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Entrevista Phil Wiggins

25.01.2018

 

   Uma lenda viva, patrimônio cultural mundial, um gigante do blues, dinossauro da música norte-americana. Todos esses adjetivos estão muito aquém do que Phil Wiggins merece. O gaitista, natural da capital Washington, é um dos maiores representantes do verdadeiro blues, aquele acústico, marcado pela relação intrínseca entre melodias mais simples e sentimentos complexos. Fez história ao lado do parceiro, já falecido, John Cephas e recebeu diversos prêmios pela marcante carreira, "O WC Handy awards era como o Grammy no mundo do blues. John e eu recebemos algumas vezes, incluindo "Entertainers of the year", uma categoria que ainda trazia nomes como BB King e Buddy Guy. Foi uma grande realização receber um prêmio em uma categoria tão ampla que ainda incluía a nata dos bluesmen de Chicago".  

   Atencioso, o músico ainda deu uma aula sobre história americana ao elucidar a vida na capital e ao contar o sofrimento das comunidades negras no Sul do país. E, precisamente, por conhecer o passado sofrido de seus ancestrais, deixa claro que não tocaria novamente na Casa Branca. Recentemente recebeu do Congresso um prêmio pela contribuição cultural, mas afirma que não se apresentaria ao polêmico presidente Donald Trump. "Recebi uma carta do Donald Trump me parabenizando. Isso realmente me fez pensar  bastante sobre a coisa toda. Estou certo de que o Donald Trump não tem o menor conhecimento ou apreciação pelo que esse prêmio representa. Esse prêmio celebra as diversas culturas que compõem este país", esclarece.

   Um bluesman como os de antigamente, sem apelar às tecnologias e ao excesso de barulho - diga-se, bastante crítico aos novos guitarristas do blues - , sempre fiel à música mais singela e delicada. Phil Wiggins é aquele sorriso sincero e abraço amigo que por muito tempo fez do blues o único paraíso possível em meio às desgraças mundanas da sociedade racista.

 

Ugo Medeiros - Você é nascido e criado em Washington DC. Sou professor de geografia e já li coisas bem sérias sobre a capital, como uma cidade bem violenta e alguns problemas sociais, sobretudo na Educação. Você poderia dar o seu testemunho sobre a cidade? Apesar dessas condições ruins, ainda assim, era melhor do que estados do Sul, como Mississippi e Alabama?

 

Phil Wiggins - Sim, nascido (em 1954) e criado em Washington DC. Washington DC é uma cidade bonita e foi um ótimo lugar para crescer. Meus pais se mudaram para Washington como parte daquela grande migração de afro-americanos que vieram do Deep South¹ [N.E: Ao pé da letra, extremo Sul, mas há um sentido mais específico] para as cidades do Norte em busca de melhores oportunidades e um lugar seguro para criar a família. Então, todas as crianças da minha idade formaram a primeira geração nascida acima da Linha Mason-Dixon². Durante os anos 1980, eu ainda morava por lá, Washington tornou-se uma cidade bastante perigosa, a capital dos homicídios nos EUA. E durante esse período eu estava trabalhando com o que eles chamavam de "jovens em risco". Eram jovens que foram apanhados/retirados das ruas, levavam um estilo de vida bem perigoso. Eu escrevi uma música durante esse tempo chamada Cool down:

 

This morning’s headlines read / Four more precious children dead /

Before one more drop is shed / Cool down

Coro: Cool down, cool down / you better let your blood cool down

You’ve got your turf staked out / And you want no shadow of doubt

So you’re trying to take all the doubters out / well cool down.

Coro: Your hair trigger temper wakes and your trigger finger aches

But that’s such a bad mistake just cool down

Coro: The law is on the run / it seems like all gods children got guns /

kingdom come thy will be done / cool down

 

¹Deep South: São os estados do Sudeste dos EUA. Há algumas classificações, mas a mais comum é a que inclui os estados Carolina do Sul, Mississippi, Flórida, Alabama, Geórgia e Luisiana.

²Linha Mason-Dixon: A Linha Mason–Dixon é um limite de demarcação entre quatro estados dos Estados Unidos da América. Faz parte das fronteiras da Pensilvânia, Virgínia Ocidental, Delaware e Maryland. O levantamento da linha de fronteira foi feito quando esses territórios eram ainda colônias inglesas. Depois de a Pensilvânia ter começado a abolir a escravatura em 1781, a parte oeste desta linha e o rio Ohio tornaram-se a fronteira entre os estados escravagistas e os abolicionistas (Delaware, que se encontra a Leste desta linha, permaneceu como estado escravagista).

