Bate-papo com Ari Frello


Motörhead, ZZ Top, Grand Funk Railroad e Kadavar, todos grandes power trios que soavam com bastante peso apesar das formações enxutas. Seguindo esse caminho, quase em uma missão musical, Ari Frello incorpora o espírito one-man band e faz um blues potente com bastante slide e uma percussão bem marcada. "Na real, a minha primeira influência foi o Son House e a dupla Sonny Terry & Brownie McGhee, não têm nada a ver com one-man band, mas no começo eu queria fazer algo que remetesse ao delta com a cozinha one-man band, com guitarra, gaita meia-lua e bumbo", explicou.

Amante do delta blues, com arpejos mais delicados e estruturas mais simples - que sempre enganam os neófito do estilo, diga-se! - Ari Frello já lançou quatro trabalhos, entre EPs e álbuns completos, hora com canções em português, hora em inglês. "Acho que tem público para os dois. Certamente é possível, mas talvez não fique tão redondinha que nem a dos artistas que já estão aí na estrada há mais tempo compondo em português. Sabe quando a gente tá aprendendo alguma língua e ouve alguém dizendo que é muito importante pensar naquela língua? Compor segue essa ideia também", confessou Ari sobre essa variação de idioma em seu repertório.

O músico, entre uma apresentação e outra, é um frequentador assíduo dos estúdios e aos poucos dá formas ao novo disco. Ainda que sem data para finalizar e lançar, o bluesman falou um pouco sobre o futuro projeto. "Por hora eu estou trabalhando no meu quinto trabalho que é mais um EP no segmento one-man band, já lancei duas músicas e pretendo lançar outras em breve. Simultaneamente, eu estou trabalhando em um álbum autoral para o projeto Ari Frello Electric Blues Experience. É uma vibe blues rock 1960/70 inspirado em álbuns como o Electric Mud e outros. Esse é um trampo com banda", revelou.

Ari Frello é original e não tem medo de tocar um estilo sem qualquer incentivo pelas grandes mídias. E justamente por isso sua música fica ainda mais robusta e criativa. O músico é mais um de uma longa lista de bons talentos em busca de um merecido espaço.


Ugo Medeiros – Te conheci através de um vídeo no youtube em que você ensina alguns arpejos de delta blues com afinação aberta em Ré. Você é um cara maluco pelo delta blues, acústico, com mais simplicidade, certo? Poderia explicar aos nossos leitores o que diferencia o delta blues das outras variações do estilo?


Ari Frello - Explicando de uma maneira bem simplificada, ao meu ver o delta blues lembra a música brasileira mais raiz. Às vezes se assemelha com o caipira, com o repente, com algumas cantigas afro-brasileiras que raramente tocam hoje em dia. Dependendo do artista, faz-se uma canção mais dolorida, com trocadilhos ou com metáforas. Toda a musicalidade raiz é forte candidata a anteceder outros ritmos e o delta blues para muitos é o pai de todos os ritmos. Até mesmo as afinações da viola aqui chamadas de Paraguaçu e Cebolão, lá eles chamam de Ré Aberto e Sol Aberto, justamente o famoso "open" seguido da nota: open G, open D, open E, etc.


UM – O delta blues tem muitas canções em afinação aberta, você poderia explicar o que é essa afinação? Ela facilita/possibilita algo de diferente?


AF - Nós chamamos de afinações abertas aquelas que naturalmente proferem uma nota no violão, Ressonador, Guitarra etc. Eu poderia dizer que ela é bem interessante para tocar slide, desenvolver algumas harmonias diferentes e tem a sacada dos harmônicos que ficam muito bonitos nessas afinações. Não é melhor nem pior, é uma parada que se você se apaixonar, vai acabar no mínimo comprando uma outra guitarra só para fazer um som também em afinação aberta.


UM – Você é um artista que incorpora o one-man band, ou seja, você toca violão, canta, faz as percussões e ainda faz alguma gaita. Quais são os artistas desse estilo que você mais gosta, os que mais te influenciaram?


AF - Às vezes eu ouço uns caras que não têm tanto a ver com o meu som, é mais uma questão de gostar do trabalho dos caras. O Último trabalho que eu ouvi foi do Steve Hill, um canadense que manda muito bem em seu projeto one-man band em uma pegada mais rock. Existe um produtor/guitarrista chamado Blues Saraceno que não lançou necessariamente trabalhos one-man band, mas há algumas músicas dele com bumbo e caixa bem marcada. Eu chamo de one-man band conceitual, são sons muito maneiros que certamente dariam para adaptar em uma pegada mais one-man band com uma vertente mais rock. Mas eu ouvi um pouco do australiano Juzzie Smith e do Dollar Bill, que é britânico se eu não me engano. Na real, a minha primeira influência foi o Son House e a dupla Sonny Terry & Brownie McGhee, não têm nada a ver com one-man band, mas no começo eu queria fazer algo que remetesse ao delta com a cozinha one-man band, com guitarra, gaita-meia lua e bumbo.


