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Entrevista Leo Torresini

31.05.2018

    O Coluna Blues Rock ainda era um pequeno blog na antiquada plataforma Blogspot quando entrevistou Leo Torresini pela primeira vez  e, sendo bem sincero, seu editor nota 5 não tinha grandes conhecimentos no blues. Na real, nem no rock, apenas em Pink Floyd e outras bandas bem pontuais. De lá para cá, tanto o site como o guitarrista passaram por mudanças e inevitáveis evoluções. Leo Torresini transcendeu o posto de revelação para tornar-se uma realidade da cena blues/rock carioca.

  No início da sua relação com o instrumento sua principal fonte era a saudosa MTV - sim, crianças, o canal tocava rock! - e, naturalmente, consumiu bastante Van Halen, Cinderella e outros representantes daquele rock considerado "farofa". Isto mudou quando entrou em contato com Big Joe Manfra, referência do blues-rock nacional. "Eu aprendi tudo de blues com ele. Na altura em que fui procurá-lo para ter aulas eu só conhecia o básico: B.B King, Clapton, Stevie Ray Vaughan e Rolling Stones. O Big Joe me pôs para estudar de maneira metódica. Nas aulas meu objetivo era adquirir o fraseado de tiro curto, cortante e incisivo do blues; a ideia era somar isto à técnica mais fluida de ligaduras que eu já tinha", revelou Leo.

      Leo Torresini, atualmente uma das figuras mais requisitadas no circuito de bares e pubs de rock, também rodou e tocou pela Inglaterra e pelo sul dos EUA. Ele falou sobre seu gosto pelo country e a sua admiração pelo inglês Ian Siegal, além de ter explicado a paixão pelo mestre Muddy Waters. "O cara formatou o Chicago Blues no fim dos anos 1940. Não haveria Stones nem Cream sem o Muddy. Aliás, é até difícil pensar no que haveria! O estilo dele é uma justaposição de country blues com o elétrico - algo que só hoje me sinto capaz de tentar incorporar. O fraseado vocal é direto e expressivo sem um grama de gordura", explicou o guitarrista, que é uma verdadeira enciclopédia do blues.  

 

Ugo Medeiros – Te conheço de longa data e sempre brinco contigo porque você se amarra em Cinderella, seu guitarrista é o Eddie Van Halen e você toca um blues irrepreensível, é um dos destaques da cena blueseira carioca. Poderia falar sobre essa sua formação musical antes de se tornar um profissional?

 

Leo Torresini - Obrigado pelo elogio! Eu comecei a tocar guitarra na época da chegada da MTV no Brasil, quando o rock farofa tinha muito do airplay. Nesse período, tive um professor fabuloso, Jô Estrada, que me ensinou muito sobre o gênero e como tocá-lo. Minha maior aspiração era ser capaz de imitar o fraseado do Ace Frehley. Você cisma com o Cinderella porque quando falamos disto pela primeira vez eu os citei, a verdade é que o trio Black Crowes, Guns & Roses e Aerosmith me fez perceber que o blues era a parte mais sincera e expressiva do som dessa geração glam. Dali para o blues elétrico puro foi uma transição de uns três anos.

 

UM – Você tocou um bom tempo ao lado do Big Joe Manfra, acredito que deve ter sido um período importante no início da sua trajetória profional, né?

 

LT - Foi crucial. Eu aprendi tudo de blues com ele. Na altura em que fui procurá-lo para ter aulas eu só conhecia o básico: B.B King, Clapton, Stevie Ray Vaughan e Rolling Stones. O Big Joe me pôs para estudar de maneira metódica. Nas aulas meu objetivo era adquirir o fraseado de tiro curto, cortante e incisivo do blues; a ideia era somar isto à técnica mais fluida de ligaduras que eu já tinha. Além disso, o homem tem uma coleção de álbuns sensacional e vastíssimo conhecimento sobre o gênero, a coisa transcendeu. Há até hoje uma baita afinidade musical e uma grande admiração pelo estilo dele de tocar guitarra. Ainda bem que o Manfra pôs o telefone de contato na contracapa do seu primeiro CD!

Na banda dele fiz vários festivais importantes, tocamos nas melhores casas que abriam portas para o gênero no eixo Rio-São Paulo, gravamos o primeiro DVD de blues do país, aparecemos em cadeia nacional na Globo e abrimos um show memorável do John Mayall no finado Canecão. Também tocamos no palco principal do Festival de Rio das Ostras, um baita salto para um garoto que tocava numa banda chamada Seu Cuca. Se o Manfra ligar, eu corro para a gente fazer um som, sempre foi um prazer tocar com ele. Fomos ao show do Ozzy nesse domingo e sempre me apresento no Beer Joe Rock Bar.

 

UM – Você passou um tempo na Inglaterra e nos EUA. Quanto no total e quais foram as cidades? Na Louisiana você fez uma banda bem bacana - você me mostrou uns vídeos - com o Edu Strada e o Seth Roach, um cara local. Vocês tocaram bastante pela região. A pergunta é: o povo local teve alguma atitude chauvinista, tipo “porra, banda de rock brasileira? Tá de sacanagem?!” ou a recepção foi tranquila? Conte toda essa experiência.

