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Entrevista Doug MacLeod

31.03.2018

 

 

    Doug MacLeod é um daqueles bluesmen old school, um mestre do blues acústico que une uma pegada delicada e habilidade de contar estórias. Iniciou a carreira em St. Louis e teve a honra de tocar nas bandas de George Harmonica Smith, Big Joe Turner e Big Mama Thornton, mas foi com Ernest Bank que Doug aprendeu as maiores lições. "Tive muita sorte por ter sido colocado debaixo das asas de um velho bluesman acústico da Virgínia, Ernest Banks. Ele me disse que para ser um bluesman você deve escrever, cantar, tocar e entreter", recordou Doug sobre o grande mestre de sua vida.

 Simpático, humilde e sincero, características de um grande homem que superou traumas e um passado de abusos ainda quando criança. E a vitória ante todas as dificuldades que a vida lhe impôs se deu justamente através do blues, segundo o músico, estilo comumente associado a pactos demoníacos. "Vi que essa música [o blues] tinha um lado espiritual. Um lado que ajuda as pessoas a lidarem com as adversidades da vida. E Eu posso dizer com autoridade que eu conheci diretamente esse lado espiritual. Muita coisa para falar aqui agora. Talvez uma outra hora. Mas como eu disse, acredito que essa é uma música para superar as adversidades, não para sucumbir".

    Doug MacLeod ganhou o Blues Foundation Awards em diversas oportunidades, inclusive em 2017, quando foi premiado como o Melhor Artista Acústico. E pelo visto este ano de 2018 trará novos frutos e prêmios, seu último disco Break The Chain foi nomeado para a categoria de Melhor Disco Acústico do Ano. Ao lado de seu filho Jesse, Doug expôs todas as feridas de sua vida para que todos vejam que é possível quebrar uma maldição. "Então Jess e eu colaboramos em Break The Chain para enviar uma mensagem que você não precisa continuar com uma corrente de abuso, você não precisa continuar sendo uma vítima, você pode quebrar a corrente, você tem o poder. Eu acho que o álbum é uma homenagem para superar a adversidade de várias maneiras".

   Mr. Doug MacLeod, A.K.A Dubb, é uma enciclopédia viva do blues e seus discos, sobretudo os acústicos, são altamente didáticos. Aqueles interessados em desenvolver o paladar e o tato blueseiros devem devorar toda a sua obra. O coroa é a prova incontestável que o blues é mais do que canções sobre campos de algodão ou saquinhos místicos de mojo, o blues é o puro amor em forma musical. 

    

Ugo Medeiros – Você é um bluesman muito conhecido por ser um contador de estórias. Isso é interessante porque você é de Nova Iorque, uma cidade extremamente identificada com aquele folk tradicional, sobretudo durante os anos 1960. Essa tradição de contar estórias veio daquele folk anglo-saxão. Poderia falar sobre essa tradição e suas origens?

 

Doug MacLeod - Eu nasci em Nova Iorque, mas com apenas três semanas minha família se mudou para Raleigh, Carolina do Norte. Portanto, a coisa de contar estórias não veio de Nova Ioque. Eu me lembro de músicos de blues com quem trabalhei, eles contavam estórias para convidar o público. É de onde eu peguei essa coisa. 

 

UM - O blues tem uma habilidade de falar sobre uma sátira e logo depois sobre algo sublime, incendiar uma casa com muita dança e ainda deixar um clima mais melancólico, pensativo...

 

DML - Bem, talvez você deva voltar lá atrás. O Brownie McGhee dizia que  "o blues é verdade", já o Willie Dixon falava que "o blues são os fatos verdadeiros da vida". 

 

UM – O John Hammond Jr. é um cara incrível, extremamente humilde. Ele também é de Nova Iorque. Você o conheceu quando estava começando? Poderia falar sobre a cena de Nova Iorque?

 

DML - John é cara excelente, mas não o conheci por lá, eu não estava envolvido com aquela cena blues de Nova Iorque. Comecei no blues em St. Louis.

 

UM – Podemos dizer que o George Harmonica Smith foi o seu grande mestre no blues? Ele te chamava de "Dubb"? Você também tem um disco com esse apelido, diga-se de passagem, ótimo disco...

 

DML - George era um amigo querido e um pai para mim, ele foi um mentor. Sim, ele me chamava de "Dubb" porque não conseguia me chamar de Doug. Uma vez falei com ele "George, meu nome é Doug". E ele respondeu "Eu sei disso, Dubb". A partir disso virou Dubb. Fico feliz que você goste do álbum Dubb.

 

UM – O seu disco You Can't Take My Blues trouxe um tempero mais country. A canção Papa John, acredito eu, é um tributo a Papa John Creach, certo? Você poderia falar sobre a relação entre blues e country? Esses dois estilos têm alguns pontos em comum? Poderia falar, também, falar sobre o disco?

