Olho neles: Luiz Alexandre e a West Side Blues


Luiz Alexandre venera Dead Kennedys, NOFX, Bad Religion, Minor Threat e ainda liderou os vocais de bandas de hardcore durante os tempos de rebeldia. Saiu da cena, mas nem por isso recebeu a alcunha de "traidor do movimento" ou "vendido". Longe disso, aqueles valores e ideais contra o senso comum continuam pulsando e honrando aquele passado, mas a trilha sonora da raiva contra o sistema ganhou a tal "blue note". "Claro, eu já conhecia uma coisa ou outra de Stevie Ray Vaughan, mas descobri da forma mais morosa possível que Jimi Hendrix possuía uma forte influência do blues e comecei a ouvir com mais atenção algumas coisas do BB King, Muddy Waters, Buddy Guy, Johnny Winter, etc.", explicou Luiz.

Uma vez que o blues entrou definitivamente em sua vida, o músico iniciou uma jornada de descoberta por um estilo comumente taxado como simples, mas que na realidade é traiçoeiro. Correu atrás dos clássicos, pesquisou os três reis do blues (BB King, Albert King e Freddie King), buscou informações sobre os bluesmen brasileiros mais relevantes. Tudo isso visando uma maior solidez e um constante enriquecimento do repertório. "Atualmente estou apaixonado por três músicas: Reconsider baby do Lowell Fulson, Spoonful do Howlin' Wolf e Born under a bad sign do Albert King. Todas com base nos arranjos do Joe Bonamassa, quem eu considero hoje minha maior influência. Ah, Dust my broom do Elmore James é uma delícia de tocar também!", comentou.

Em pouco tempo formou a West Side Blues, uma grata surpresa da profícua cena carioca, marcada historicamente por bons músicos. "Nosso primeiro ensaio foi em agosto de 2017. Sinceramente, não esperava que em apenas quatro meses debutaríamos em um festival com ótimos artistas, como o Rio Rock & Blues Festival, promovido pelo Marcelo Reis da Rock Experience. E poucos dias depois ainda nos apresentamos em outro festival de grande porte como o Barra Blues, abrindo show para o Victor Biglione!", revelou com entusiasmo Alexandre.

Luiz Alexandre e sua West Side Blues têm um potencial interessante e o tempo os dará mais rodagem e os calos necessários para navegar pelas turvas águas do Rio Mississippi. É sempre uma alegria ver uma boa banda crescendo e ganhando espaço. O Coluna Blues Rock acredita na meritocracia musical e sugere às casas e aos contrantes mais chances a estes rapazes!


Ugo Medeiros - Após algumas conversas, descobrimos que partilhamos o amor pela cena hardcore clássica. Poderia falar um pouco sobre essas bandas, o quanto elas foram importantes na sua vida? Sua relação com a música começou com aquelas bandas "toscas" e "podres"?


Luiz Alexandre - Antes de mais nada, é uma honra fazer parte da história deste site! Obrigado pelo convite! Digamos que o hardcore e o punk rock basicamente auxiliaram na minha formação de caráter, pois toda a bagagem de ideais e o modo de enxergar as coisas vieram daquela rebeldia. Uma necessidade de impor uma espécie de contracultura, de não aceitar aquilo que simplesmente querem lhe impor sem questionamentos, além de toda energia e simplicidade que a música em si me era apresentada.

Minha família sempre foi muito musical, mas pendendo para outras vertentes (do samba ao sertanejo raiz). Mas como toda boa família, tive aqueles primos "ovelhas negras", que desde cedo me enfiaram o rock e o metal goela abaixo. Sou grato por isso!. Especificamente com o punk rock, meu contato inicial se deu com o boom do chamado "pop punk", por volta dos anos 1990, com a popularização de bandas como Green Day e Offspring. Dali para frente surgiu a vontade de formar a primeira banda - que culminou na primeira cerveja - e de conhecer/garimpar as origens daquela cena. Apesar do tempo ter me empurrado para as vertentes da cena do hardcore californiano (Bad Religion, NOFX, Pennywise) pela rapidez e frases mais melódicas, ainda assim os álbuns que mais me marcaram foram Give me Convenience Or Give me Death do Dead Kennedys e Out of Step do Minor Threat. Aliás, hoje (16/04) é aniversário do Ian MacKaye!


UM - Atualmente você está em uma banda de blues-rock, a West Side Blues. Antes de falarmos sobre a banda em si, como o blues entrou na sua vida? Como o Minor Threat perdeu o protagonismo para o Stevie Ray Vaughan?