 

LT - Passei seis meses na Inglaterra e três nos EUA. Cheguei na grande ilha com a cabeça confusa e disposto a viver por lá. Com cinco semanas mudei o foco da coisa e passei a curtir a minha estada (pubs, lojas de vinil e jams). Em Brighton encontrei o Will Johns, ele me deu uma moral: dei canjas em alguns de seus shows e trabalhei de roadie em outros. O Will é um guitarrista e vocalista de mão cheia, filho do lendário engenheiro de som Andy Johns, sobrinho do Eric Clapton, e tem uma banda cover de Cream. Era um barato estar ao redor dele e do baixista Malcom Bruce (filho do Jack Bruce). Fiz um som com eles em um festival chamado Chuffest em Dover em que tocamos uma 'Politician’ que até hoje ecoa na minha cabeça.

Em Brighton rolaram também umas apresentações em um pub chamado The Ranelagh e uma canja no clássico Concorde. Passamos por Chelmsford, Liverpool, Hove e outros cantos. A história era sempre a mesma: os caras me chamavam para fazer a jam final, depois de tocados os clássicos do Cream.

Quando a grana apertou, fui para os EUA me encontrar com o Seth Roach, um cara de formação classic rock que eu conheci no Brasil. Depois de uns shows em bares, consideramos a hipótese de achar um cantor mais porrada. Sugeri o nome do Edu Strada, com quem eu havia tocado em um baita show no dia mundial do rock com a Woodstock Band, ele estava na Flórida paradão. Os outros caras da banda torceram o nariz na hora, algo que considerei natural, daí mostrei uma gravação do Edu e eles quase caíram para trás. Depois disso não houve nenhum problema com a nossa nacionalidade, acho até que ajudou um bocado na divulgação, tanto que batizamos a banda de Rio D’Orleans. Fizemos uns três shows sensacionais e outros bem loucos. Passamos por Crowley, Opelousas, Lafayette e acabamos nas ruas de New Orleans como buskers [N.E: artistas de rua].

Eu não sei quantos shows fiz ao todo nesses três meses, talvez mais de vinte. O nosso auge foi a oferta para gravar um EP no estúdio que fora do produtor J.D Miller, em Crowley. A coisa não rolou porque o Seth - que era o principal compositor - não concordou com o trato oferecido. Eu fiquei meio besta com aquilo, porque entrar na sala onde gravaram nomes como Buddy Guy, Slim Harpo, Lazy Lester, Lightnin’ Slim, Sonny Landreth, Silas Hogan e outros caras era uma coisa simplesmente irresistível.

 

UM – Você toca bastante pelo circuito de bares no Rio de Janeiro. Às vezes tendo a achar que o blues/rock no Rio de Janeiro está morto, outras vezes declaro que está melhorando. Não temos uma casa média, digamos, no eixo Barra/Zonal Sul que toque esse tipo de som. Uma casa que tenha capacidade para 300 pessoas e possa trazer nomes medianos (midiaticamente falando, claro) um Eric Gales, um Coco Montoya ou Phil Wiggins. Ao mesmo tempo, vejo um circuito de pequenos bares tentando fazer um “barulhinho”. Você, como músico, o que acha?

 

LT - Demanda e oferta.

 

UM – Cara, você é uma enciclopédia do blues. Você tinha um blog de downloads fantástico, baixei muita coisa lá, uns caras do arco da velha que nunca ouvi falar. Primeiramente, você poderia fazer um levantamento do site, um número aproximado da quantidade de arquivos? Poderia fazer uma lista dos bluesmen mais underground?

 

LT - Eu fazia pirataria. O site foi tirado do ar por conta de uma reclamação do Bruce Iglauer, dono da Alligator, junto ao Google. O cara estava certíssimo. Chamava-se Mississipi Moan e disponibilizava uns 1500 álbuns para download. A coisa começou como uma forma de registrar e manter a pesquisa que eu vinha fazendo - lembro desses anos como o período em que eu fazia um esforço para não soar como o Stevie Ray - o que de fato era uma insensatez. A lista de cabeça eu não, posso mandar um rascunho depois. Mas lembro que era baseada na seleção de bluesmen contida no livro The Rough Guide To The Blues do Nigel Williamson, na aba de discos similares do site Allmusic e em um livrinho de ilustrações do Robert Crumb. Eu faria algo parecido novamente - com acesso apenas para convidados - caso a velocidade de upload da nossa internet não fosse patética.

 

UM – Você é um cara apaixonado por Muddy Waters. Poderia falar um pouco sobre o legado no blues e o quanto ele te influenciou?

 

LT - Poder de síntese e verdade. O cara formatou o Chicago Blues no fim dos anos 1940. Não haveria Stones nem Cream sem o Muddy. Aliás, é até difícil pensar no que haveria! O estilo dele é uma justaposição de country blues com o elétrico - algo que só hoje me sinto capaz de tentar incorporar. O fraseado vocal é direto e expressivo sem um grama de gordura. A discografia é fenomenal. De Stovall Plantation aos hits da Chess; do controverso Electric Mud ao Hard Again com o Johnny Winter, é só pancada. Tem o Sings Big Bill Broonzy que é emocionante e aquele ao vivo no Festival de Newport que é impecável.

