Entrevista Earl Thomas


Earl Thomas é um daqueles vocalistas versáteis, completos, capazes de entrar em uma jam session sem conhecer os músicos e implodir o palco com um soul potente ou um blues frenético e, ao final, ainda fazer todos chorarem com algum clássico de gospel. Criado em uma família que amava o gospel, o soul e o R&B, influenciado pelos amigos de escola que escutavam rock & roll e um amante do blues. "Nunca escolhi um estilo específico, o blues me escolheu", afirma o cantor. E sobre o blues, faz um resgaste histórico, desde suas origens até ao elétrico mais contemporâneo. "Os escravos cantavam o que era chamado de "field hollers", que após a Emancipação [N.E: abolição da escravidão] tornou-se o delta blues (Son House, Johnnie Shines, Robert Johnson). Com a grande migração de ex-escravos para os estados do Norte, cidades como Chicago e Detroit, e mais dinheiro e direitos civis, o blues entrou na fase "Chicago" ou "pós-Segunda Guerra" (Muddy Waters, BB King, Freddie King, Koko Taylor) ou, ainda, eletrificou-se e acrescentou gaita e baixo. Outra evolução foi marcante foi durante os anos 1970 com a invasão britânica (Rolling Stones, Paul Butterfield), isso preparou o terreno para artistas como Robert Cray, Keb' Mo', Earl Thomas.

Earl Thomas, que estará em turnê pelo Brasil durante o mês de fevereiro, falou ainda sobre Igor Prado, que liderará a sideband que o acompanhará em solo tupiniquim. "Tomei conhecimento do Igor Prado quando uma amiga minha, Tia Carrol, fez uma turnê com ele. Então eu o vi com outra amiga, Whitney Shay, e depois novamente com Annika Chambers. Quando o vi com Tia, meu primeiro pensamento foi 'Eu gostaria de cantar com ele' ", revela.

Earl Thomas é um estudioso, tem amplo conhecimento da tradição que carrega e dissemina através de sua potente voz (a qual lembra demais a do bluesman Keb' Mo', apesar dele detestar essa comparação!). Ele é a certeza que o blues foi, e sempre será, o maior fruto de séculos de uma amarga, injustificável, cruel escravidão. Earl Thomas é fundamental para quem deseja adentrar pela história dos EUA. Como bem registra, "O blues é uma expressão cultural, também é uma linguagem.


Ugo Medeiros – Eu li que os seus pais eram apaixonados por gospel e soul. Quais nomes desses estilos eles, e consequentemente você, mais escutavam?


Earl Thomas - Minha mãe era cantora de gospel, escutávamos gospel constantemente em casa, tudo de gospel, desde Mahalia Jackson, Clara Ward, Shirley Caesar, Reverend James Cleveland a Amazing Grace (1972) de Aretha Franklin.


UM – Você nasceu no Tennessee, um estado com diversos estilos musicais, mas agora mora na Califórnia, certo? São estilos de vida bem diferentes. Nashville (Tennessee) atualmente é a Meca dos músicos que estão começando, né?


ET - Nashville sempre foi importante, junto com Austin, Los Angeles e Nova Iorque. Eu nasci no Tennessee mas nunca vivi, de fato, lá. Meu pai era da marinha e quando eu tinha três anos nos mudamos de Pikeville (voltamos quando completei quinze anos). Cresci com constantes mudanças, viajando pelo mundo, portanto não tive a coisa de criar raízes naquele ambiente (Tennessee), por isso atualmente vivo na Califórnia. Eu peguei a música e a cultura sem o racismo. O blues é uma linguagem, uma expressão cultural que eu chamo de "conversando com seus ancestrais". Apesar de eu não viver na mesma terra desses ancestrais e ter um estilo de vida completamente diferente, consigo conversar com eles.


UM – Você começou a cantar profissionalmente durante a faculdade, certo? Como foi aquele início de carreira? Você cantava um estilo específico ou um pouco de tudo? Como era a cena musical naquele circuito universitário?