 

DML -Acho que eles são como aqueles primos que se beijam. Para mim, é tudo folk music. Como quando perguntaram ao Big Bill Broonzy se ele cantava folk music, ele respondeu "acho que sim, porque eu nunca escutei um cavalo cantar". O disco foi feito todo ao vivo, sem overdubs, apenas a performance do momento. Como se fazia nos anos 1930/40.

 

UM – Você também tocou com Big Joe Turner! Você o considera o avô do rock and roll? Como foi essa experiência?

 

DML - Ótima experiência. Joe era um cara poderoso e divertido para se estar. Eu considero uma honra ter tocado com ele. Pee Wee Crayton me perguntou se eu gostaria de tocar na banda do Joe. O respondi que eu não sabia todos os arranjos. Nisso, ele me questionou, "Você sabe como tocar em C (dó), seu filho da puta?" e eu respondi que sim. Aí ele emendou, "bem, então você pode tocar com o Joe, porque ele faz tudo em C". Um gigante!

 

UM – Eu escutei ao seu primeiro disco, No Road Back Home, um blues elétrico. Você poderia falar sobre o álbum?

 

DML - Depende, o que você gostaria de saber? [N.E: entrevista por email é ruim pela falta da réplica...].

 

UM - Eu escutei quase toda a sua discografia, por favor não encare como uma crítica, apenas uma opinião, gosto pessoal. Prefiro quando você toca acústico, acho que você tem o DNA acústico! O que você prefere: tocar em uma banda elétrica, em uma banda acústica ou você sozinho com um violão?

 

DML - Acho que o acústico é para mim. Comecei como um músico acústico e fiz todo meu ciclo. Gosto de tocar e ter a minha performance sozinho. Fico bem menos nervoso como um artista solo.

 

UM – Albert King e Albert Collins gravaram canções suas, isso é demais! Eu fiz essa mesma pergunta ao Rick Holmstrom (você o conhece?): há uma falta de bluesmen que apostem em canções autorais, suas próprias canções? Diversos bluesmen vêm ao Brasil para cantar Sweet home Chicago e Mojo working...

 

DML - Claro que eu conheço o Rick, é um dos meus preferidos! Tive muita sorte por ter sido colocado debaixo das asas de um velho bluesman acústico da Virgínia, Ernest Banks. Ele me disse que para ser um bluesman você deve escrever, cantar, tocar e entreter. Uma noite, após um show, nos sentamos numa esquina de Norfolk, Virgínia, lá bebendo um vinho chianti. Eu falei "Você diz que eu tenho que escrever canções de blues", e ele fez um sim com a cabeça. Insisti, "bem, sobre o que devo escrever? Não colhi algodão e eu realmente não me interesso em saber mais sobre ossos, mojos e todas essas coisas que aprendi ao estar contigo. Sobre o que escrevo?". Ele perguntou, "Rapaz, você já esteve sozinho? Precisou de dinheiro para pagar o aluguel daquele pequenos apartamento que você tem? Precisou de uma mulher?". Respondi que sim, claro. E ele finalizou, "Escreva sobre isso, rapaz. Isso também é blues. Escreva sobre o que você sabe". As lições que aprendi com ele permaneceram comigo por todo esse tempo.

 

UM – Você também tocou com a Big Mama Thornton? Que legal! Ela é a minha segunda vocalista preferida, atrás apenas da Bessie Smith...

 

DML - Sim, toquei. Ela era áspera [N.E: Rough, no sentido de difícil], sabe. Tive sorte, ela gostava de mim. Foi uma honra tocar na banda dela.

 

UM – Jazz, gospel e soul têm todos o mesmo DNA blues?

 

DML - Bem, acho que o jazz e o soul sim, com certeza. Acho que o blues pegou muito do gospel.

 

UM – Você colaborou durante anos na Blues Revue Magazine?

 

DML - Sim, eu escrevia uma coluna chamada Doug' Back Porch na qual contava minhas estórias com os bluesmen que conheci. Foi durante o show da NAMM [N.E: National Association of Music Merchants, algo como uma grande feira da indústria musical] na Califórnia. Eles vieram e chamaram quatro de nós, eu acho, para tocar e cantar e apresentar os Nationals [N.E: Grand National, tradicional marca americana de violão resonator]. Foi tudo filmado em um quarto de hotel. 

 

UM – No seu site li um depoimento interessante. A viúva do Pee Wee Crayton disse: "Você tem uma mensagem e você manda essa mensagem sobretudo às pessoas que não vão à Igreja". Poderia explicar? 

