Entrevista Eric Assmar

01.07.2020

    Ninguém aguenta mais a quarentena, todos trancafiados em suas residências, muitos perdendo os respectivos empregos, sem opções de entretenimento. Mas se teve algo de positivo, ao menos para este editor, foi a descoberta de diversos artistas espalhados por todo o Brasil, e nesta leva de talentosos artistas está o baiano Eric Assmar.

    Filho do bluesman primordial da Bahia, Álvaro Assmar, Eric cresceu rodeado pela boa música e hoje mostra todo o seu potencial. "Creio que esse ambiente ao meu redor tenha servido como um estímulo enorme para que eu me tornasse músico de blues. Desenvolvi uma paixão intensa por essa música ainda quando criança, antes mesmo de começar a tocar a guitarra", contou Eric.

   O guitarrista já lançou dois ótimos discos, Eric Assmar Trio e Morning, mas também se destaca em uma vida acadêmica ligada ao blues, tanto no mestrado como no doutorado. "As pesquisas foram iniciativas tomadas exatamente com o intuito de unir a minha vida profissional cotidiana à pesquisa acadêmica, de modo a dar alguma contribuição nas escassas pesquisas que envolvem o blues no âmbito acadêmico brasileiro", explicou o baiano.   

 

Ugo Medeiros – Não acredito em DNA musical, caso contrário tantos filhos de famosos carregariam os talentos dos pais. Agora, você é a exceção à regra, pois é filho de um grande blueseiro aí da Bahia, Álvaro Assmar, e afilhado do André Christovam, o primeiro bluesman brasileiro. Claro que o seu talento veio com muita luta e persistência, mas como é crescer tendo essas referências musicais?

 

Eric Assmar - Obrigado pelas palavras gentis, meu caro. Eu costumo dizer que sou um cara de sorte por ter crescido em um ambiente rodeado de blues e de música, de um modo geral. Meu pai sempre me incentivou bastante e fez questão de dividir o amor pela música comigo e com o meu irmão, desde bem pequenos. E o meu padrinho André Christovam foi uma figura presente em minha vida desde a infância, em meus primeiros passos como músico, sendo sempre um sujeito de uma enorme generosidade. Creio que esse ambiente ao meu redor tenha servido como um estímulo enorme para que eu me tornasse músico de blues. Desenvolvi uma paixão intensa por essa música ainda quando criança, antes mesmo de começar a tocar a guitarra. E, já tocando, ao longo de minha adolescência tive o privilégio de tocar ao lado deles, o que foi um enorme aprendizado. Sou suspeito para falar, mas são dois artistas inspiradores, de importância histórica enorme, que realmente pavimentaram uma estrada no blues brasileiro.

 

UM – Poderia falar um pouco do legado que o seu pai deixou no blues, sobretudo em Salvador? Aliás, como é a cena de blues em Salvador?

 

EA - Ele foi o pioneiro e é certamente a principal referência do blues da Bahia perante o país. Começou sua carreira como músico de rock (banda Cabo de Guerra), muito influenciado por nomes como Ritchie Blackmore, mas como sempre foi um apaixonado pelo blues, acabou assumindo uma carreira como bluesman no fim da década de 1980, com o grupo Blues Anônimo. No início dos anos 1990, com a dissolução do grupo, Álvaro começou sua carreira solo e, ao longo dos anos, lançou sete CDs e dois DVDs. Tive a felicidade de acompanhar de perto boa parte dessa trajetória. Circulamos bastante juntos, com shows em diversos locais do país. Além da atuação como artista, Álvaro também idealizou e produziu o primeiro festival de blues realizado em teatro no Brasil, que foi o Wednesday Blues (1999-2003). Nomes como o próprio André Christovam, Blues Etílicos, Big Allanbik, Solon Fishbone, Lancaster, Blue Jeans e Kenny Brown estiveram aqui em Salvador durante esses anos, nesse projeto que inseriu a Bahia no circuito nacional do blues, inclusive com coberturas ao vivo da TVE Bahia (emissora de televisão pública do estado). Vocês podem encontrar vídeos dessas exibições do festival no YouTube.

 

É importante citar também a atuação de Álvaro como radialista, sobretudo na idealização do programa Educadora Blues (Rádio Educadora FM Bahia), que está no ar desde 2003. Desde janeiro de 2018 assumi a produção e apresentação do programa, que oferece semanalmente lançamentos de blues do Brasil e do mundo através de uma rádio pública. Uma iniciativa poderosa no sentido de estimular uma cultura de se ouvir artistas de blues aqui no nosso estado, se alinhando à produção contemporânea do gênero. Pode ser ouvido de toda a Bahia, pelo rádio, mas também de qualquer parte do mundo, pela transmissão online.

