Entrevista Flávio Guimarães


A maior realização de um músico é quando seu nome transcende o próprio instrumento. Jimi Hendrix e a guitarra, Miles Davis e o trompete, John Coltrane e o saxofone. Seguindo essa lógica, Flávio Guimarães teve a proeza de tornar-se sinônimo de um instrumento até então incomum na música popular brasileira, a gaita. Fundador do Blues Etílicos, o carioca é o grande expoente desse pequeno apetrecho musical no Brasil e, tranquilamente, uma das referências no mundo. É interessante porque o gaitista americano Charlie Musselwhite, por diversas vezes, o elegeu como "o" melhor. "O Charlie é um grande amigo e uma das minhas influências. Nos conhecemos em 1994. Fizemos uma turnê juntos em 2006 e em 2014, graças a ele, abri dois shows dele com o Ben Harper aqui. Ele sempre me elogia, mas não chega a tanto. Não creio que exista ninguém “melhor do mundo”. Cada um tem sua estória para contar. Mas acho que sou o melhor aqui da minha rua (rs)", desconversou Flávio.

Melhor ou não, fato é que Flávio Guimarães já se tornou uma marca dentro do universo gaitista, possuindo sonoridade e identidade próprias. Tudo isso comprovado pela excelente carreira solo e os ótimos discos, casos de Vivo e de Flávio Guimarães & Prado Blues Band. Outro que merece uma audição atenta, e certamente trará momentos de tranquilidade, é The Blues Follows Me, um tributo ao eterno mestre Little Walter. "Little Walter influenciou toda linguagem da gaita blues contemporânea. Está para a gaita de blues como Jimi Hendrix para a guitarra de rock. Mais um álbum com os irmãos Prado, além de Rodrigo Mantovanni no contrabaixo", contou o gaitista sobre o bom disco.

Já o Blues Etílicos, patrimônio cultural imaterial de uma cidade que tanto maltrata o blues e o rock, expandiu novamente os limites preexistentes do gênero. O recente - e SENSACIONAL - disco em parceria com o violeiro Noel Andrade é um crossover entre o blues e a música caipira. "Noel nos convidou. Também acho uma ideia sensacional e um álbum excelente. Vamos fazer uma turnê com ele agora no final de março. Faz 25 anos da morte de Tião Carreiro e estamos fazendo essa homenagem", revelou.


Ugo Medeiros – O que você mais escutava durante a sua juventude no Rio de Janeiro? Você teve acesso ao blues desde cedo ou começou pelo rock’n’roll? Ainda que não houvesse, de fato, um bluesman - desculpe o pleonasmo, um bluesman que vivesse única e exclusivamente do blues - no Brasil, já havia músicos da gaita como Maurício Einhorn, certo?


Flávio Guimarães - Fui aluno do Einhorn, mestre da harmônica cromática. O fato é que a harmônica diatônica, conhecida aqui como gaita de blues, era um instrumento praticamente inexplorado no Brasil até 1985, com pouca gente tocando, e de forma tecnicamente muito limitada. Tive de aprender como autodidata, ouvindo discos e fitas de gaitistas americanos e tentando tirar de ouvido. Meu pai ouvia muito jazz tradicional em casa e isso me aproximou do blues muito cedo. Depois através do Muddy Waters, Johnny Winter, Rolling Stones... tudo foi me levando para o blues e o blues-rock.

Não tem bluesman no Brasil. Para ser bluesman tem de ter catado algodão no Sul dos EUA. Ninguém aqui, nem mesmo na nova geração de músicos lá fora, pode se intitular bluesman. Esses caras saíram da miséria para criar uma das formas de arte mais importantes do século XX. Sem o blues, não haveria o rock nem o jazz e toda música popular no mundo soaria diferente.


UM – Como nasceu o Blues Etílicos? Como vocês conheceram o Greg Wilson, se não me engano ele é natural do Alabama, correto? No início era muito mais um blues-rock, né?


FG - Nasceu em um botequim da Praça São Salvador no final de 1985. Eu convidei Cláudio Bedran e nós acabamos conhecendo o Otávio Rocha, que tinha um estúdio de garagem. Depois dos primeiros ensaios, batizamos a banda. O Greg nasceu no Mississipi e veio ainda bebê para o Brasil. Retornou para lá depois, onde fez faculdade de música no Arkansas. Ele entrou para a banda no final de 1986.

Antes, tivemos formações diferentes que não vingaram, mas com a entrada do Greg e do Gil Eduardo se formou o primeiro núcleo sério da banda. Éramos punk blues no início (rs)! Hoje somos uma banda autoral com identidade própria. Se tivesse de escolher um rótulo seria blues-rock.


