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Entrevista Charlie Parr

20.01.2018

   O Coluna Blues Rock não é um canal de música feito por e para jornalistas, os profissionais da imprensa vivem da notícia e este site tem pouco (ou nenhum) compromisso com as "novidades". Aqui o objetivo central sempre foi a pesquisa, a investigação das raízes da música, com maior ênfase na norte-americana, de forma leve e mais didática. E é nessa pegada, digamos, mais antropológica e geográfica que chega a interessantíssima entrevista com o músico Charlie Parr, nascido e criado em Duluth, Minnesota.

   Charlie é fluente nos estilos rurais, do blues ao bluegrass, e domina com maestria o Dobro e o National-style resonator guitar. Com um conhecimento colossal, o músico ajudou e corrigiu alguns conceitos equivocados. "O estilo Piedmont (nem todos os guitarristas que tocam dessa forma são de Piedmont: Mance Lipscomb e Mississippi John Jurt, por exemplo) é caracterizado em grande parte por um padrão alternativo de batida do polegar onde o polegar bate em cordas diferentes (uma oitava, por exemplo) e os outros dedos tiram a melodia". Também opinou sobre o conceito de Americana, estilo marcado justamente pela ausência de um estilo, "A coisa, o rótulo, da Americana é muito abrangente, a ponto de não podermos dizer nada definitivo, a não ser algo do tipo "eu sei o que é quando escuto".

   Uma conversa de extrema valia aos Indiana Jones da música, aqueles que não têm medo em explorar campos desconhecidos, até então sem relevância, pela busca de um DNA potencialmente comum. Uma honra contar com um estudioso da música que tanto ajudará em projetos futuros.

   Sem compromisso, escute os discos Cheap Wine (uma boa coletânea), When the Devil Goes Blind, Stumpjumper e 1992, além do mais recente - e excelente - Dog. Charlie Parr representa tudo o que há de melhor nos EUA: a humildade e a simplicidade rurais!

      

Ugo Medeiros - Você é do Minnesota. Eu sempre gosto de pesquisar os estilos musicais com maior tradição em cada estado ou região, mania chata de professor de geografia. Qual é o estilo musical mais consumido por lá? Seria o blues pela proximidade (na medida do possível) a Chicago?

 

Charlie Parr - O Minnesota apresenta uma grande variedade na cena musical, desde soul e funk a polca, country, bluegrass e blues, indo até o punk rock. Não acho que haja um ou outro estilo necessariamente predominante, mas as regiões norte e oeste dos EUA são marcadas por muita imigração, gente de diversos lugares. Trouxeram com eles diferentes culturas e músicas, por isso somos muito sortudos. Na maioria das noites em Duluth ou Minneapolis, posso sair e ver uma banda de blues, assistir uma square dance [N.E: uma dança tradicional inglesa que tem alguma semelhança distante com a nossa dança de salão], escutar um fiddle norueguês bem tradicional, ver uma banda de polca, uma brass band, bandas de rock, bandas de western swing. Uma infinidade de estilos e quase sempre o lugar estará lotado.

 

UM – Eu considero Americana como uma mistura de todos os estilos rurais norte-americanos. Eu discutia sobre isso com um amigo, e na opinião dele o DNA da Americana tem uma maior influência do country e um pouco menos do blues e do folk. Você concorda? A propósito, você se considera um músico de Americana? Pergunto isso, pois atualmente diversos músicos se consideram Americana, Neil Young e Bruce Springsteen por exemplo.

 

CP - Acho que depende da sua perspectiva. Se você escutar muito a rádio mais comercial provavelmente concluirá que a influência primária da Americana é em maior parte o country ou alguma conexão mais misteriosa entre country e bluegrass. Enquanto eu viajava, conhecia e tocava com gente que não escutava rádio, passei a entender que essas categorias, aos poucos, acabam se tornando um tanto quanto redundantes. Pessoas que escutam diferentes estilos acabam criando uma música que desafia a coisa do gênero. Escute Megafaun, Marissa Anderson, Moses Nesh, Hiss Golden Messenger, Feeding Leroy, Tommy Santee Klaws, Freakwater, The Dead Tongues (a lista é longa) e você notará diversas influências que estão ali, quase que rastejando silenciosamente. A coisa, o rótulo, da Americana é muito abrangente, a ponto de não podermos dizer nada definitivo, a não ser algo do tipo "eu sei o que é quando escuto".

 

UM – Ainda sobre raízes, podemos considerar a música apalachiana irmã siamesa da Americana? Há bluegrass na música apalachiana, certo? Qual a diferença entre bluegrass e country? Bill Monroe e Earl Scruggs, eram músicos dos Apalaches, mas eles são considerados country ou bluegrass?

 

CP - Bem, eu não sou daquela região, portanto não tenho tanta autoridade no assunto. Os Apalaches são uma região vasta e trouxe uma enorme riqueza de diferentes estilos musicais. Serviu meio como uma incubadora que ajudou na formatação do bluegrass a partir daquela música bem antiga ou daquela música típica das montanhas. Bill Monroe, Dock Boggs e Frank Hutchison vieram das montanhas, eles faziam música apalachiana, a música deles está relacionada àquela região. Não apenas isso, toda a música que sai daquela região continua a influenciar e a envolver tudo. Carolina Chocolate Drops, Black Twig Pickers, Hackensaw Boys, Steve Gunn, Nathan Bowles e muitos outros.
 

UM – Quais são os seus bluesmen favoritos?

 

CP - Outra lista longa. Aqui vão alguns: Memphis Minnie, Geechie Wiley, Robert Pete Williams,
Mance Lipscomb, Bukka White, Karen Dalton, Charley Patton, Luther Huff, Backwards Sam  Firk, Pigpen, Blind Lemon Jefferson, Will Shade... Uma lista looooooooonga que continuaria...