 

 

UM - Washington está dentro da região do Piedmont blues. O que seria esse estilo? Qual a diferença em relação ao delta blues?

 

PW - Sim, Washington está na região do Piedmont. É um estilo regional que foi realmente formado por etnomusicologistas. O estilo piedmont é basicamente definido pela técnica de tocar a linha de melodia com os dedos e tocar com o polegar uma linha de baixo alternada ao mesmo tempo. Alguns dos bluesmen de Piedmont mais conhecidos são Rev. Gary Davis, Blind Boy Fuller e Mississippi John Hurt.

 

UM - Além do Piedmont blues, o que mais havia de música durante a sua juventude em Washington? O Jazz já era o estilo preponderante naquela região? Ou já havia uma influência do soul da Motown?

 

PW - Washington sempre teve uma cena de jazz muito vibrante e, claro, a música da Motown e do funk. Sempre fui muito popular por lá. Washington DC também criou seu próprio estilo de funk/hip-hop chamado "gogo music". O padrinho desse estilo era um homem chamado Chuck Brown. Tive a honra de me apresentar com ele, em duo, pouco antes de morrer.

 

UM - Podemos dizer, tranquilamente, que o seu grande mestre na música foi o seu parceiro John Cephas. Como foi o seu primeiro contato com ele? Além do blues em si, que lições ele te ensinou?

 

PW - Eu conheci o John no Smithsonian Folklife Festival em 1976. Eu estava lá tocando com uma mulher chamada Flora Molton,  uma cantora  e guitarrista de rua originalmente do condado de Louisa (Virgínia), que fez de Washington a sua casa. Eu sempre serei grato pelo meu tempo com a Flora, como ela era uma artista de rua, tinha um estilo muito livre e solto. Sempre tive que ouvir com muita atenção para seguí-la musicalmente. John estava no festival, mas na banda do pianista Big Chief Ellis. Acho que uma das lições mais importantes foi sempre deixar os meus ouvidos bem abertos para o músico com quem eu estivesse tocando. John Cephas surgiu tocando em festas (residenciais mesmo) em torno de Bowling Green, Virginia, onde acabou se fixando. Por isso, ele teve um forte senso de ritmo, o que, sinceramente, falta na maioria dos guitarristas da geração posterior a ele. Nós tocamos juntos com o Chief Ellis por aluns anos até que ele, Chief, se aposentou da música, vendeu sua loja de bebidas em Washington e voltou para o Alabama. E logo depois que voltou para o Alabama, faleceu. Enfim, John e eu começamos como uma dupla depois que o Chief Ellis partiu. John tinha a mais bela voz de barítono.

 

UM - Você tocou e excursionou com Wilbert 'Big Chief' Ellis. Sinceramente, eu não o conhecia. Escutei alguma coisa agora e achei bem legal! Você poderia falar um pouco sobre o tempo com Big Chief Ellis?

 

PW - Meu pai faleceu quando eu tinha cerca de sete anos. Anos passaram, me tornei adulto e músico,  e tive contanto apenas com pouquíssimas pessoas que tivessem conhecido meu pai. Durante a posse do Jimmy Carter, tivemos um show e minha mãe estava na cidade. Quando ela entrou no lugar em que tocávamos, ela olhou para o Chief Ellis e disse "Wilbur, o que você está fazendo aqui?". Eu tocava há um tempo com um cara que fora colega do meu pai durante a escola primária lá no Alabama! Isso foi uma espécie de afirmação para mim, eu estava no lugar certo. O Chief tinha uma mão esquerda poderosa no piano e uma voz linda e grossa. E ele tinha aquela gravitas [N.E: honradez] bem old school.

 

UM - Logo após o período com Big Chief, você e Cephas formaram o duo. Primeiramente, quais são os seus duos de blues favoritos? Pessoalmente, amo Sonny & Brownie McGhee...

 

PW - Sleepy John Estes and Hammy Nixon.

 

UM - O primeiro disco do duo foi gravado por uma selo alemão? Como isso aconteceu?

 

PW - Um homem chamado Horst Lipman enviou dois caras aos EUA para encontrar e gravar com John Cephas e Archie Edwards. Eles improvisaram um estúdio de gravação em uma carpintaria em Washington e o John me convidou para a gravação. A gravação resultou em um disco chamado US Field Recordings Volume One.  

 

UM - Você também gravou pela Flying Fish e pela Alligator. Você considera a Alligator a maior gravadora do blues? Você poderia falar sobre essa experiência?

