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Entrevista Edgard Scandurra

19.04.2018

  ...Aí lá pelo meio da entrevista, vem a pergunta sobre os conflitos que levaram o Ira! à separação em 2007. Sem pestanejar, de forma direta, Edgard Scandurra respondeu na lata: "Vou falar algumas palavras que vão traduzir esse momento: paranoia, soberba, álcool, macumba, cansaço, arrogância e egoísmo". Não é sempre que um músico encara uma entrevista com tanta honestidade, sinceridade e simpatia, virtudes de um cara com personalidade que abrilhanta ainda mais a carreira fantástica e faz dessa uma das melhores entrevistas do Coluna Blues Rock.

    Edgard é fã da cena e da cultura mod, pegou elementos do punk e flutuou pelo pós-punk. É uma das figuras mais importantes do rock brasileiro e, desde a década de 1980, é uma das referências da guitarra. "Eu sempre toquei sem palheta. Já sabia que era diferente tocar como canhoto sem inverter as cordas, então porque facilitar com a palheta?  Meu irmão Marco, meu primeiro professor não usava também. Acho que daí que eu peguei", falou sobre a sua forma incomum de tocar.  

   Ao lado de Nasi, outro personagem com muita história para contar, formou o Ira!, banda paulista que misturou a sonoridade mod do The Who e do The Jam com a rebeldia do punk. Uma música urbana, que atirava contra as rebarbas de um regime militar que ainda fazia uso da censura.  Juntos gravaram discos clássicos, didáticos ao neófito roqueiro, escreveram canções emblemáticas, apresentaram uma postura moderna, uma válvula de escape cultural. O segundo álbum, Vivendo e Não Aprendendo (1986) foi um daqueles divisores de águas, a partir dali a explosão criativa liderada pela dupla Nasi/Scandurra não seria mais apenas um espasmo cultural, um meteoro que passara pela música brasileira. "Vivendo e Não Aprendendo, foi nosso marcador de terreno. Deixamos claro o nosso estilo conceitual, sem concessões: da capa ao encarte, a escolha das cores, nome do disco, ordem, lado A, lado B, cordas em Flores em você, letras mais existencialistas. Uma espécie de despedida da adolescência e entrada no universo adulto. Além desse dado conceitual, foi o disco que nos aproximou mais do público, nos profissionalizou", recordou Edgard.

   Um músico extremamente competente que está no hall dos maiores guitarristas e um compositor de mão cheia. Simpático e extremamente atencioso com o entrevistador, ainda falou sobre as passagens por bandas punks, como Subúrbio e As Mercenárias, pelo Ultraje a Rigor e a parceria com Arnaldo Antunes. Edgard Scandurra passou a limpo sua longa e frutífera trajetória na música em uma conversa imperdível!

 

Ugo Medeiros – Você é um músico com influências claras do mod e do punk. Qual das duas cenas mais te influenciou? Quais bandas você mais ouvia? 


Edgard Scandurra - O mod é meu modo de viver. O punk veio como um movimento renovador e revolucionário na minha vida, aos 15 anos, mostrando uma possibilidade mais simples e direta de fazer rock e de mandar  uma mensagem mais direta, crítica e até cética da sociedade. Os dois somados, sim, me ajudaram a formar minha personalidade, meus princípios e minha música. Mas não posso deixar de lado outras subculturas que me influenciaram muito, como a música eletrônica e o rock progressivo. 


UM – Agora, durante o início dos anos 1980 o new wave chegou matando a pau no Brasil e o pós-punk ganhava força. Em diversas músicas do Ira! escutava-se aquelas linhas bem saturadas de baixo. Esse pós-punk também foi importante na sua formação?  


ES - O pós-punk foi uma maneira de eu me sentir dentro da cena punk, uma vez que no brasil o punk virou praticamente o rock feito na periferia, onde viviam os punks. Eu, apesar de uma vida dura na infância, não me sentia enquadrado naquele perfil. Quando surgem as músicas mais lentas, mais existencialistas, mais ruidosas, eu vi um espaço para as estranhezas que eu fazia na minha guitarra. O pós punk me jogou no centro de uma “bolha” cultural muito rica em São Paulo que ganhava os universitários, os críticos e as casas noturnas. 