 

UM – Quais as diferenças entre o Piedmont e o Mississippi delta blues?

 

CP - A diferença primária, na minha visão, está na função do dedão. O estilo Piedmont (nem todos os guitarristas que tocam dessa forma são de Piedmont: Mance Lipscomb e Mississippi John Jurt, por exemplo) é caracterizado em grande parte por um padrão alternativo de batida do polegar onde o polegar bate em cordas diferentes (uma oitava, por exemplo) e os outros dedos tiram a melodia. Guitarristas de ragtime como Blind Blake e Blind Boy Fuller usavam bastante essa técnica. Os estilo do delta (e existem diversos) normalmente vão por uma condução em que o dedão bate em apenas uma corda.

 

UM – Ainda sobre o blues, o seu disco When the Devil Goes Blind é excelente! Você poderia falar sobre o álbum? Cara, a canção Ain't no grave gonna hold my body down é sensacional! Você poderia falar sobre ela também?

 

CP - Ain't no grave é uma canção antiga, tirei a minha versão do Brother Claude Ely, que dizem tê-la escrito aos doze anos quando estava muito mal de saúde e sua família realmente achava que ele morreria. O resto do disco é quase todo com canções minhas, influenciadas por contos populares norte-americanos (sobretudo do oeste) e, claro, pelas coisas que passei na vida.

 

UMCheap Wine é uma coletânea de canções de diferentes discos. Acho que é um ótimo disco para conhecer a sua carreira, mostra a sua capacidade de soar mais reflexivo/introspectivo (como em To a scrapyard bus stop ou em Hogkill blues) ou mais "agressivo". É muito interessante!

 

CP - Obrigado! Valeu pelas palavras gentis.

 

UM – O seu disco 1922, outro grande álbum, fez muito sucesso na austrália. Como isso aconteceu?

 

CP - Eu fazia um trabalho na trilha sonora de um filme. O diretor do filme dirigiu um comercial de telefone e colocou uma música minha. Não fiquei muito confortável com o resultado, mas fui para Austrália e foi muito legal.

 

UM – Você é um mestre na guitarra National-syle resonator e no Dobro. Qual a diferença entre esses dois instrumentos?

 

CP - Eu não toco mais Dobro, tive uns problemas na minha mão direita e não posso mais tocar certos estilos, assim como o banjo. A diferença entre o Dobro e a National-style está em grande parte na orientação do cone [N.E: parte metálica bem no meio do instrumento que faz o efeito sonoro diferenciado]. O dobro tem a face do cone para cima, como uma bacia, e a ponte está presa em um tipo de "aranha" que segura nas bordas. Já a National-style terá o cone virado para baixo com a ponte presa em um pequeno "biscoito" de madeira que fica no topo do cone (a parte final é menor)

 

UM – Você colaborou com o Black Twig Pickers, uma banda de "ancient music" (música antiga). Não conhecia este estilo. O que seria?

 

CP - Os Black Twig Pickers são muitas coisas, você precisa vê-los para sacar! A música deles é um confluência de old-time, experimental e drone [N.E: instrumentos, de sopro ou corda, bem primitivos dos povos nativos antes da colonização inglesa]. Acho que o termo "ancient music" refere-se ao drone, o "celestial monochord" a partir do qual criou todo um universo na música.

 

UM – Você também compõe trilhas sonoras para filmes. Eu assisti a alguns trailers, é impressionante como a sua música entra em perfeita simbiose com os filmes. É muito diferente compor para filmes?

 

CP - É bem diferente. Quando eu escrevo canções, são todas sobre mim, escrevo sobre qualquer coisa que queira. Mas quando eu tenho que criar para a visão/obra de uma outra pessoa é um desafio, me força a prestar atenção em outras coisas que não eu. Eu realmente gosto de criar músicas para filmes, mas eu não recebo muitas ofertas.

 

UM – Eu gostei muito da arte do seu disco Dog!

 

CP - Obrigado! A capa de Dog foi criada por J. White da galeria Post Pilgrim em Sioux Falls, Dakota do Sul. Sempre tento escolher artistas que eu conheço pessoalmente para criar as capas dos meus discos.

 

UM - Por falar no disco Dog, gostei demais! A faixa Dog é ótima! E, cara, Peaceful valley é como Motörhead, você não para, parece um trem! Você poderia falar sobre o álbum?

 

CP - Obrigado! Fico feliz que você tenha gostado. A gravação em si levou uma tarde, nós gravamos ao vivo em um rolo de fitas de duas polegadas e foi quase toda no primeiro ou segundo take, sem overdubs. Os músicos que participaram são pessoas com que toquei por anos, portanto foi uma atmosfera bem confortável e relaxada, senti aquilo mais como um show do que uma sessão de gravação. Para mim isso é bom, pois sempre fico ansioso com gravações. Ter amigos ao meu redor tira um pouco da pressão, pudemos tocar e nos divertir. Acho que tem que ter esse espírito. As canções vieram dos lugares mais escuros, estava passando por problemas de depressão. Ter esse pessoal ajudou a dar um "up" nas canções, elas poderiam ser canções bem sombrias mas acabaram com mais vida. E, sim, todos somos fãs do Motörhead!

 

UM – Charlie, muito obrigado pela entrevista! Eu vi que você fará uma turnê pela Europa, espero de coração que ocorra tudo bem e você tenha shows memoráveis! Seria um enorme prazer vê-lo por aqui no Rio de Janeiro!

 

CP - Muito obrigado pela entrevista! Eu adoraria ir para o Rio de Janeiro e escutar toda aquela música incrível que vocês têm aí. Quem sabe um dia?

 

 

 

 

 

 

 

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