UM – Poderia falar sobre a importância do Renato Arias [N.E: produtor] para a banda e o blues em geral?


FG - Naquela época ele era um idealista, batalhador. Investiu muito na nossa carreira e na do Big Allanbick.


UM – Considero o Blues Etílicos a primeira BANDA de blues, mas o primeiro bluesman, aquele solitário que toca o blues sozinho, credito ao André Christovam. Poderia falar sobre o pioneirismo do André em um estilo quase inédito no Brasil?


FG - Então, minha opinião sobre bluesman eu já dei. O André de fato já tinha toda uma cultura de blues antes de nós. O LP Mandinga apontava o caminho que o blues nacional deveria ter seguido para se incorporar à música brasileira como outros gêneros se incorporaram, como o reggae. Ao preferirmos partir para o inglês, criamos um público fiel, mas bem menos numeroso se seguíssemos fazendo também em português.


UM – Ainda nessa linha, o Blues Etílicos regravou uma canção que muitos consideram o primeiro blues no Brasil, Canceriano sem lar (Clínica Tobias), uma versão matadora! Ela foi muito importante para a banda, né?


FG - Uma versão bem legal, que saiu num álbum da Putumayo Records, Blues Around the World, junto com grandes artistas como Taj Mahal, Otis Spann, Eric Bibb e Bonnie Raitt.


UM – Na vira dos anos 1980/90 o Rio de Janeiro tinha uma cena bem forte e ainda contava com bons espaços para o blues ao vivo. Blues Etílicos, Big Allanbik e Celso Blues Boy lotavam o Circo Voador, Canecão e outras casas. Poderia falar sobre essa cena?


FG - Circo Voador, Jazzmania e depois Mistura Fina foram os espaços aqui no Rio nesse período. Tivemos festivais bem bacanas juntos.


UM – Como você conheceu o Charlie Musselwhite? Por diversas vezes ele te citou como o maior gaitista do mundo. Que honra, não? Poderia falar sobre o legado dele na gaita e no blues?


FG - O Charlie é um grande amigo e uma das minhas influências. Nos conhecemos em 1994. Fizemos uma turnê juntos em 2006 e em 2014, graças a ele, abri dois shows dele com o Ben Harper aqui. Ele sempre me elogia, mas não chega a tanto. Não creio que exista ninguém “melhor do mundo”. Cada um tem sua estória para contar. Mas acho que sou o melhor aqui da minha rua (rs).


UM – Comparando o primeiro disco do Blues Etílicos de 1987 e o Viva Muddy Waters de 2007, nossa, quanta mudança! A banda toda evoluiu demais! Poderia falar sobre esse amadurecimento dos músicos?


FG - De fato, evoluímos e seguimos evoluindo. A maturidade na música é uma vantagem. As formas de se gravar discos também evoluíram muito. Nos anos 1980 era difícil achar um engenheiro de gravação sintonizado com o que fazíamos. Só em 1994, com Tom Swift no álbum Salamandra, conseguimos alguém que soubesse gravar esse som.


UM – O Blues Etílicos nunca teve medo de gravar blues autoral em português. O mais comum para uma banda iniciante é se ater aos clássicos do estilo em inglês. Compor em português sempre foi um consenso na banda?


FG - No passado não era consenso, mas agora entendemos a importância de lançarmos material em português. Somos uma banda bilíngue. Hoje em dia têm muitas bandas fazendo só covers de clássicos manjados e isso limita muito a expansão do gênero no Brasil.


UM – Falemos um pouco sobre a carreira solo. Você gravou um discaço com a saudosa Prado Blues Band, uma onda mais swing. Como foi esse projeto?


FG - Projeto do Chico Blues. Banda maravilhosa. Muito orgulho desse álbum.


UM – Seu disco Vivo é muito bom, traz uns clássicos bem redondos! Ele foi todo gravado ao vivo em estúdio, certo?


FG - Foi gravado em um pequeno teatro em Icaraí, Niterói. Show para quarenta pessoas. A banda que me acompanhou contava com Otávio Rocha, Ugo Perrotta e Beto Werther. Agora também temos o Beto Werther no Blues Etílicos.


UM – Você também gravou com o Álamo Leal, Ain`t no Strangers Here. Vocês têm tocado bastante aqui pelos bares cariocas. O Álamo passou um tempo na Inglaterra e voltou no início dos anos 2000, né? Vocês já se conheciam? Poderia falar sobre o disco e a parceria/amizade?