LA - Sou um fã inveterado de Jazz e o gosto pelo blues foi adquirido de forma absurdamente natural, como se a coisa toda viesse ao meu encontro. Desde já, com certa vergonha, assumo que o gênero se resumia a B.B. King e Eric Clapton por conta da emblemática capa do Riding With the King. De coração, desculpas a todos os blueseiros de plantão que estejam lendo a matéria! O blues também entrou na minha vida através de alguns outros caras que falavam de bebidas e de desilusões amorosas, o que não deixa de ser verdade. Mas uma música em particular me chamou a atenção para o blues: Since I've been loving you do Led Zeppelin. Em algum momento, depois de velho, decidi devorar os discos do Led, e quando ouvi essa música pela primeira vez fiquei pasmo. Quando me deparei com ela senti uma enorme necessidade de cantá-la, fosse com violão e voz, com banda, karaokê, com o que fosse. Mas havia um único problema, nunca fui um bom vocalista e os registros agudos faziam da canção algo inimaginável para mim. Isso me instigou a necessidade de me aperfeiçoar como cantor e de aprender as técnicas para atingir tal alcance.

Dali para frente houve o interesse primário pelo blues. Claro, eu já conhecia uma coisa ou outra de Stevie Ray Vaughan, mas descobri da forma mais morosa possível que Jimi Hendrix possuía uma forte influência do blues e comecei a ouvir com mais atenção algumas coisas do BB King, Muddy Waters, Buddy Guy, Johnny Winter, etc. Aliás, uma ótima fonte de consulta foram as entrevistas do Coluna Blues Rock - sem puxação de saco, juro! - pois conheci o trabalho de inúmeros artistas do blues e suas diversas influências, como Álamo Leal (que me deixou fascinado pela versão de The same thing do Willie Dixon), Arthur Menezes (representando o blues tupiniquim lá fora da maneira mais competente possível), Ricardo Werther (que Deus o tenha), Igor Prado (monstro demais), Earl Thomaz (QUE VOZ), Phil Wiggins, dentre outros.


UM - Agora sobre a West Side Blues, como nasceu a banda?


LA - Por não conseguir ficar longe da música, enxerguei no blues, gênero até então recém-adquirido, uma possibilidade de fazer algo. Eu não tinha noção de como era o cenário do estilo no Rio de Janeiro, mesmo assim fiquei com a ideia na cabeça de montar algo mesclando o blues e o classic rock. Também não sabia se isso fazia algum sentido, mas queria algo que fosse um hobby mesmo, como aquele futebol aos finais de semana. Uma banda sem maiores pretensões, somente alguns shows durante o mês. No início de 2017 o Marcelo Venturini (bateria) me adicionou no Facebook por algum motivo avulso, e uns três meses depois falei sobre a ideia de montar uma banda. Ele comprou a ideia na mesma hora. Para o baixo, convidei o Bruno, um amigo e parceiro de longa data de quando tínhamos uma banda de hardcore chamada Teenager Hookers - isso mesmo, não me julgue! Naquela época ele tocava bateria, mas como reclamava de tocar o mesmo instrumento, sempre a bateria, acabou achando uma boa válvula de escape. Inclusive, diga-se, ele é um sensacional baterista da ótima Miss Hell, banda carioca de rock'n'roll. Depois anunciei, também em uma comunidade do Facebook, a ideia do projeto, buscando um guitarrista. Apareceram alguns músicos, até que finalmente encontramos o Victor Castro, um cara absurdamente técnico e virtuoso que casou perfeitamente com a proposta da banda. Ou seja, 75% da banda formada via internet, enfim as redes sociais servindo para coisas úteis!


UM - Qual o repertório básico da banda, digo, quais aquelas canções que nunca podem faltar?


LA - Nosso repertório era basicamente composto de Stevie Ray Vaughan, Jimi Hendrix e BB King, mas percebi que havia algo errado. Claro, Pride and joy, Texas flood, Little wing, Red house, Sweet home Chicago, Thrill is gone, são músicas padrões em nossas gigs - e nas de 110% dos artistas de Blues. Também tocamos Since I've been loving you (consigo cantá-la hoje em dia!), mas a necessidade de realizar shows com maior duração nos fez buscar cada vez mais por referências e diversificar bastante dentro do gênero. Atualmente estou apaixonado por três músicas: Reconsider baby do Lowell Fulson, Spoonful do Howlin' Wolf e Born under a bad sign do Albert King. Todas com base nos arranjos do Joe Bonamassa, quem eu considero hoje minha maior influência. Ah, Dust my broom do Elmore James é uma delícia de tocar também! Sei lá, somos neófitos nisso tudo, cada vez mais aprendemos o que dá certo ou não no repertório, e o legal disso tudo é que a cada dia nos aprofundamos mais no gênero. Tentamos colocar um pouco da nossa personalidade nas músicas, uma pegada mais rock quando pertinente.


UM - A banda já tocou no Barra Blues Festival e tem feito barulho pelos bares/pubs cariocas. Pode falar um pouco sobre essas passagens? A banda já tem algum festival/datas agendados?