 

Sobre a cena em Salvador, Álvaro foi um importante aglutinador, um cara que incentivou muita gente a desenvolver uma carreira no blues e sempre buscou abrir espaço para quem estava chegando. Hoje vivemos um cenário em que temos um número pequeno de artistas, sem a presença de uma casa de blues ou festival de blues. Vejo iniciativas transitórias, mas percebo que os músicos que atuam, de maneira geral, estão sempre buscando espaços para tocar, algo que vejo também em diversos locais do país. O blues é um gênero musical de nicho, mas eu costumo perceber um público ávido por esse tipo de música, talvez por serem carentes de ouvi-lo com frequência.

 

UM – O seu pai aceitou com naturalidade sua decisão de seguir na música, sendo um profissional?

 

EA - Com toda certeza. Ele e a minha mãe, Guiomar, foram grandes incentivadores desde o princípio. Tenho muita sorte de ter crescido nesse ambiente, com essas duas pessoas incríveis, que são referências de ser humano pra mim. Tenho uma gratidão que vai além dessa vida.

 

UM – Você tem dois discos bem legais no Spotify. Comecemos pelo início, fale sobre Eric Assmar Trio (2012)...

 

EA - Comecei as atividades com o Eric Assmar Trio em 2009. Esse primeiro álbum foi o fruto dessa primeira leva de composições, que fiz nos primeiros anos do grupo. Produzi esse trabalho ao lado do meu pai e a minha ideia era a de trazer uma atmosfera de power trio de blues/rock, ao vivo dentro do estúdio, sem muitos overdubs, de uma maneira mais “crua” mesmo. Gravamos praticamente em um fim de semana. Eu, Rafael Zumaeta (baixo) e Thiago Gomes (bateria). É um álbum bem com essa característica do power trio, muito inspirado em Hendrix, Cream, Gov’t Mule, com pouquíssimos overdubs. Foi um trabalho muito importante pra mim, me abriu muitas portas e foi a minha estreia assinando todas as composições de um álbum. Foi um trabalho feito com muita sinceridade.

 

UM – Em Morning escutei um Eric mais maduro, não necessariamente com solos grandiosos, pensando mais no TODO... Concorda?

 

EA - Com toda certeza! No Morning eu já estava com a cabeça mais inclinada a trabalhar mais minuciosamente a produção em estúdio, com mais overdubs e outros elementos. Além do que, é um disco mais centrado em canções. As composições de um modo geral incorporam essa referência da canção, flertando muito com soul e algumas vertentes da música pop, embora o blues seja a espinha dorsal do trabalho. Todas as composições são de minha autoria e também foi um trabalho em que eu e meu pai assinamos a produção juntos, gravando o power trio em estúdio durante um fim de semana e finalizando overdubs posteriormente. Nesse trabalho, além de Rafael Zumaeta, contei com Thiago Brandão na bateria, nessa que já é a formação do Trio desde 2013. Importante destacar a bela participação do grande amigo organista Jelber Oliveira em duas das faixas.

 

UM – Sempre te via tocando um resonator de metal LINDO! Para minha surpresa, você me disse que é nacional! Poderia falar um pouco do instrumento? Você costuma usá-lo nos shows ou apenas em apresentações mais intimistas?

 

EA - Sim! É da marca Delta Guitars, de Campinas, conduzida pelo querido Alexandre Faitarone. Nos conhecemos em 2015, quando eu estava fazendo show no SESC na cidade com o meu pai. Alexandre esteve lá e gentilmente emprestou seus resonators para que fizéssemos um set acústico no show, com a participação do querido amigo Théo Werneck. Três resonators no palco! Foi um momento memorável! Pouco tempo depois, meu pai adquiriu um resonator da Delta e ficou com ele até o fim de sua vida (ele faleceu em dezembro de 2017). Esse é exatamente o instrumento que tenho comigo. Som incrível, construção impecável, não deve nada a nenhum equivalente estrangeiro. Uso mais para gravações e alguns shows mais especiais. Pelo valor sentimental inestimável, não costumo colocá-lo na estrada.

 

UM – Acho fantástico o fato de você ser um músico do blues e, também, um acadêmico. Você é mestre e doutor e sempre tendo o blues como objeto de pesquisa! Poderia falar sobre as duas pesquisas?