ET - Comecei a cantar durante a faculdade, mas profissionalmente apenas quatro ano depois. Nunca escolhi um estilo específico, o blues me escolheu. Mas eu não posso cantar o estilo dos meus avós, o blues é tanto uma expressão cultural como um entretenimento e é resultado de um estilo de vida. Eu tenho uma raiz no blues e no gospel, sem dúvida, mas também cresci rodeado e influenciado pelo rock & roll, jazz, soul, R&B, country, disco, até clássico. Eu gosto e escuto todo tipo de música, portanto o meu vocabulário musical é bem amplo e isso se reflete quando toco blues. Quando eu estava na faculdade tinha meio que uma banda de garagem e para o meu projeto final de graduação, junto com meu amigo Philip Wooten, fiz um LP chamado I Sing The Blues. Seguimos as instruções de um livro, "Como fazer e vender seu próprio disco". Nos graduamos, entretanto uma das recomendações daquele livro era enviar cópias do disco para DJs, revistas, jornais e qualquer pessoa que talvez escrevesse uma resenha ou alguma citação. Fizemos isso e uma dessas tantas cópias chegou a um cítico de musical de um jornal de Los Angeles. Ele escreveu uma impressionante resenha e passou o álbum para o Herb Cohen da Bizarre/Straight Records. Ele nos ofereceu um contrato para gravar e um outro como compositor. Eles pegaram o nosso LP e remodelaram, acrescentaram duas músicas e lançaram como Blue, Not Blues. Ele também me levou para o Montreux em 1992, foi quando a minha carreira profissional começou, julho de 1992.


UM – O seu primeiro álbum, Blue, Not Blues, é demais! I sing the blues e Nothing left to lose são ótimas canções de blues. E ainda tem três canções com uma pegada mais soul, The way she shakes that thang, Special Lovin e Baby please don't cry. Você poderia falar sobre o álbum?


ET - Como disse anteriormente, o disco foi o resultado da minha graduação, foi a nossa tese. Desse disco Etta James gravou I sing the blues e o Solomon Burke gravou I'll be here, What I've got to do e Baby please don't cry. Eu vim de uma família muito musical, novamente, sempre tocava gospel, blues, soul, R&B. Blue, Not Blues é apenas eu tentando fazer aquilo tudo que eu escutava mais novo. Meu amigo e eu escrevemos todas canções do disco, exceto a última, I won't be around, que escrevi com a minha mãe.


UMExtra Soul também é um disco excelente. The first and the last thing é uma canção soul muito boa e Jeckyll and Hyde é completamente rock'n'roll! É interessante você ter gravado um rock'n'roll em um disco de soul porque você também trabalhou com o Solomon Burke. Você poderia falar sobre o álbum e sobre a experiência de tocar com o Solomon Burke?


ET - Trabalhei com o Solomon Burke apenas no Blue, Not Blues, ele cantou três canções. Sempre me lembrarei o fato dele querer a nossa presença no estúdio, sempre pedia nossa opinião sobre seu fraseado e as melodias. Nós piramos com o talento dele e ao mesmo tempo ficamos honrado por ele prezar a nossa opinião.


UM – Gosto demais do disco Intersection. Traz um uma versão bem legal de Brown sugar dos Rolling Stones. O quanto eles te influenciaram?


ET- Ah sim, os Rolling stones foram uma grande influência! Apesar de eu ter crescido numa família com forte tradição no blues, gospel, soul e R&B, tive uma dieta saudável com muito rock & roll por causa das crianças das escolas. Desde pequeno tive rock no meu sangue.


UM – Você fez um álbum acústico, Unplugged at Caffe Calabria. Como surgiu essa ideia? Você tem uma ótima comunicação com o público...


ET - Eu queria fazer algo diferente. Meu amigo Arne era dono de um cooffeehouse e de uma empresa de torrefação de café. Ele viu o meu show acústico quando abri para a Etta James e BB King e me convidou para tocar no seu estabelecimento. Achei que seria legal gravar na sala de torrefação.


UM - Provavelmente você dirá que eu sou louco, mas no Unplugged achei a sua voz muito parecida com a do Keb' Mo'. Te juro!


ET - As pessoas sempre falam isso, mas eu não levo a sério...


UMPlantation Gospel é o meu álbum favorito! Eu entrevistei a Ruthie Foster ano passado e ela me disse que o gospel é a base de todo cantor norte-americano. Você concorda com ela?


ET - Eu concordo cem por cento! O blues é uma expressão cultural, também é uma linguagem. Acredito que seja a única ponte que nós, descendentes de africanos nos EUA, temos com a fonte dos nossos ancestrais. Tudo começou com o gospel, na verdade, é possível traçar uma progressão do blues. Os escravos cantavam o que era chamado de "field hollers", que após a Emancipação [N.E: abolição da escravidão] tornou-se o delta blues (Son House, Johnnie Shines, Robert Johnson). Com a grande migração de ex-escravos para os estados do Norte, cidades como Chicago e Detroit, e mais dinheiro e direitos civis, o blues entrou na fase "Chicago" ou "pós-Segunda Guerra" (Muddy Waters, BB King, Freddie King, Koko Taylor) ou, ainda, eletrificou-se e acrescentou gaita e baixo. Outra evolução foi marcante foi durante os anos 1970 com a invasão britânica (Rolling Stones, Paul Butterfield), isso preparou o terreno para artistas como Robert Cray, Keb' Mo', Earl Thomas. Note que eu não incluí o Stevie Ray Vaughan na lista.