UM – Uma das suas primeiras bandas foi o Subúrbio, banda de punk. No início contava com o Régis Tadeu (hoje crítico musical) na bateria. Poderia falar sobre aquela recém-formada cena de punk paulista e a banda em si? 
 

ES - Foi o meu começo com a guitarra elétrica. Aos quinze anos encontrei amigos de escola que me viram em uma festa junina, em um palco improvisado pelos alunos, onde alguns subiam e faziam um som. Aí foram se aproximando de mim, colegas da escola que também tocavam. Veio o Dino no baixo, o Luis Arnaldo Braga na bateria e o Régis nos vocais, que depois iria para a bateria. Todos eles faziam um som muito distante do punk rock, ora mais para o Blues, ora para o Jazz e o improviso. A chegada do disco A Revista Pop Apresenta o Punk Rock em 1977 me transformou em um arauto da cena punk junto aos meus parceiros de banda. Isso gerava um repertório um tanto esquizofrênico: de Jimi Hendrix a Joelho de porco, passando por Sex Pistols a Led Zeppelin, Ultravox e Cream. Quando comecei a compor, aí sim as musicas encontraram um caminho mais contemporâneo ao punk. 


UM – Antes do Ira! Você tocou com o Ultraje a Rigor, uma das minhas bandas de rock nacional favoritas. Como foi o primeiro contato com o Roger? Como foi o período na banda? 


ES - Só uma pequena correção, o Ira! é mais velho do que o ultraje, um ou dois anos. Foi em 1982 ou 83, o Roger me chamou para participar de uma banda que faria covers de rock dos anos 1960, principalmente dos Beatles. A gente tocava nos barezinhos da zona sul, até que em uma festa tive a inspiração de criar esse nome “Ultraje a Rigor”. Acho que minha presença no Ultraje ajudou muito o Roger a revelar seu talento como compositor, porque eu pedia que ele olhasse também as bandas novas e não apenas o que já havia sido feito vinte anos atrás. Foi um período muito divertido, passávamos metade do tempo tocando e a outra dando muita risada com nosso humor ácido e anárquico.  


UM – Você sempre tocou guitarra upside town e sem palheta ou isso mudou com o tempo? É raro ver um guitarrista tocar sem palheta... 


ES - Eu sempre toquei sem palheta. Já sabia que era diferente tocar como canhoto sem inverter as cordas, então porque facilitar com a palheta?  Meu irmão Marco, meu primeiro professor não usava também. Acho que daí que eu peguei. 


UM – Você poderia falar sobre os primórdios do Ira (quando ainda não tinha a exclamação)? O que mais o aproximou do Nasi: futebol (São Paulo) ou a postura “To nem aí do mod/punk”? 


ES - O começo do Ira! era um tempo em que a ditadura ia se dissipando e as palavras podiam ser ditas sem o medo da repressão, apesar de ainda haver censura. Uma vez, fui com um amigo de escola ver no teatro do Masp um documentário: O Punk na Terra do Tupiniquim e lá estavam Regis Tadeu e o Nasi. Ali, nos conhecemos através da conexão musical e política que o punk propunha. Estou falando de 1978/79... Então, em 1980, para uma eliminatória do famoso festival do Colégio Objetivo, o Subúrbio havia sido selecionado e eu me lembrei daquele menino que havia conhecido no Masp, que estudava na mesma escola que eu e que gostava de punk. Então chamei o Nasi para cantar duas músicas minhas. A partir daí, veio o Ira! em 81 e chegamos até onde estamos hoje.  


UM – O primeiro disco Mudança de Comportamento (1985) é muito bom, tem muita coisa boa! O disco abre logo com Longe de tudo que tem pegada punk, assim como Coração. Núcleo Base é um clássico da banda ao melhor estilo mod e Saída vai na mesma linha. Ninguém precisa de guerra tem um groove bem legal. Sonhar com quê? e Ninguém entende um mod fecham o disco extremamente bem! Poderia falar sobre o disco? Como foi entrar no estúdio carregado de composições tão fortes? 