 

EA - Obrigado! As pesquisas foram iniciativas tomadas exatamente com o intuito de unir a minha vida profissional cotidiana à pesquisa acadêmica, de modo a dar alguma contribuição nas escassas pesquisas que envolvem o blues no âmbito acadêmico brasileiro. A pesquisa de mestrado trata sobre a prática do blues na cidade de Salvador, identificando perspectivas de discurso dos artistas locais e retraçando esse percurso histórico a partir de entrevistas com 13 participantes. Me posiciono como participante nessa pesquisa, que é ligada à área da Etnomusicologia. A pesquisa de doutorado, que concluí no fim do ano passado, é na área da Educação Musical e trata sobre o ensino da guitarra blues no Brasil, partindo de uma revisão de materiais didáticos publicados (livros, cursos online e videoaulas) para entender perspectivas metodológicas da guitarra blues ensinada aqui no país, a partir desses conteúdos pesquisados.

 

UM – Você um guitarrista que gosta de uma guitarra mais limpa ou gosta de usar bastante efeitos no som?

 

EA - Gosto de uma guitarra limpa com uma leve saturação (Overdrive). Em muitas das ocasiões em que toco, em boa parte do tempo estou usando apenas uma guitarra com o som do amplificador acrescido de um overdrive, mas eventualmente também utilizo alguns efeitos, como delay, Leslie (Rotary speaker) e wah wah.

 

UM – Os músicos de blues no Brasil já estão de saco cheio desta pergunta, mas vamos lá: letras em português ou inglês?

 

EA - Eu gosto de deixar que a ideia fale por si. Se for uma ideia em português ou inglês, que assim seja! Creio que escrever em português seja mais desafiante no blues, por conta da sonoridade mais familiar aos nossos ouvidos ser escrita na língua inglesa, mas acho um desafio interessante, também. Temos boas letras em português no blues brasileiro. Mandinga, de André Christovam, é um álbum excelente todo escrito em português. O próprio Álvaro Assmar tem belas letras, como Rota suicida e Pra sempre em minha vida.

 

Penso que o mais importante seja você ser sincero consigo mesmo e contar a sua história, escrever aquilo que tá no seu coração. Em um gênero como o blues, não dá pra mentir. Você precisa ser sincero, do contrário a música não “convence” (rs). Gosto muito de compor e entendo essa como uma parte fundamental do meu trabalho. Sinto que a minha relação com a música fica incompleta se eu não puder contar a minha história. Quero ter saúde e inspiração para compor até o fim da vida.

 

UM – Planos para um novo disco?

 

EA - Com certeza! Tenho escrito e gravado muita coisa nessa quarentena. Estou trabalhando as "prés" do meu terceiro álbum. Muito em breve espero poder compartilhar essas canções com vocês!

 

UM – Voltando ao resonator, você toca o blues acústico com maestria! Já pensou em gravar um disco inteiramente acústico?

 

EA - Muito obrigado! Penso sim, bastante! Eu sou um apaixonado pelo delta blues e regularmente faço shows de blues em formato acústico. É um universo em que me sinto muito à vontade e abre outras possibilidades de expressão. Tanto com o violão, quanto com o resonator e o slide. Um disco acústico certamente é algo que ainda quero fazer na carreira!

 

UM – Você também dá aulas de guitarra online e, ocasionalmente, sobre a história do blues. Apresente ambos os projetos...

 

EA - Sim! Eu já dou aulas de guitarra blues há 15 anos, na verdade, porém nos últimos 4 anos interrompi as atividades como professor por conta da minha agenda profissional cheia como músico, doutorando (até o fim do ano passado), produtor do programa Educadora Blues e produtor musical/executivo da minha carreira. Com o fim do doutorado, comecei a retomar essas atividades aos poucos, pois tenho um grande prazer em lecionar. Com a pandemia, intensifiquei a atuação no formato online. São aulas individuais, dedicadas à guitarra blues e/ou à guitarra rock, bem como à técnica do slide. Desenvolvo os conteúdos de acordo com a necessidade e demanda de cada aluno. Para minha felicidade, tenho sido muito requisitado por excelentes guitarristas. Pessoas muito talentosas e dedicadas estudando comigo. Isso tem sido muito gratificante.

 

Sobre a palestra musical História do Blues: do Mississippi ao Rio Vermelho, é um formato de evento que eu vinha apresentando em ocasiões corporativas desde o ano passado. Recentemente fiz pela primeira vez no formato online e teve uma adesão muito boa! É um bate-papo em que vou contando aspectos dessa trajetória do blues, desde suas origens no Delta, até sua chegada no Brasil e especificamente em Salvador (daí a referência ao Rio Vermelho, bairro famoso da boemia soteropolitana). Ao longo de todo o papo, vou tocando canções inerentes a cada momento dessa história, em um evento bem interativo e que qualquer fã de blues ou pessoa curiosa por conhecer um pouco desse universo pode participar. Não é algo dirigido exclusivamente para músicos. Em breve, farei uma segunda edição dessa palestra online e devo anunciar nas redes sociais!

 

 

 

 

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