 

DML - Acho que sim. Muitas pessoas querem ver o blues como música do diabo, por diversas razões. Eu era assim até o momento em que conheci o Ernest Banks. A partir dali encontrei o meu caminho para tocar com os melhores bluesmen e mulheres. Vi que essa música tinha um lado espiritual. Um lado que ajuda as pessoas a lidarem com as adversidades da vida. E Eu posso dizer com autoridade que eu conheci diretamente esse lado espiritual. Muita coisa para falar aqui agora. Talvez uma outra hora. Mas como eu disse, acredito que essa é uma música para superar as adversidades, não para sucumbir. Esther (a viúva) via isso na minha música. Ela é uma mulher muito espiritualizada e viu essa mensagem na minha  música.

 

UM – Poderia falar sobre o seu último disco, Break Chain? Você gravou com o seu filho Jesse?

 

DML - Sim. Jesse, que é um bom cantor/compositor por méritos próprios, e eu queríamos fazer algo juntos, como pai e filho. Bem, eu fui abusado quando era um garotinho e isso ferrou bastante a minha infância. Encontrando relacionamentos ruins e muitas vezes violentos. Finalmente tudo isso me levou a uma mulher que eu amava, mas que tentava cometer suicídio. Nós a salvamos, mas então nós dois tivemos que ir à terapia. Foi aí que fiquei ciente do abuso que aconteceu comigo. Eu tinha bloqueado isso. Foi muito traumático para eu lembrar. O médico me disse que se você foi abusado, há uma boa chance de você ser um molestador.

Eu tinha 27 anos e não achava que isso importaria. Quando minha atual esposa Patti Joy e eu tivemos Jesse, lembro de segurá-lo em meu braço quando era apenas um bebê e aquelas palavras de médicos voltaram para mim. Eu vi a inocência e a confiança em seus olhos e eu disse "Nem fodendo, essa merda pára agora". Eu decidi quebrar aquela corrente [N.E: Break the chain] de abuso que fazia parte da história da minha família sabe-se lá há quanto tempo. Então Jess e eu colaboramos em Break The Chain para enviar uma mensagem que você não precisa continuar com uma corrente de abuso, você não precisa continuar sendo uma vítima, você pode quebrar a corrente, você tem o poder. Eu acho que o álbum é uma homenagem para superar a adversidade de várias maneiras. Quebrando uma corrente, a partir do humor, viajando através da adversidade, do espiritual, entre outros. Além disso, uma homenagem ao mestre Tampa Red.

 

 

 

 

 

ENGLISH VERSION:

 

Ugo Medeiros – You're a bluesman Very well known for being a storyteller. And that's interesting, because you're from New York, a city that is extremely popular with folk tradition, especially in the 60's. And this tradition of storytelling came from the Anglo-Saxon folk. Could you talk about this tradition and its origins?

 

Doug MacLeod - I was born in NYC, but when I was 3 weeks old we moved back to Raleigh NC. So the story telling didn’t come from there. I remember the blues musicians I worked with and heard telling stories to invite the audience in. That’s where I got the story telling from.

 

UM - The blues has this ability to talk about a satire and soon after about the sublime, to set fire to a house with lots of dancing and to collect in an insightful melancholy... Could you talk about it?

 

DML - Well, maybe you got to go back to the words of Brownie McGhee when he said The Blues Is Truth and Willie Dixon who said The Blues Is The True Facts Of Life

 

UM – John Hammond Jr. Is amazing, what a great and humble person. He's also from New York. Did you know him when you were beginning? Could you talk about New York blues scene?

 

DML - John is a great guy. But I didn’t know him there and I wasn’t involved in the NYC blues scene. I started in blues in St Louis.

 

UM – Can we say George Harmonica Smith was your great blues master? Did he call you “Dubb”? You have na álbum with that nickname, by the way, great álbum!

 

DML - George was a dear friend and a father to me. Yes he was a mentor to me. Yep, he called me Dubb because he wouldn’t call me Doug. I once told him ‘George my name is Doug’ and he replied, “I know that Dubb.’ So that was it. It was gonna’ be Dubb from then on. I’m glad you like ‘Dubb’ the album. :-)

 

UM – Your You Can't Take My Blues álbum brought some country spices. Theres a Papa John song, I believe is tribute to Papa John Creach. Could you talk about that relationship between blues and country. Do these two syles have some common points? Could you also talk about the record?

 

DML - I think they are ‘kissin cousins’. To me it’s all folk music. Music for folks. Like when Big Bill Broonzy was asked if he sang folk music his reply was “ I guess so, ‘cause I never heard a horse sing.”  The record was done live no overdubs just the performance of the moment. Like they did in the 30’s and 40’s

 

UM – You also played with Big Joe Turner! Do you consider him as the rock and roll grandfather? How was the experience?

