Entrevista Luciano Leães


É um desrespeito taxar Luciano Leães como uma revelação no piano blues, o cara já está na estrada há vinte anos, tocou em bandas importantes como Fernando Noronha & Black Soul e dividiu palco com monstros consagrados. "O John Primer eu toquei em um show aqui no sul e eu tive o prazer de dividir o palco com Magic Slim, Hubert Sumlin e Carey Bell ao mesmo tempo em um Natu Blues Festival em Curitiba. Nesta ocasião eu era o pianista da banda do Carey Bell na turnê brasileira de 2002. Foi um momento incrível!".

O pianista gaúcho é puro talento, fato este confirmado pelo ótimo disco de estreia, The Power of Love. São onze faixas que trazem o melhor do blues, R&B e funk de Nova Orleans, uma deliciosa mistura cultural com temperos musicais bem apimentados. Altamente recomendado! Sobre o trabalho, Luciano diz que "(...) o disco cumpre o papel de apresentar quem eu sou, pois ele retrata várias épocas destes vinte anos de carreira musical".

O Coluna Blues Rock tem o (bom) costume de entrevistar dinossauros aclamados, mas é sempre um enorme prazer ver um artista de tanto potencial fazendo barulho no Brasil e sendo reconhecido nos EUA. Luciano Leães não te decepcionará, certeza disso! Aumente o som e teletransporte-se à mágica Nova Orleans!


Ugo Medeiros - É um grande prazer trocar essa ideia contigo, quando eu cliquei o seu disco no Spotify (que apareceu como sugestão) fiquei impressionado com o seu som! E é sobre o seu estilo que eu gostaria de começar essa entrevista. Você faz um piano ao melhor estilo Nova Orleans. Esse som te acompanha desde moleque ou você conheceu apenas depois? Digo, você já pirava nessa onda Dr. John, Professor Longhair e Allen Toussaint desde cedo ou você começou por outros músicos?


Luciano Leães - Imagina! O prazer é todo meu. Fico feliz que tenha gostado do disco. Sobre a tua pergunta, eu já tocava piano na casa da minha vó, por volta dos sete anos, junto com meus tios. Lá pelos treze descobri os pianistas Johnnie Johnson e o Lafayette Leake nos discos do Chuck Berry. Eu passava tardes tentando tirar aquele piano das fitas K7 do Chuck. O rock foi a porta de entrada para o universo do blues, que se desvelou a partir do disco Johnnie B Bad do Johnnie Johnson. Depois disso conheci outros mestres como Otis Spann, Memphis Slim, Champion Jack Dupree, Eddie Boyd, Leroy Carr, Pinetop Perkins, etc. Nessa mesma época ouvi um disco do Professor Longhair e meu mundo virou de cabeça pra baixo. Aquele blues misturado com rumba me intrigou e fui atrás de outros nomes de New Orleans como Fats Domino, James Booker, Henry Butler, Jelly Roll Morton, Allen Toussaint e Dr. John. Todos esses abriram um novo caminho, e esse sem volta...


UM - No Brasil é difícil um artista se dedicar especificamente nessa onda, até temos grandes pianistas/tecladistas que sabem tocar esse estilo, mas nenhum grande especialista. Isso foi uma dificuldade no início de carreira?


LL - Embora Blues, R&B e New Orleans piano sejam os meus estilos principais - com os quais eu mais me identifico e que serviram como base da minha musicalidade - não tenho muitos preconceitos e gosto de ouvir de tudo. Acho legal explorar novas sonoridades, misturar estilos... Mas no fim do dia estou sempre tocando um blues roots ou um new orleans piano daqueles bem encardidos (rs). Acho que ter a cabeça aberta e continuar amando blues roots e os primórdios do jazz de New Orleans só valorizam ainda mais essa paixão. Não é por falta de opção, é porque eu gosto mesmo e porque toca a alma até hoje. Sobre as dificuldades, acho que ser músico no Brasil é uma escolha dificil independente do estilo. Viver de música e tocar aquilo que realmente te toca então é um ato de guerrilha, ainda mais no atual momento onde quem trabalha com arte em geral é tão desvalorizado. Me considero um cara de sorte pois sempre toquei com muita gente e nos mais diversos lugares. Viajei o mundo, o Brasil e o interior do meu estado. Conheci pessoas incríveis e dividi o palco com músicos que eu costumava ouvir quando eu era criança. Talvez isso me deixe otimista quanto ao futuro, pois acredito que quando fazemos aquilo que amamos os caminhos se abrem para ti. Mas acho fundamental que os músicos se unam, se posicionem e se valorizem.