FG - O Álamo é o que temos mais próximo de um bluesman aqui no Brasil. Grande intérprete e amigo. Esse álbum é acústico e muito bacana. Seguimos fazendo alguns bares legais aqui no Rio para manter as pedras rolando.


UMThe Blues Follows Me é uma homenagem ao Little Walter. Poderia falar sobre o disco em si e a influência do norte-americano na sua formação musical?


FG - Little Walter influenciou toda linguagem da gaita blues contemporânea. Está para a gaita de blues como Jimi Hendrix para a guitarra de rock. Mais um álbum com os irmãos Prado, além de Rodrigo Mantovanni no contrabaixo.


UM – Por favor não fique chateado, mas o seu disco Navegaita, apesar de um disco bacana, tem uma capa, digamos, “Sidney Magal”. Se fosse hoje, teria feito uma capa diferente ou manteria a mesma?


FG - [Risos] Concordo. Eliminei essa capa, nunca mais vai sair! As boas músicas desse álbum saíram depois em uma coletânea.


UM Flavio Guimaraes And Friends traz participações de luxo, como Charlie Musselwhite, Rick Estrin e Peter Madcat Ruth. Poderia falar sobre o disco?


FG - Steve Guyger, Gary Smith... um elenco e tanto. Um álbum poderoso. Quem não gostar de gaita não deve ouvir (rs), pois é gaita para todo lado.


UM – O Blues Etílicos fez um projeto inovador, gravou com Noel Andrade. Um blues puxado para a sonoridade caipira brasileira. Achei sensacional, escuto o disco numa tranquilidade, de cabo a rabo... Da onde veio essa ideia? Como vocês entraram em contato? Poderia falar sobre o disco?


FG - Noel nos convidou. Também acho uma ideia sensacional e um álbum excelente. Vamos fazer uma turnê com ele agora no final de março. Faz 25 anos da morte de Tião Carreiro e estamos fazendo essa homenagem.






ENGLISH VERSION:


Ugo Medeiros - What did you listen to most during your youth in Rio de Janeiro? Did you have access to the blues early or started with rock'n'roll? Even if there was not, in fact, a bluesman - I mean, a bluesman who lived only by/with the blues - in Brazil, there were already harmonica players like Maurício Einhorn, right?

Flávio Guimarães - I was a student of Einhorn, master of the chromatic harmonica. The fact is that the diatonic harmonica, known here as the blues harmonica, was a practically unexplored instrument in Brazil until 1985, with few people playing and technically very limited. I had to learn as a self-taught person, listening to American some LP and tapes, and trying to get it out of my ears. My dad used to hear a lot of traditional jazz at home, and that brought me to the blues very early. Then through Muddy Waters, Johnny Winter, Rolling Stones... all to myself, leading to blues and blues-rock.

There is no bluesman in Brazil. To be bluesman, you must have picked cotton in the southern United States. No one here, not even the new generation of american musicians, can call himself bluesman. These guys came out of misery to create one of the most important art forms of the twentieth century. Without the blues, there is neither rock nor jazz and all popular music in the world would sound different.


UM - How was Blues Etílicos born? How did you guys meet Greg Wilson, if I'm not mistaken, he's a native of Alabama, correct? At the beginning it was more blues-rock, right?


FG - It was born in a dirty little bar on São Salvador Square [a bohemian area in the center of Rio de Janeiro] in late 1985. I invited Claudio Bedran and we ended up getting to know Otávio Rocha, who had a garage studio. After the first rehearsals, we baptized the band. Greg was born in Mississippi and came to Brazil as a baby. He returned to US later, where he attended music college in Arkansas. He joined the band in late 1986. Before, we had different formations that did not work, but with the entrance of Greg and Gil Eduardo formed the first serious nucleus of the band. We were punk blues in the beginning (LOL)! Today we are an authorial band with its own identity. If I had to choose a label it would be blues-rock.


UM - Could you talk about the importance of Renato Arias [producer] to Blues Etílicos and the blues in general?


FG - At that time he was an idealist, a "blues warrior". Invested a lot in our career and in the Big Allanbik's career.


UM - I consider Blues Etílicos the first brazilian blues BAND, but the first bluesman, that solitary who plays the blues alone, I credit to André Christovam. Could you talk about André's pioneering style in an almost unprecedented style in Brazil?


FG - So, my opinion about bluesman I already gave. André did have a whole blues culture before us. The LP Mandinga pointed the way that the national blues should have followed to incorporate to the Brazilian music as other genres were incorporated, like reggae. When we prefer to compose in english, we create a faithful audience, but much less numerous if we continued doing also in Portuguese.