LA - Nosso primeiro ensaio foi em agosto de 2017. Sinceramente, não esperava que em apenas quatro meses debutaríamos em um festival com ótimos artistas, como o Rio Rock & Blues Festival, promovido pelo Marcelo Reis da Rock Experience. E poucos dias depois ainda nos apresentamos em outro festival de grande porte como o Barra Blues, abrindo show para o Victor Biglione! Isso tudo com um material de divulgação "ok", com vídeos extraídos de ensaios - acho que minha cara de pau em tanto encher a paciência dos caras contou também! Devo muito a esses caras, nos abriram as portas e nos deram essas oportunidades. Esse apoio para novos artistas é importantíssimo e muito legal.

Em relação aos pubs e bares, sinto uma certa resistência em lugares mais tradicionais com a galera mais nova. Entendo perfeitamente, pois os caras precisam de artistas que levem público, claro, a conta precisa fechar no final do mês. Mas chegará a nossa vez nesses espaços mais tradicionais. Tem vezes que tocamos para menos de dez pessoas, mas todos passam por isso. Apesar disso tudo, a receptividade é sempre muito boa, tanto por quem nos assiste como pelos responsáveis das casas!

Estamos em negociação para tocar mensalmente em uma casa na região de Jacarepaguá e em maio tocaremos no Calabouço, berço dos headbangers na Tijuca! Creio que sejamos os pioneiros do blues a desembarcar por lá! Existe uma negociação para um festival em junho, mas nossos esforços estão voltados para um grande festival fora do Rio de Janeiro que está quase fechado anunciado em julho. Esse provável festival, acredito, será um divisor de águas para a banda, pois será de nível Internacional. Isso me faz pirar um pouco, me pergunto se realmente merecemos tudo isso que está acontecendo em tão pouco tempo.


UM - Vocês já planejam gravar algum material? Claro que a relação público/banda não passa mais pela necessidade física do CD, mas é importante ter um material até para divulgar a banda e apresentar a possíveis contratantes, né?!


LA - Com muita sinceridade, nunca paramos para pensar na hipótese. Foi o que falei anteriormente, a proposta da banda sempre foi algo mais informal, sem maiores pretensões. Mas de repente nos vimos com shows toda semana. Cá entre nós, oficialmente a banda tem um pouco mais de três meses se considerarmos o primeiro show como o marco inicial. Obviamente isso não aconteceu espontaneamente, por obra do acaso, corri atrás de contatos com as casas, pentelhei vários promoters e donos de pubs até conseguir datas. Ainda assim, é tudo muito novo.

Sobre gravar ou não, sempre achei um tanto sem sentido gravar um cover ou uma releitura. Aí vejo os caras citados anteriormente com regravações absurdas, elevando o nível das músicas originais a outro patamar. Por exemplo, mesmo não sendo tão fã da cena blues inglesa - sue me! - o Blue & Lonesome dos Rolling Stones é sensacional! I can't quit baby do Willie Dixon em uma forma extremamente visceral, de perder o fôlego. Talvez, fazer algo do tipo, nem que seja um único single, realmente não seja uma má ideia!


UM - Vocês planejam músicas autorais? Arriscariam-se no mundo do blues em português?


LA - Venho trabalhando de forma bem tranquila em uma nova composição, mas sem nenhuma pressão. Eu acho importantíssimo ter algo 100% nosso, mas vai sair no seu tempo. Em relação ao Blues em português, pode parecer um preconceito bobo, mas eu não acho que a língua portuguesa combine totalmente com o gênero. É toda uma questão de imposição de voz que abrilhanta a coisa quando cantada em inglês: os tons médios, mais nasais, são quase que obrigatórios ao pronunciar as palavras em inglês, e sinto falta disso no português. Sei lá, Cazuza era monstruoso em certas composições e interpretações como em Todo amor que houver nessa vida (regravado até pela Cassia Eller de forma esplendorosa na versão do Acústico MTV). Blues Etílicos e Celso Blues Boy faziam blues em português como poucos, mas particularmente não curto.

Mesmo assim, acredito que é pura e simplesmente uma questão de maturidade, de nos conhecermos melhor e entendermos nossos objetivos. Ainda estamos no processo de descobrimento, nos entrosando durante os shows, tenho certeza que o tempo sanará essas questões e esses desafios.


UM - Para terminar, sei que você é um são-paulino roxo. O que você prefere: ver o São Paulo tricampeão seguido da Libertadores e do Mundial OU tocar em uma jam com Buddy Guy e ainda abrir o show do coroa?


LA - Internacionalmente falando, todo nós sabemos que o SPFC é simplesmente a Instituição mais vencedora e Influente da história do Brasil. Por estar em paz com isto, que o Buddy Guy nos aguarde, pois chegaremos com tudo! (Rs)!


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