 

UM – Nos seus shows há sempre espaço para algumas versões country. Você poderia falar sobre o country na sua vida e quais os artistas preferidos? Você sempre faz uma versão meio country de Back to Black do ACDC super legal!

 

LT - Eu gosto do jeito outlaw country de contar histórias e de sua  filosofia, mas conheço muito pouco o gênero. A versão de Back In Black rola porque sou um barítono e o único jeito de alguém com esta voz tocar AC/DC - um pedido constante em bares - é trazendo para o country. A inspiração eu tirei do Hayseed Dixie. Mas espera aí, o Axl Rose conseguiu!

 

UM – Já conversamos sobre isso e até fizemos uma transmissão ao vivo para o Coluna Blues Rock. Você coloca o Ian Siegal como o maior nome do blues na atualidade, abaixo apenas do Buddy Guy, que é o último daquela geração. Por quê?

 

LT - Você sabe, Ugo: a linguagem coloquial tende ao exagero por natureza. Deixa eu explicar o que quis dizer. Blues tem tudo a ver com tradição e expressão pessoal. Para tocá-lo bem o cara precisa ser tão bom artista quanto artífice. O Ian me impressiona demais por isso, o Buddy também. No mais, música é um assunto subjetivo para cacete, merece escrutínio pormenorizado e eu não quero chatear a minha mãe nem você. Ao menos não nessa entrevista!

 

UM – Quando você toca em um festival um pouco maior, podendo fazer um som mais pesado e mais alto, qual guitarra você prefere. Por quê? Você é um guitarrista maluco por pedais/pedaleiras ou prefere um som mais orgânico?

 

LT - Não gasto tempo pesquisando sobre pedais embora considere alguns essenciais. Na real, acho que cerveja na dose certa - ARTESANAL, atenção contratantes! - é mais importante para o som de guitarra do que uma pedaleira transada. Só uso amplificadores valvulados - porque os agudos têm graves e os graves têm agudos naturais.

Ainda não descobri qual guitarra acho mais legal. O certo é que o planeta Terra só pode continuar sua saga enquanto a Strato e a Les Paul existirem. Vale observar que muitos caras tiram altos sons com uma cadeia de processamento mais elaborada. Só que para cada um desses, há outros vinte cientistas malucos cujos timbres nunca me impressionaram.

 

PS- Tube Screamer, Wha Wha e tremolo constituem uma casta superior no mundo dos pedais.

 

UM – The Hustlers é uma das minhas preferidas aqui do Rio de Janeiro. Sabe disso, não falo por puxa-saquismo. Você poderia falar sobre a banda? O Tony Lupidi é um grandíssimo mandolin player, como você chegou até ele? Qual costuma ser o setlist?

 

LT - Tudo com relação aos Hustlers aconteceu sem querer. A banda se inventou no palco, sob a minha batuta, com a inestimável colaboração do Leonardo Vieira e do Tony Lupidi. Por um período de dois anos fizemos uma residência muito bem sucedida no extinto Café 247. Chegamos até a nos tornar um quarteto por alguns meses com a entrada do pianista Wally Shannon. Cheguei ao Leo Vieira pela internet uns muitos anos antes daquele período, ele é um guitarrista visceral e com uma fluência rock and roll estupefaciente. O Tony eu encontrei porque ele teve um rolo uma cantora inglesa, Jojo Keable, que era amiga mútua e tocou umas gigs comigo lá pelos idos de 2008/2009.

Eu e o Tony seguimos por aí fazendo apresentações divertidas. Adoro o mandolin dele, e acho estranho quando canto algo do nosso repertório sem suas harmonias vocais. O Set List se assentava em duas idéias: músicas que ficavam bem na minha voz e no meu violão e que fossem na direção do que eu estava ouvindo, blues/country rock e rock.

O trio funcionou muito bem e tivemos a honra de receber figuras históricas da nossa cena musical. Para falar só dos guitarristas: Otávio Rocha, Álamo Leal, Big Joe Manfra, Greg Wilson, Cecelo Frony, Maurício Sahady e vários outros feras aos quais peço desculpas adiantadamente pela não menção.

 

UM - Cara, você é um rato de palco (rs), está sempre tocando com grandes músicos. Alguma outra passagem que eu tenha esquecido?

 

LT - A tour de dez anos do Beale Street! Foi uma honra fazê-la e tocar no Mississipi Delta Blues Festival em Caxias do Sul e pela Argentina. O Cesar Lago é um GRANDE parceiro, eu queria registrar isso. Além disso, os recentes shows com os afro-americanos Bob Stroger e J.J. Jackson aqui no Mississipi Delta Blues Bar no Rio de Janeiro. Há também a viagem pelos EUA como produtor da tour da Bex Marshall. Mas isso tudo pode ser material para outra entrevista, muita coisa para falar! Muito obrigado, meu caro.

 

 

 

 

 

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