UM - Por que você exclui o Stevie Ray Vaughan dessa lista? Você o considera um músico de rock?


ET - Eu não incluí o SRV porque não o considero um "bluesman" dentro da minha definição. Ele é um guitarrista que toca sabe tocar o "estilo" do blues, mas ele não se comunica (nem conseguiria) com os ancestrais. Ele é um mímico, enquanto Albert King é o criador. Para mim, o blues e o velho espírito negro são as únicas pontes que nós, afroamericanos, temos com a fonte dos nossos ancestrais. Você pode considerar o bluesman como um tipo de cultura xamânica, carregando a nossa história da África, ele se comunica com os ancestrais. Através da música nós (pessoas) nos comunicamos com os ancestrais. Gospel e blues nos mantiveram, afroamericanos, espiritualmente e psicologicamente conectados. Escuto sempre pessoas dizendo que as atuais gerações de afroamericanos não gostam de blues, que virou apenas uma lembrança do passado. Isso pode até ser uma verdade sob o ponto de vista mercadológico e até acho que muitos jovens não sabem quem é Muddy Waters, mas aposto que em qualquer reunião de familiar, em qualquer lugar dos EUA, quando a vovó coloca Hootchie Cootchie Man ou Mahalia Jackson, todos (jovem ou idoso) sentem "aquele" sentimento. E não importa o quão breve, estão unidos em um espírito. O mesmo na Igreja, o gospel faz o mesmo. Na real, gospel e blues são como irmão e irmã. SRV tentava soar como o blues, mas faltava o conhecimento cultural, a perspectiva histórica, a profundidade espiritual para ser chamado de bluesman. Seria como ir ao Brasil e aprender foneticamente as letras dos sambas clássicos, mas sem saber falar uma palavra em português...


UM - Você falou em "field hollers", seria o mesmo que as work songs?


ET - Field hollers são as work songs que os escravos cantavam para suportar suas longas jornadas. Work songs também se referem às canções que os condenados cantavam nas prisões ao longo dos dias. A batida e o ritmo dos field hollers foram transferidas das percussões africanas para os instrumentos europeus que os fazendeiros, donos de escravos, permitiam. Após a Emancipação (1862) essa batida se desenvolveu até o delta blues. O blues nos EUA é o resultado de duzentos anos de mistura cultural: africanos, franceses, espanhóis, holandeses, britânicos, escandinavos, asiáticos e indígenas (nativos americanos). As pessoas se misturaram nos Estados Unidos e o blues evoluiu à medida que o país evoluiu. Durante a escravidão as raízes do blues foram plantadas, os escravos cantavam field hollers ou work songs para escapar da dura realidade física dos seus cotidianos.


UM - Entrevistei há pouco tempo um músico (Carlos Malta), ele disse que os fazendeiros proibiram as percussões africanas pelo medo dos escravos incorporassem entidades espirituais e ficassem mais fortes. Isso procede?


ET - Os fazendeiros retiraram suas percussões, sim, mas não pelo medo de possíveis espíritos, mas porque eles sabiam que aquilo era uma forma de comunicação entre os escravos. E, claro, era um idioma desconhecido pelos fazendeiros. Retiraram as percussões e permitiram os instrumentos europeus, a música europeia. A estrutura melódica da música clássica europeia é baseada na progressão de acordes I-IV-V, assim como o blues. Aos escravos era permitido o uso de instrumentos/música europeus, mas esses fazendeiros não sabiam que aqueles ritmos e batidas "removidos" foram, simplesmente, transferidos para violões, piano e outros instrumentos sinfônicos. Após um longo dia, os músicos das plantações tocavam o que viria a ser o delta blues. Você me disse que no Brasil essa proibição percussiva foi menos agressiva, talvez seja por isso que o samba tenha uma identidade explicitamente mais africana. É uma teoria.


UM – Você poderia falar sobre as versões de Will the circle be unbroken e This little light of mine? São dois clássicos norte-americanos e você fez versões muito boas...


ET - Essas canções são muito queridas por mim, ambas são, de certa forma, autobiográficas. This little light of mine é de uma passagem bíblica que diz para nunca esconder sua luz ou seu talento debaixo de um alqueire [N.E: medida usada para medir propriedades rurais], mas para deixá-la iluminar o mundo. E Will the circle be unbroken é algo que todos nós compartilhamos.