UM – O seu primeiro EP Pra Onde Eu For (2012) e o seu disco No Caminho (2015) são totalmente em português. Você tem convicção de que o blues não perde no nosso idioma, certo? Quando você apresenta essas canções, qual a reação do público?


AF - Acho que tem público para os dois. Certamente é possível, mas talvez não fique tão redondinha que nem a dos artistas que já estão aí na estrada há mais tempo compondo em português. Sabe quando a gente tá aprendendo alguma língua e ouve alguém dizendo que é muito importante pensar naquela língua? Compor segue essa ideia também.

O meu primeiro EP foi acontecendo meio que por acaso, tem alguma coisa em português, alguma em inglês. Muita gente deu pitaco e não ficou do jeito que eu queria. Do segundo trabalho em diante eu passei a utilizar um método de produção, de começar a pensar nas palavras chaves para compor as músicas até o processo final. Mas muita gente gosta desse trabalho devido à primeira canção, Pra onde eu for. E ele teve participações muito legais do Big Chico e Gipsy Carns, um americano slider muito talentoso. Enfim, foi um aprendizado.

Já o terceiro foi planejado para sair todo em português e, esse sim, saiu do jeito que eu queria. A galera do folk me conheceu e eu eu tive uma divulgação diferente do segundo. Só senti um pouco de falta do apoio das rádios, pois eu tive um grande apoio delas em meu segundo álbum. Falarei sobre isso na próxima pergunta.


UM – Já o seu disco A Simple Man Until the End é todo inglês. Poderia falar sobre as diferenças entre este em inglês e os outros em português?


AF - O meu segundo trabalho eu concluí as gravações, prensei algumas cópias e me mudei para o Rio. Chegando aqui eu não conhecia ninguém, então parti para as ruas, fiz muito som e vendi muitos CD’s na Praça XV, mas o primeiro lugar que eu toquei foi na Travessa do ouvidor. Eu vivi ótimas histórias naquele lugar. Ao mesmo tempo que eu fazia som nas ruas, fui atrás para divulgar meu trabalho e uma das ideias foi apresentá-lo para algumas rádios. Foi uma experiência bem positiva, coisa que não se repetiu com o terceiro, que por sua vez era em português. Eu pensei que por ser gravado na língua nativa eu conseguiria entrar em novas áreas, mas não foi isso que aconteceu. Mas, sinceramente, eu sou uma pessoa bem agradecida às rádios e às web rádios nacionais e de fora. Os sites de streaming são legais, mas acho que as preferências de um radialista proporciona ao ouvinte uma experiência bem diferente. Conheci muitos trabalhos de qualidade assim, ouvindo rádio de blues da Alemanha, da Austrália, África do sul, enfim, vale à pena.


UM – Vi um vídeo seu nas redes sociais com uma música nova para um futuro disco. Qual o nome da música? Já tem previsão de como será o disco? Português ou inglês?


AF - Por hora eu estou trabalhando no meu quinto trabalho que é mais um EP no segmento one-man band, já lancei duas músicas e pretendo lançar outras em breve. Veja aí:


Simultaneamente, eu estou trabalhando em um álbum autoral em para o projeto Ari Frello Electric Blues Experience. É uma vibe blues rock 1960/70 inspirado em álbuns como o Electric Mud e outros. Esse é um trampo com banda. Na real, se pudesse eu gravaria toda semana, gosto muito de gravar, só me falta o tempo. Adoro compor, adoro gravar, adoro estar em estúdio.


UM – Em uma gravação você toca banjo. Tenho um amigo que diz que o piano dá o colorido no blues. Na sua opinião o que o banjo acrescenta no blues?


AF - Eu adoro colocar esses instrumentos diferentes em meus projetos. E de uns anos para cá os instrumentos acústicos estão voltando a tomar um bom espaço. Ultimamente eu tenho visto mais músicos profissionais e amadores gravando vídeos simples com instrumentos que, talvez, há cinco anos não fossem tão comum de se ver. E eu acho que certamente é um diferencial, por isso desse retorno.


UM – Você toca slide, quem são os seus mestres no slide guitar?


AF - Gosto bastante do trabalho do Kelly Joe Phelp's e do Duanne Allman. Mas eu comecei ouvindo caras das videoaulas que encontrávamos nas lojas de música, como Otávio Rocha e Marcos Ottaviano. Na real, a maioria dos caras da minha geração começaram assim, o problema é essa necessidade de sempre relacionar suas raízes musicais com artistas de fora. Quando eu queria ouvir algum som de fora eu pesquisava no site Blues Brothers e o Planet Dobro. Quando conseguia alguma grana eu ia nas lojas de CDs para ver se encontrava algum trabalho com slide, mas realmente o que eu encontrava eram os lançamentos que mais vendiam da galera contemporânea daquela época. Para não mentir, o que eu consegui comprar foram dois CDs de uma dupla chamada Darrell & Mansfield, que mandavam uma gaita e um violão dobro em uma vibe meio delta, meio spiritual songs. E também pintava alguns CDs de revistas que chegavam no eixo Rio/São Paulo, algumas coletâneas que tinham, de fato, algum som com slide de algum artista de fora.




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