 

PW - Talvez você saiba, mas a Alligator não grava muitos músicos acústicos. Tenho certeza de que John e eu fomos os primeiros. Foi uma ótima experiência para nós porque fizemos a gravação do nosso jeito e depois enviamos para a Alligator. Dessa forma, a Alligator não esteve realmente envolvida no processo de gravação. Eu consegui trabalhar com Bruce Iglauer (dono da Alligator) em uma gravação de Ann Rabson, a pianista da Saffire - The Uppity Blues Women. Na verdade, gostei de trabalhar com ele e apreciei a sua contribuição artística.

 

UM - Você tocou ao lado do Cephas e do BB King na Casa Branca (em 1987 ou 88?). Você tocaria novamente, mas agora sendo ocupada pelo Donald Trump?

 

PW - Não, eu não tocaria. Acredito que você saiba, recentemente recebi o prêmio de patrimônio nacional (national heritage award) concedido pelo Congresso dos Estados Unidos. Recebi uma carta do Donald Trump me parabenizando. Isso realmente me fez pensar  bastante sobre a coisa toda. Estou certo de que o Donald Trump não tem o menor conhecimento ou apreciação pelo que esse prêmio celebra. Esse prêmio celebra as diversas culturas que compõem este país.

 

UM - O Smithsonian National Folklife Festival foi muito importante na sua carreira. Antigamente esses festivais folk levavam o melhor do blues e do folk. Uma prova que esses dois estilos eram quase irmão. Você concorda? Por exemplo, Mississippi Sheiks eram country-blues com muita influência do folk, certo? Esses festivais ainda existem nos EUA?

 

PW - Cuidado para não confundir a música FOLK, tipo Peter, Paul & Mary e Bob Dylan, com a música que era apresentada no Smithsonian Folk Festival. A música do festival era aquela que representava toda a classe trabalhadora, todos que ralavam demais durante a semana e ainda assim viviam em condições difíceis. E essa gente precisava, justamente, de uma música que os confortasse e celebrasse a vida apesar de todas as adversidades. É o tipo de música que eles faziam em casa e ouviam enquanto assavam seus pães ou cultivavam seus vegetais. Esses festivais ainda são fortes hoje em dia.

 

UM - Você recebeu o WC Handy Blues Foundation awards. Primeirmente, você poderia explicar aos nossos leitores quem foi WC Handy? E poderia, também, falar sobre o prêmio em si?

 

PW - WC Handy era um líder de banda bastante sagaz nas negociações, acredito que era de Nova Orleans. Por acaso ele encontrou alguns bluesmen acústicos, daqueles itinerantes, em uma estação de trem, em algum lugar do Mississippi. E viu que aquela música tinha um bom potencial para render um bom dinheiro. Acredito que ele tenha sido a primeira pessoa a passar músicas de blues para partituras. O WC Handy awards era como o Grammy no mundo do blues. John e eu recebemos algumas vezes, incluindo "Entertainers of the year", uma categoria que ainda trazia nomes como BB King e Buddy Guy. Foi uma grande realização receber um prêmio em uma categoria tão ampla que ainda incluía a nata dos bluesmen de Chicago.

 

UM - Quais os gaitistas que mais te marcaram?

 

PW - Jaybyrd Coleman, Hammy Nixon, Jazz Gillam, Junior Wells, Carey Bell, Sonny Boy Williamson 2…

 

UM - Eu sempre digo que os verdadeiros representante do blues são aqueles que tocam acústico! Portanto, apesar de extremamente talentosos, não considero Stevie Ray Vaughan ou Joe Bonamassa bluesmen. Acho que o grande nome do blues atualmente é o Corey Harris, justamente por ele sempre privilegiar o acústico. Você concorda com essa minha opinião? Quem você considera o grande nome do blues dessa nova geração?

 

PW - Sim, concordo. Parece que o blues elétrico de hoje em dia é um mero canal para solos de guitarras exagerados. Na minha opinião, é no blues acústico que estão as melodias e as estórias a serem contadas. É o que eu amo. Concordo em relação ao Corey Harris, o coloco ao lado de Alvin Youngblood Hart, Jerron Paxton, Valerie Turner, Eleanor Ellis, Juntavious Willis…

 

UM - Você é uma lenda viva, patrimônio cultural mundial! Muito obrigado por essa conversa! Deixo esse espaço para você mandar uma mensagem aos amantes de blues no Brasil.

 

PW - O Brasil é um país riquíssimo musicalmente. Ir ao Brasil para tocar e escutar essa música maravilhosa tem sido um dos meus grandes sonhos!

 

 

 

 

 

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