Entrevista Bruno Gallo


Por Ellen Caroline


Goiás é um estado com tradição no rock e, felizmente, a cena ganha cada vez mais novos representantes, alguns até com reverberação nacional. E um desses representantes é Bruno Gallo, membro fundador da excelente banda The Galo Power e também à frente de outros projetos musicais que fortalecem o rock goiano. “(...) ajudei a construir uma produtora de eventos alternativos, a Produtora Galo Véio, que já conseguiu neste pouco tempo trazer algumas das bandas novas e até algumas com mais currículo para Jataí”, explicou Bruno a respeito de sua incansável atividade musical. Bruno é guitarrista, vocalista e compositor de mão cheia, e tais predicados o renderam diversos prêmios. “O IFIDEVIDULAR foi muito bacana, pois contou com a produção do nosso primeiro videoclipe de verdade, da música Murderer (Waterland), e envolveu toda uma turma do curso de Cinema da UEG”, contou Gallo. Sua obra é pautada em uma sonoridade bem peculiar que evoca a essência da boa psicodelia e a velha fórmula do rock clássico dos anos sessenta e setenta. “Ouvir David Bowie, The Who, Cream e afins foi a abertura de um portal para buscar e conhecer mais ainda desse universo do rock clássico, blues e psicodelia”. Caro leitor, essa entrevista está imperdível!

Ellen Caroline - Bruno, queremos te agradecer por conceder uma entrevista à Coluna Blues Rock e parabenizá-lo pelo trabalho que você realiza com a sua banda The Galo Power e também com seus outros projetos. O rock goiano, de fato, está muito bem representado! De primeiro momento, gostaria de saber o que te motivou a seguir o caminho do rock em um estado como Goiás, uma vez que o rock não é um gênero tão incentivado...?

Bruno Gallo - Agradeço muito pelo convite e muito obrigado pelo prestígio com o trabalho da Galo Power! Para mim, em particular, se deve muito ao meu primo Evandro Galo, nosso baterista. Foi ele quem me mostrou a existência de uma “cena de rock” quando eu tinha acabado de mudar para Goiânia, sem amigos e sem conhecer nada na cidade. Ele me levou para o Martim Cererê, centro cultural conhecido como a “Meca” do rock na capital goiana. A partir dali fiquei deslumbrado e totalmente energizado com aquela atmosfera de palco, suor, público e o som no talo, em um momento que pra mim era tudo novo. Saber que tinha esse tipo de coisa acontecendo no estado da música sertaneja abriu quase instantaneamente uma porta para um mundo reverso que eu poderia pertencer, fazer parte desse movimento de contracultura.


EC - Baseada em suas experiências musicais e pessoais, como você descreve a atual cena do rock goiano?

BG - Se fosse resumir, definitivamente heterogênea o que é bom e garante aquela diversidade musical necessária. Goiás tem uma riqueza enorme de bandas de rock, realidade já de muito tempo, é um cenário nacionalmente conhecido por esse potencial “roquenrolístico” crescente de novas bandas, e isso nunca parou. Vejo um levante maior do stoner rock, o "rock chapado”, esse estilo que vem ganhando cada vez mais espaço no coração dos roqueiros. É um som minimalista, fruto do Black Sabbath com algo dos anos 1990 tufado de “fuzz”. Bandas nesse estilo têm surgido com mais frequência e isso é notório nos últimos anos. Nesse instante, já há uns três anos, minha realidade é de morador de cidade do interior, me afastei um pouco da loucura da capital, então agora venho conhecendo aos poucos uma outra perspectiva sobre esse cenário. Aqui em Jataí, por exemplo, vem sendo construída uma cena de bandas de rock/metal autoral, é um cenário em que as bandas dão suporte umas às outras, até porque em uma cidade pequena os músicos acabam tocando em mais de uma banda ou tem/teve projeto com músicos de outras bandas. Esse é um ponto de divergência com a capital, onde as bandas demonstram uma autonomia maior. Cito as bandas Vulture Bones, Cripta, Cachorro Vinagre, Viscerus, Boiúna, todas essas bandas de estilos diversos que vêm compondo a identidade musical daqui e estão aproveitando o ensejo da pandemia para trabalhar no próprio material. Quando me mudei para cá ajudei a construir uma produtora de eventos alternativos, a “Produtora Galo Véio”, que já conseguiu neste pouco tempo trazer algumas das bandas novas e até algumas com mais currículo para Jataí. É notório o interesse dos músicos em eventos como estes, seja como referência ou como influência, é uma troca de informações muito importante em uma cidade pequena e ainda muito tradicionalista. O que ainda espero de fato é o florescer de bandas com representantes femininas, o que aparentemente ainda é um entrave muito grande. Faria uma enorme diferença neste cenário “roqueiro” tipicamente machista e misógino, mas que aos poucos tenta se reformular e destruir esse estigma.