ES - Realmente, só tínhamos balas certeiras em nossas armas quando entramos no estúdio. Tudo muito inspirado, era um momento mágico! Em nove dias gravamos e mixamos esse disco! Mesmo hoje, com os computadores e as facilidades em gravar um trabalho, é um tempo record. Isso tudo porque estávamos afiados e com um repertório maravilhoso que dava até para mais dois discos!  


UMNúcleo base sofreu algum tipo de censura na época? 


ES - Por incrível que pareça, não.  Tive problemas com Gritos na multidão e com outra música bem obscura do Subúrbio, e depois Irá!, chamada Não pague pra ver. Na verdade, não tinham nada demais.  


UM - Vivendo e Não Aprendendo (1986) é bom para caralho! Envelheço na cidade é um clássico do rock nacional, Tanto quanto eu é mod até os ossos, Vitrine viva é foda. Isso sem falar em Nas ruas. Me impressiono pela capacidade criativa da banda. Você considera o melhor disco da banda? Poderia falar sobre o disco? 


ES - Vivendo e Não Aprendendo, foi nosso marcador de terreno. Deixamos claro o nosso estilo conceitual, sem concessões: da capa ao encarte, a escolha das cores, nome do disco, ordem, lado A, lado B, cordas em Flores em você, letras mais existencialistas. Uma espécie de despedida da adolescência e entrada no universo adulto. Além desse dado conceitual, foi o disco que nos aproximou mais do público, nos profissionalizou. Procuramos um empresário de mais respeitabilidade no mercado, tínhamos a WARNER como gravadora e a presença de André Midani, uma agenda de shows importantes por todo o Brasil. Enfim, nos pôs no mapa da música pop brasileira. Visitas às rádios e televisão, críticas em jornais e o mais importante: um disco de ouro! 


UM - Flores em você é super legal, traz arranjos orquestrados, algo impensável para uma banda mod/punk. Quem teve essa ideia? Algum integrante torceu o nariz na época ou vocês chegaram a temer pela incompreensão do fãs acostumados com uma música mais agressiva? 
 

ES - A ideia foi minha e abraçada pelo diretor artístico da gravadora, Liminha, que chamou Jaques Morelembaum para o arranjo baseado nas frases do meu violão. O interessante é que nessa fase éramos muito intransigentes com programas de televisão, saímos antes de uma apresentação no programa do Chacrinha. E mesmo assim, com Flores em Você, tivemos uma abertura de novela global! 
Mas não podemos esquecer que bandas mods usavam cordas em suas musicas. The Jam, The Kinks e Beatles, por exemplo. O nosso público adorou e achou muito menos estranha do que outras baladas como Vivendo e Não Aprendendo. A música inspiradora não está apenas no rock pesado ou acelerado.  


UM – Você tocou bateria n’As Mercenárias? Como foi? 
 

ES - Quando eu era bem criança tinha em mente me tornar um baterista. Assistia aos ensaios do meu irmão e pirava na bateria, caixas, tambores e pratos. Eu assisti a um ensaio d'As Mercenárias, acho que em 1983, e elas já tinham um som vigoroso e revolucionário, porém não tinham baterista. Eu fiquei em um canto, acompanhando com umas colheres de pau sobre a lista telefônica e rolou uma conexão. Consegui uma bateria usada e comecei a tocar e a criar na bateria. Foram três anos na banda como baterista. Eu não cabia em mim de tanta alegria. Foi difícil deixar As Mercenárias para me dedicar apenas ao Ira em 1985. 
 
UM – O seu primeiro disco solo, Amigos Invisíveis (1989), trouxe ideias bem bacanas. Um disco 100% one-man band. Poderia falar sobre o disco? 

 

ES - Eu percebia que os outros rapazes do Ira! queriam participar mais nas composições da banda, levar nossos elementos musicais para a banda. Portanto, vi que havia um espaço para eu concentrar minhas ideias em um novo projeto, onde eu pudesse cantar, tocar bateria, arriscar um piano, um violino, banjo e outros instrumentos. E em 1988 em uma reunião com André Midani  perguntei se havia algum impedimento em eu gravar um disco solo. Ele achou a ideia ótima. Então, me juntei com o produtor Paulo Junqueiro e gravei em duas semanas o Amigos Invisíveis, um dos discos mais importantes da minha carreira. 