UM - Já conversei com um pianista de funk de Nova Orleans, John Papa Gros, e ele disse que o Dr. John foi mais uma figura pública da cidade, enquanto o Allen Toussaint foi o responsável pela criação do som em si. Você concorda? Qual dos dois foi mais importante para você? Por quê? LL - O John Papa Gros é um pianista de New Orleans que eu gosto muito. Figura conhecida da cidade e dos palcos. Concordo em parte com ele, mas entendo o que ele quis dizer. Acho que são relevâncias diferentes. Dizem que a música de New Orleans é um grande “gumbo”, prato típico onde se misturam vários ingredientes como a nossa feijoada, sem muito pudor, o mesmo acontece com a história dos músicos. O Dr. John era guitarrista do Allen antes de machucar a mão e passar a tocar piano (ele teve aulas de hammond com o James Booker). Acredito que a música de New Orleans é uma grande engrenagem, onde algumas peças são maiores que as outras. Mas se tirares algumas destas peças, por menor que ela seja, está desfeita a magia. O Dr. John teve uma importância muito grande para a sonoridade local, misturando a tradição do R&B e funk com psicodelia. O disco Right Place, Wrong Time tem produção do Allen e os Meters como banda base. O pessoal não sabia na época que estava fazendo história e muito menos qual a relevância de cada um. Eles queriam mesmo é tocar! Vale a pena ler a biografia do Dr John. É uma aula de música e da história local, contada de forma descontraída e bastante ácida às vezes. Ambos foram importantes, mas, musicalmente, provavelmente o Allen Toussaint me influenciou mais, caso eu tivesse que escolher, mesmo porque muito da sonoridade do Mac foi forjada por ele.


UM - Eu te acompanho pelas redes sociais. Esse ano você esteve em Nova Orleans e tocou em diversos bares com muitos músicos da cidade. Essa é uma viagem que ainda tenho na minha listinha do Papai Noel [se puder sozinho, claro, desde que com a autorização da patroa! rs], deve ser realmente incrível! Pode contar como foi a experiência de ir lá no ambiente dos caras e mostrar a sua música?

LL - Esse ano eu fui duas vezes para New Orleans. Uma delas acompanhado pelo Fernando Noronha e na outra sozinho para uma turnê de oito shows pela cidade. Além de apresentar minha música em locais como a Frenchy Gallery, também toquei num tributo ao Allen Toussaint, Professor Longhair e Earl King e acompanhei o bluesmen da Louisiana J. Monque'D no Jazz & Heritage Festival. Foi incrível! Este ano foi o terceiro ano seguido que toquei por lá. Nos outros anos eu me apresentei em lugares como o Professor Longhair Museum, Jimmi's Music Club, Lil' Gem, Louisiana Music Factory, Frenchy's Gallery, Irvin Mayfield's Jazz Playhouse e Broad Theater. Também concedi uma entrevista na WWOZ e ouvi o disco “The Power of Love” tocar.


UM - Você tem excursionado com o Igor Prado, talvez o grande fenômeno do Blues mundial na atualidade. Como vocês entraram em contato? Você esteve na banda dele na turnê com a Anikka Chambers aqui pelo Brasil, né? LL - Sim, eu e o Igor temos uma parceria muito legal, tanto musical quanto na produção de shows de blues. Sempre que possível trago para o sul os artistas internacionais que ele produz e acompanha, através do meu projeto que se chama Clube do Blues RS (clique aqui). Nos últimos anos fiz várias turnês pelo Brasil com ele e neste ano ficamos mais de um mês na estrada com a Annika Chambers, girando pelos Estados Unidos e nos apresentando em locais tradicionais como o Legend's em Chicago e o Antone's em Austin. Também tocamos em um festival na Romênia.