EC - Ao pesquisar sobre seus trabalhos percebi que você possui diversas influências musicais que vão desde o hard rock ao blues-rock e a psicodelia. Como você chegou a essas influências e como elas te ajudaram a moldar sua própria sonoridade?

BG - Mais uma vez terei que dar esse mérito ao meu primo Evandro Galo, que foi um mentor em vários momentos. Foi ele quem me apresentou diversos sons básicos quando fomos morar juntos em uma república em Goiânia. Confesso que eu era bem “cru” e não ligava muito para grande parte dos clássicos, mas, quando veio, foi avassalador e sem volta. Eu arranhava uma guitarra, cantava algumas coisas mais genéricas, mas aquilo mudou meu mundo por completo. Ouvir David Bowie, The Who, Cream e afins foi a abertura de um portal para buscar e conhecer mais ainda desse universo do rock clássico, blues e psicodelia. Confesso que de uns tempos para cá tenho dado mais valor à música brasileira dos 1960 aos 1980. Senti que faltava mais esse elo, essa necessidade de conectar com as raízes brasileiras, para ir adiante nesse universo de composição. Desde a viola caipira, MPB, o udigrudi, a black music brasileira, música nortista, guitarrada brasileira etc. Hoje, para mim, tem mais valor do que os clássicos, especialmente por contarem a história de resistência no nosso país, faz mais parte do meu cotidiano e com certeza vai influenciar os trabalhos que vêm por aí.

EC - Você se considera um artista experimental?

BG - Gosto de pensar que sim, mas não sei se seria a pessoa certa para dar essa resposta e, sinceramente, não sei se tenho técnica ou conhecimento suficiente para me denominar assim. Bom, diante disso eu posso dizer que o artista que eu idealizo é experimental, gosta de quebrar expectativas melódicas, introduzir misturas de ritmos pouco usuais. Entortar a música, quebrar a melodia e criar mosaicos. Eu crio esse artista ideal na cabeça, uma coisa meio platônica, mas reconheço minhas limitações, nem sempre consigo transpor isso nas melodias. O experimentalismo é a coisa mais apaixonante na música para mim, pois é um dos únicos caminhos que permite criar sem obrigatoriedade de rótulos. “Lembra isso, lembra aquilo, mas não é nada disso”.

EC - Pode nos falar sobre as origens da The Galo Power e o processo de gravações dos álbuns Lysergic Groove e Waterland?