UM – Em 2007 o Ira! Se parte ao meio e há uma briga pública com o Nasi. O que houve ali? Foi um desgaste natural por tantos anos de convivência ou foi algo mais pelo controle/gerência da banda? Você ficou puto com o livro A Ira de Nasi


ES - Vou falar algumas palavras que vão traduzir esse momento: paranoia, soberba, álcool, macumba, cansaço, arrogância e egoísmo. O nosso empresário tinha, sim, um forte lado passional com a banda. E-mails geralmente não acabavam bem, mas ele era um cara correto que fazia de tudo pelo sucesso do Ira!.  O problema é que nem sempre uma banda precisa que alguém faça de tudo pelo seu sucesso. É bom sair de cena um pouco, tirar férias e, acima de tudo, manter o padrão estético, buscar novidades e não cair no universo do sucesso fácil de “o que o povo quer ouvir”. Tentei muito parar a banda para umas férias, pediram muito que fizéssemos um disco, uma nova turnê... Deu no que deu. 


UM – Você tocou com Toumani Diabaté, um músico do Mali. Como vocês entraram em contato? 


ES - Eu e Arnaldo Antunes tocamos em um festival no Rio de Janeiro chamado Back to black e tocamos com Toumani. Comentamos com ele sobre uma ideia que tínhamos, eu e Arnaldo, em fazer um disco. Toumani perguntou se podia participar e nos convidou para irmos ao Mali, gravar em seu estúdio.  Foram dez loucos dias na capital Bamako, onde gravamos e vimos músicos incríveis, malineses, participando do nosso disco. Isso abriu portas incríveis para o disco que foi recebido com excelentes críticas por todo o mundo. Toumani é um músico do Mundo. Embaixador da Unesco, quase um presidente cultural do Mali.  Foi maravilhoso. 


UM – Você tocou e gravou diversos discos com o Arnaldo Antunes. Poderia falar sobre a experiência? Não curto muito o som dele, mas é inegável que ele é um dos músicos brasileiros mais originais...  


ES -  Eu gosto muito de tocar com Arnaldo Antunes porque ele e eu temos uma conexão que vem do pós-punk. Desse modo, ele sempre me deixa muito a vontade para tirar meu som em suas musicas, fico sempre solto. Enquanto a banda cuida dos arranjos, eu passo por cima, criando climas e timbres que preenchem as composições. Esse é o nosso modo de trabalhar. Eu tenho liberdade total para criar as minhas guitarras e isso me agrada muito. Além do mais, somos amigos há quase quarenta anos, temos uma liga. 


UM – Em 2015, no Rock In Rio, o Ira! tocou com o Tony Tornado. Um encontro inusitado que acabou sendo sensacional! Poderia falar sobre essa parceria? Nunca pensaram em gravar um disco inteiro com ele? 


ES - Os produtores do palco Sunset nos queriam com alguém do rap. Eu achei que melhor do que alguém do rap, era melhor chamarmos alguém ligado aos tempos pioneiros da black music brasileira. Então chamei o Tony e também o Rappin Hood, como um representante do rap com ligações com o samba.  Foi um arraso! Aprendemos muito mesmo com o “Dom Tornado”. Um disco com Tony tornado seria excelente. agora, precisamos para isso um belo repertório. 


UM – O projeto Ira! Folk foi uma das coisas mais legais. Qual a diferença do disco Acústico MTV para o Ira! Folk? Quem teve essa ideia de rearranjar de forma mais enxuta e simples? 
 

ES - No Acústico íamos com quase dez músicos no palco. Ele estava ligado ao MTV Acústico. O Folk é muito mais despretensioso. Eu, Nasi, meu filho Daniel e o Johny Boy damos conta. 
 

UM – Edgard, muito obrigado pela participação! O Coluna Blues Rock te considera um dos grandes músicos brasileiros e adora o som do Ira! Agora, sei que você vai querer me matar, se você fosse para uma ilha deserta e pudesse levar apenas discos de UMA banda. De qual você levaria: The Who ou The Clash? 
 

ES - The Who sem medo de errar! Um grande abraço!  

 

 

 

 

 

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