UM - O seu disco de estreia, The Power of Love, é bem consistente, parabéns! Você gravou ao lado da sua banda de apoio, The Big Chiefs. Você poderia falar primeiramente sobre o disco em si (processo criativo, escolha do repertório, produção) e depois sobre a banda? LL - Obrigado! Como este foi o disco de estreia, além de retratar aquele momento, também acrescentei músicas que eu tinha guardado de outras épocas. Eu sempre compus, desde que comecei a tocar piano, e eu sempre tive músicas minhas gravadas por outras bandas que participei, como Fernando Noronha & Black Soul, Pata de Elefante, etc. Então o mais diíicil foi selecionar as músicas para definir o disco. Depois foi mais uma questão de pensar numa sonoridade pra dar unidade e terminar as letras. Acho que o disco cumpre o papel de apresentar quem eu sou, pois ele retrata várias épocas destes vinte anos de carreira musical. A banda conta com os Big Chiefs Edu Meirelles, Gabriel Guedes e Alexandre Loureiro. Teve também o Ronaldo Pereira no sax tenor, Julio Rizzo no trombone, Jonatas Soares na tuba, Gaspo Harmônica na harmônica, Caetano Santos no banjo, Luana Pacheco nos Backing Vocals e Solon Fishbone e Igor Prado na guitarra. Além desse baita time, três grandes músicos de New Orleans gravaram clarinete (Rex Gregory), Trompete (Ben Polcer) e Trombone (John Ramm) na música Life is a game. O disco foi produzido por mim e pelo Paulo Arcari, mixado no Studio Rock e masterizado pelo Russ Ragsdale em Nashville.


UM - Você tocou com o Júpiter Maçã? Sensacional! Como foi? LL - Foi uma experiência e tanto. Um dos músicos mais inventivos e autênticos que eu conheci. Dentre diversos shows que fiz com ele num curto espaço de tempo teve a lendária gravação do DVD que acabou não saindo, pois pegou fogo na produtora que detinha as gravações brutas. Histórias fantásticas do Júpiter (rs). Existem alguns registros na internet, entre eles uma apresentação ao vivo na TVE do Rio Grande do Sul e algumas filmagens bootlegs de shows. A partida dele deixou saudades na cena aqui do sul, mas com certeza ele segue vivo em seu vasto legado musical e continua inspirando muita gente. Existem muitas histórias a respeito do Flávio, hilárias e tristes. Prefiro ficar com as lembranças dos bons momentos e da sua genialidade musical.


UM - Lendo um pouco da sua biografia, você tocou com alguns caras de peso como Hubert Sumlin, Little Jimmy King, Magic Slim, John Primer, etc. Caceta! Você pode falar um pouquinho sobre essas participações/experiências? LL - E lá se vão vinte anos de estrada! Eu toquei com o Little Jimmy King em sua única turnê brasileira, em 2002. Ele morreu alguns meses depois disso e foi um choque para todos nós. Anos depois podemos reviver essa turnê quando produzi e toquei no disco do irmão gêmeo dele, Daniel Gales. Foi uma catarse para todos que participaram. Com o John Primer foi em um show aqui no sul e eu tive o prazer de dividir o palco com Magic Slim, Hubert Sumlin e Carey Bell ao mesmo tempo em um Natu Blues Festival em Curitiba. Nesta ocasião eu era o pianista da banda do Carey Bell na turnê brasileira de 2002. Foi um momento incrível!


UM - Luciano, muito obrigado pela participação! Te espero ansiosamente aqui pelo Rio de Janeiro! LL - Eu que agradeço novamente, Ugo. É uma honra imensa poder participar e estou sempre às ordens. Sigo ansioso para voltar para o Rio! Interessados em levar nosso Blues, R&B e New Orleans piano, segue ai o contato da produtora: llbcproducao@gmail.com. A galera também pode nos encontrar no facebook, instagram, e no site www.lucianoleaes.com. Um abraço e até a próxima!





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