UM – Acho o disco Soulshine bem maduro, você me pareceu bem calmo na gravação. Você poderia falar sobre o disco? O Allman Brothers Band foi uma grande influência na sua formação?


ET - Eu amo a canção e a canto em todos os meus shows. O Allman Brothers era uma ótima banda, mas não Soulshine através deles. Descobri essa canção quando olhava alguns vinis em um sebo no shopping. Eu já tinha ouvido o nome Gov't Mule e achei um nome legal para uma banda, foi quando achei um CD deles em uma cesta. Comprei e escutei Soulshine pela primeira vez. As outras faixas do disco escrevi com amigos ou sozinho, Last train to Paris é uma das minhas favoritas.


UM – Você também trabalhou com o Tom Jones. No Brasil todos o associam ao Carlton Banks ("Um Maluco no Pedaço") dançando ao som de Is not unsual, mas ele foi/é um dos maiores cantores de todos os tempos! Eu sempre assisto ao vídeo dele com o Jerry Lee Lewis, caceta!, os dois quebram tudo! Você poderia falar sobre a experiência?


ET - Um amigo foi a Las Vegas e viu o show do Tom Jones, ele me mandou um e-mail contando que o Tom cantara uma música minha. Eu não acreditei. Alguns meses depois, novamente, me escreveu e disse que foi a outro show do Tom Jones e tinha certeza que ele cantara uma música minha. Eu ainda não acreditava. Até o dia que assisti a um vídeo no youtube, "Tom Jones sings the blues", e confirmei que, de fato, ele fazia uma versão de uma canção minha, Git me some! Fiquei extremamente surpreso, mas também impressionado porque ele faz um trabalho excelente com a minha canção! Eu escrevi um e-mail de agradecimento para o seu empresário e, no fim das contas, acabei no backstage do show dele em Las Vegas. O conheci e fiquei um tempo trocando uma ideia com ele lá no camarim.


UM – Você também trabalhou com a Etta James e Screamin' Jay Hawkins. Etta era uma diva do blues, claro. E o Screamin' Jay era sensacional, o jeito de cantar gritando "Ahhhhhhhhhhhhhhh", sempre fantasiado... Poderia falar sobre esses dois?


ET - Eu não era grande conhecedor de sua carreira até ele gravar a canção I am the cool. Etta James, bem, é outra estória. Eu conhecia BASTANTE a sua obra, pois a minha mãe sempre foi fã dela! Ela gravou e comprou a minha canção I sing the blues, assim como Aretha Franklin fez com Respect. Desde então, raramente faço essa canção nos meus shows. Excursionei com ela por quase um ano e vi quase todos os shows. Noite após noite a mulher quebrava tudo no palco, mas uma em particular me marcou demais. Ela estava com tudo, a assistia no canto do palco e quase fui às lágrimas. Ela era incrivelmente boa. A primeira vez que vi Ruthie Foster tive uma reação similar.


UM –Eu gostei bastante do disco Introducing The Blues Ambassadors. Todo ele blues, fantástico! Você apenas sentiu que era o momento de voltar às raízes do blues?


ET - Eu quis mostrar a todos que eu poderia fazer.


UMEarls Thomas With Paddy Milner & The Big Sounds e Crow (o mais recente), não consegui escutar, não estão disponíveis no Spotfy. Poderia falar um pouco sobre ambos?


ET - Ambos os discos foram gravados com bandas preexistentes. Earl Thomas With Paddy Milner foi gravado em Londres com o pianista Paddy Milner e a sua banda. Nos divertimos muito, apenas tocando no estúdio. Todos contribuíram com canções


UM – Você vem ao Brasil agora em fevereiro, poderia falar sobre essa turnê brasileira? Você tocará ao lado do Igor Prado, o considero o maior nome do blues na atualidade, e do Luciano Leães, pianista extremamente talentoso...


ET - Eu ainda não conheço o Luciano, mas to ansioso! Tomei conhecimento do Igor Prado quando uma amiga minha, Tia Carrol, fez uma turnê com ele. Então eu o vi com outra amiga, Whitney Shay, e depois novamente com Annika Chambers. Quando o vi com Tia, meu primeiro pensamento foi "Eu gostaria de cantar com ele". E pensei o mesmo quando o vi com Whitney e Annika. Senti um espírito afim e reconheci seu potencial. Nós nos conhecemos pela primeira vez na Romênia e eu falei sobre o quanto eu admirava seu trabalho e quanto eu queria trabalhar com ele. E aqui estamos…




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