UM - Still in this line, Blues Etílicos made a version of song that many consider the first blues in Brazil, Canceriano homeless (Clínica Tobias), a great version! It was very important to the band, right?


FG - A very cool version that came out on a Putumayo Records album, Blues Around the World, along with great artists like Taj Mahal, Otis Spann, Eric Bibb and Bonnie Raitt.


UM - At the turn of 1980/90 Rio de Janeiro had a very strong scene and still had good spaces for live blues. Blues Etílicos, Big Allanbik and Celso Blues Boy all crowded Circo Voador, Canecão and other houses. Could you talk about that scene?


FG - Circo Voador, Jazzmania and later Mistura Fina were the spaces here in Rio during that period. We had really nice festivals together.


UM - How did you meet Charlie Musselwhite? On several occasions he has cited you as the greatest harmonica player in the world. What an honor, no? Could you talk about his legacy on the harmonica and on the blues?


FG - Charlie is a great friend and one of my influences. We met in 1994. We toured together in 2006 and in 2014, thanks to him, I opened two concerts for Ben Harper here. He always compliments me, but it does not quite come to that. I do not think there is anyone like "the best in the world". Each one has his story to tell. But I think I'm the best here on my street. [Laughs]


UM - Comparing Blues Etílicos 1987 first album and 2007 Viva Muddy Waters, how much change! The whole band has evolved! Could you talk about this maturity gain of the musicians?


FG - In fact, we have evolved and continue to evolve. Maturity in music is a plus, a bonus. As forms of recording also evolved a lot. In the 1980s it was hard to find a recording engineer tuned to what we were doing. Only in 1994 salamandra album, with Tom Swift, we got a person who could record that sound.


UM - Blues Etílicos was never afraid to record blues lyrics in Portuguese. The most common for a beginner band is stick to the classics in english. Was composing in Portuguese always a consensus in the band?


FG - In the past there was no consensus, but now we understand the importance of releasing material in Portuguese. We are a bilingual band. Nowadays there are many bands doing only classic covers and this limits a lot the blues expansion in Brazil.


UM - Let's talk a little about the solo career. You recorded with the Prado Blues Band, an album with more swing. How was this project?


FG - It was a Chico Blues project. Wonderful band. Very proud of this album.


UM - Your Vivo album is very good, it has some very good classics! It was all recorded live in a studio, right?


FG - It was recorded in a small theater in Icaraí, Niterói. A show for forty people. The band that accompanied me had Otávio Rocha, Ugo Perrotta and Beto Werther. Now we also have Beto Werther in Blues Etílicos.


UM - You also recorded with Alamo Leal, Ain`t in Strangers Here. You have played a lot here in the bars in Rio de Janeiro. Alamo Leal spent some time in England and came back in the early 2000s, right? Did you already know each other? Could you talk about the album and the partnership/friendship?


FG - Alamo is what we have closest to a bluesman here in Brazil. Great interpreter and friend. This album is acoustic and very cool. We keep making our music in some nice bars here in Rio to keep the rolling stones.


UM - The Blues Follows Me is a tribute to Little Walter. Could you talk about the record itself and about his influence in your musical formation?


FG - Little Walter influenced all the language of contemporary blues harmonica. It's for blues harmonica like Jimi Hendrix for rock guitar. Another album with the Prado brothers, as well as Rodrigo Mantovanni on the stand up bass.


UM - Please do not be upset, but your Navegaita album, despite a nice record, has a cover, let's say "Sidney Magal" [is an old fashion singer, like Rick Martin or Robby Rosa] . If it were today, would it have made a different cover or would it have remained the same?


FG - [Laughs] I agree. I've removed this cape, it will never come out again! The good songs from this album came out later in a collection.


UM - Flavio Guimarães And Friends brings luxury appearances such as Charlie Musselwhite, Rick Estrin and Peter Madcat Ruth. Could you talk about the record?


FG - Steve Guyger, Gary Smith... and many others. A powerful album. Those who do not like the harmonica should not listen [Laughs], because it is harmonica all the album!


UM - Blues Etílicos made an innovative project, recorded with Noel Andrade. A crossover between blues and brazilian country music. It's SENSATIONAL! I listen to the record in a tranquility, from beginning to end... Where did this idea come from? How did you two get in touch? Could you talk about the record?


FG - Noel invited us. I also think a great idea and an excellent album. We will tour with him now at the end of March. It is 25 years since the death of Tião Carreiro and we are doing this homage.




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