 

DML - Great experience. Joe was a powerhouse and fun to be with. I considered an honor to back him up. Little story. Pee Wee Crayton asked me if I’d like to back up Joe. I said I don’t think I know all his arrangements. Pee Wee said- You know how to play in the key of C mother fucker? I said, Yeah. Pee Wee said well then you can play with Joe ‘cause everything he does is in C. A giant.

 

UM – I listened your first álbum, No Road Back Home, It was a electric blues. Could you talk about the álbum?

 

DML - What would you like to know?

 

UM - I listened almost your entire discography, please this is not a criticism, just a personal opinion/taste. I prefer you playing acoustic, I think you have an acoustic DNA! What do you prefer: to play in an electric band, an acoustic band or acoustic by yourself?

 

DML - I think acoustic is for me. I started out as an acoustic player and have come full circle. I like playing and performing alone. I’m alot less nervous as a solo performer

 

UM – Albert King and Albert Collins recorded some of your songs. Thats terrific! I made this same question to Rick Holmstrom (Do you know him?): Is there a lack in current blues artists who “bet” “copyright” songs, their own songs? I think there are many bluesmen coming to Brazil to sing Sweet Home Chicago or Mojo working

 

DML - Sure I know Rick- one of my favorites! I was lucky enough to be taken under the wing of an old acoustic bluesman from VA. Ernest Banks. He told me in order to be a blues man you got to write, sing, play, and entertain. One night after a show we sat down on the corner in Norfolk VA drinking Chianti wine and I said to him. “ you say I got to write blues songs” He nodded yes, I said, “Well what do I write about? I’ve never picked cotton and I don’t really care to know more about bones and mojos and all that stuff I’ve learned being with you. what do i write about?” He said, “ you ever been lonely boy? Needed some rent money for that little apartment you got? Needed a woman?” i said, ‘Sure’. He said, ‘write about that boy. That’s the blues too. write what you know about.’ The lessons I learned from him have stayed with me this whole time.

 

UM – Did you play with Ms. Big Mama Thornton? Cool! Shes my second blues singer, just behind Bessie Smith…

 

DML - Yes I did. She was rough you know.  I was lucky tho. She liked me. i thought it was ann honor to back her up.

 

UM – Do jazz, gospel and soul have the same Blues DNA?

 

DML - Well, I think  jazz and soul do for sure. And I think blues has gotton alot from gospel

 

UM – Did you colaborate for several years to Blues Revue Magazine?

 

DML - Yes, I wrote a column for them called Doug’s Back Porch where I told my stories of my times with the bluesmen I knew. It was during the NAMM Show in CA. They came by and asked four of us ( I believe ) to play and sing to demonstrate the Nationals. It was all filmed in a hotel room.

 

UM – I read this testimony in your website from Pee Wee Crayton’s widow: "You have a message and you'll send that message mainly to the people who don't go to church.". Could you explain?

 

DML - I think so. So many people want to see blues as the devil’s music. for many reasons. I did too until I met Ernest Banks and then found my way to play with all the fine bluesmenn and women I worked with. I saw this music had a spiritual side. A side that helps people  cope with the adversities of life. And I can say with authority that I’ve known the spiritual side directly. Too long to talk about here now. Maybe another time. But like I say - I believe this a music of overcoming adversity not sucomming to adversity . Esther saw that in my music. She was a very spiritual woman and saw that message in my music

 

UM – Could you talk about your last álbum, Break Chain? Did you record with your son Jesse?

 

DML - Yep. Jesse, who is a fine singer/songwriter in his own right, and I wanted to do something together as father and son. Well, I was abused when I was a little boy and it messed up alot of my younger life. Finding bad and alot of times violent relationships. Finally led to a woman I loved trying to commit suicide. We saved her, but then we both had to go to therapy. That’s where I was made aware of the abuse that had happened to me. I had blocked it out. It was too traumatic for me to remember. The Doctor told me if you have been abused there’s a good chance you could be an abuser yourself. I was about 27 then and I didn’t think it would matter. When my current wife of 39 years Patti Joy and I  had Jesse i remember holding in my arm when he was just a baby and those doctors words came back to me.  I saw the innocence and trust in his eyes and I said ‘No Way!” That shit stops now. I decided to break the chain of abuse that had been part of my family’s history for who knows how long. So Jess and I colloborated on Break The Chain to send a message that you don’t have to continue a chain of abuse, you don’t have to remain a victim, you can break the chain, you have the power. I think the album is a tribute to overcoming adversity by many ways. Breaking a chain, humor, travelin on thru adversity, spiritual, among others. Plus a tribute to a master, Tampa Red.

 

 

 

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