A canção Tarde em Itapoã foi uma das primeiras que fizemos. É um poema lindo que Vinicius ia dar para Dorival Caymmi musicar. Quando soube, não tive dúvidas, “roubei” o papel onde estava escrito, fiquei três dias tentando compor uma melodia que se ajustasse perfeitamente àqueles versos, e consegui. Quando mostrei ao Vinicius, ganhei o poeta definitivamente. Ele passou a confiar inteiramente em mim como parceiro musical.

 

UM – Olha, tenho que agradecer ao Sr., sempre que eu brigava com a minha mãe (culpa minha sempre!), colocava o DVD do Vinicius e Cia. na TV italiana. Aquilo quebrava qualquer mau clima e nos fazia sorrir! O Sr. poderia falar sobre aquela gravação/turnê?

 

TO - A Itália sempre nos ofereceu momentos gloriosos, e continuou me oferecendo mesmo depois da morte e Vinicius, até hoje. Esse DVD mostra um pouco do que foi nossa relação com o público italiano, além da afinidade desse público com nossa música. Registra uma época de grande produtividade criativa e constante.

 

UM – O Sr. é de uma geração em que a música brasileira soava “doce”, era romântica. E foi justamente em uma época de grande repressão. Primeiramente, sem querer soar como o saudosista ao estilo “antigamente era bom, hoje é tudo ruim”, o Sr. enxerga nessa geração a mesma capacidade técnica/musical/criativa daquela época? Ainda em tempo, detesto colocar questões políticas, mas.... como o Sr. se sente ao ver gente pedindo a volta daquele regime militar?

 

TO - Pertenço a uma geração privilegiada, que carrega em sua trajetória musical, ao longo do tempo, toda beleza da estrutura melódica da Bossa Nova. Soubemos conservar essa qualidade através das várias gerações e das muitas tendências musicais, consolidando as características essenciais da Bossa Nova em nossa obra, fazendo com que ela se perpetue no tempo e no espaço musical sem perder seu valor inconfundível e vitalício, inclusive o cenário internacional. Dificilmente surgirá no cenário musical brasileiro talentos semelhantes, que soube, inclusive, burlar com incrível criatividade a censura dos anos de 1970 imposta por um regime militar que dificilmente se instalará em nosso país pela consciência democrática adquirida pelo povo nessas últimas décadas, apesar da desastrosa corrupção.

 

UM – Em 1967, se não me engano em São Paulo, houve a Marcha Contra a Guitarra Elétrica. É curioso, pois, certa vez, entrevistei o Sergio Hinds (O Terço) e eu o perguntei se aquele evento representava de fato a época ou se fora apenas algo muito pontual. E ele, roqueiro, me disse que foi pontual. Agora pergunto, o Sr. participou daquilo? Naquela época, como o Sr. encarou aquilo? E hoje em dia, algum arrependimento?

 

TO - Desde o início de minha carreira como compositor perdura a sensação de uma constante renovação e de um contínuo aprimoramento. A cada ano a descoberta de novas técnicas e desafios. Essa longa trajetória só pode ser alcançada com muita dedicação. Eu me considero um artesão, sempre apoiado no violão que representa o início e o desenvolvimento de tudo,  sem ter nada contra a guitarra elétrica quando usada nas tendências musicais adequadas.

 

UM – O Sr. estreará no palco do Blue Note Rio, uma das casas de jazz mais tradicionais do mundo, nos próximos 12 e 13 de janeiro. O Sr. já havia tocado na Blue Note original? Sobre o show em si, qual será o formato, Toquinho e um violão ou virá com uma banda completa? O Sr. poderia falar sobre o repertório?

 

TO - Procuro fazer um show intimista possibilitando a aproximação com o público na apresentação de sucessos que as pessoas gostam de ouvir alinhavados por solos de violão em contraponto com o relato de casos curiosos que marcam minha trajetória artística. Nesta apresentação, estarei apenas com meu violão, tendo como convidada especial a cantora Camilla Faustino, com quem tenho feito vários shows.

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

anuncie aqui

Destaques:
Please reload

 procurar por TAGS: 

© 2017 Coluna Blues Rock

Brasil

  • Instagram ícone social
  • Twitter Social Icon
  • Facebook Social Icon
  • YouTube Social  Icon