BG - A Galo Power se originou de um projeto meu com o Evandro há uns catorze anos na república em que morávamos quando tínhamos entrado na UFG. Só bateria e guitarra. Começamos a ouvir os mesmos sons, criar músicas juntos, de repente gravamos umas demos e passamos para alguns poucos amigos. Quando chegou aos ouvidos do Rodolpho, que é nosso baixista e violeiro, ele nos procurou nos pátios da UFG e falou que já sabia tocar todas as musicas e queria ser o baixista. A gente topou, marcamos nosso primeiro show, no Festival Perro Loco, no dia 23 de setembro de 2007, e ali nós consolidamos a Galo Power, originalmente como power trio. Tivemos outras formações, em 2009/10 a Salma (Carne Doce) fez parte também dos vocais da banda, gravou com a gente nosso primeiro disco, Ancient Rise, mas depois seguiu seu caminho. Já no Lysergic Groove, nosso segundo disco marcou a entrada do Thomas Bove (órgão, guitarra e vocal). Já tínhamos algumas músicas prontas pra ser gravadas, ele já conhecia a banda, tinha gana de fazer parte e deu muito certo. Apresentou muita coisa nova para gente, Uriah Heep, Budgie, Humble Pie, o que marcou muito essa pegada mais hard rock com pitadas de psicodelia no Lysergic Groove. Gravamos na cidade de Farroupilha/RS, serra gaúcha, num frio lascado de zero grau em meados de 2011 já com o Thomas. Foi uma experiência incrível que nós vivemos no Estúdio Jardim Elétrico (onde Pepeu Gomes vem gravando seus últimos sons) com os produtores Sérgio Dieter e Marcos Mangoni. Foi um álbum inteiramente gravado em dois dias, lançado pela Monstro Discos, teve uma recepção ótima e abriu muitas portas para Galo Power. Já o Waterland, que faz uma referência à cidade de Hidrolândia/GO, foi um álbum que tivemos mais calma para gravar. Um processo de mais ou menos um ano produzindo e gravando no estúdio Waterland, do Thomas Bove, nosso organista. Então estávamos em casa. Foi mais bem trabalhado, tivemos mais oportunidades de ouvir, não gostar e regravar. Produzir mesmo. O triste é que foi um álbum que marcou a saída do Thomas da banda, o que pegou a gente de surpresa, pois ele realmente mudou muito todo o esquema da Galo, acrescentou muita coisa e de repente teríamos que voltar ao trio de origem. Mas foi tudo ok, ele queria mudar um pouco de ares, foi pra Califórnia passar uns tempos e nós nos adaptamos. O Bote, nosso ultimo disco, já foi um retorno às origens, reativando a formação de power trio. Contou com participação do percussionista Weiller Jahmaika, gravamos a maior parte na Sala Fumarte, em Brasília, com os irmãos Bruno e Breno Prieto, umas "figuraças". A música Casa do medo, nossa versão de House of fear da banda Ngozi Family gravamos em Goiânia com o produtor Douglas Ramirez. É um disco muito diversificado, já começa com um instrumental, Começo do fim, algo que não tínhamos feito até então, marcando para mim essa ideia do experimentalismo na música em várias nuances.

EC -Como foi a experiência da banda ter participado (e ganhado) dos Festivais IFIDEVIDULA da UEG (2015) e o Juriti (2016)?

BG - O IFIDEVIDULAR foi muito bacana, pois contou com a produção do nosso primeiro videoclipe de verdade, da música Murderer (Waterland) e envolveu toda uma turma do curso de Cinema da UEG. Aí, com isso, concorremos com outros clipes, bandas, músicas, produções audiovisuais e levamos alguns troféus. Não esperávamos, só a experiência em já seria muito bacana. Ficamos muito felizes! O Juriti então foi outra coisa que marcou, pois tivemos a oportunidade de apresentar pela primeira vez a nossa música que mescla moda de viola e blues, Ser estelar. Ficamos em terceiro lugar e foi legal porque um dos jurados era o grande Jorge Mautner, trazendo também uma alegria muito grande.

EC - Você também está com uma nova banda chamada Boiúna. Pode nos falar sobre ela?


BG - Boiúna é um projeto voltado a criar e revisitar música brasileira e latino-americana com uma roupagem pesada e experimentalista, com uma pegada oitentista. Comecei quando me mudei para Jataí com alguns grandes músicos aqui da cidade, Gustavo Freitas (baixo), Tiago Magalhães (teclado) e Bruno Souza (bateria), que depois foi substituído por Felipe Amorim. Com influências de Titãs, Zé Ramalho, IRA!, dentre outros, fizemos algumas composições que ainda iremos gravar e soltar o mais breve possível, assim que essa pandemia nos permitir. A realidade é que infelizmente não existe estúdio de gravação profissional em Jataí e ir para outra cidade por agora para gravar não seria prudente, mas boas novidades vêm por aí. Boiúna, nosso primeiro single, vai trazer um pouco desse folclore nortista brasileiro em uma roupagem muito interessante e pesada.

EC - Durante minhas pesquisas descobri que além de músico, você também é art designer. Quais projetos você já realizou nessa função?

BG - Pois é, uma das coisas que aprendi, e venho aprendendo, ao me mudar para o interior foi essa parte de design gráfico. No cotidiano eu trabalho mais com comunicação visual de empresas, mas no meu tempo livre venho trabalhando em algumas composições artísticas independentes mesmo, sem muita pretensão, como o eterno aprendiz que sou. Mas respondendo a questão, tenho trabalhado mais em artes conceituais para os eventos que produzi com a minha produtora e também para a Galo Power sempre que posso, mas, como disse, não sou (ainda) nenhum profissional da área, apenas entusiasta.

EC - Poderia comentar sobre seu projeto solo Thunderthroat?

BG - É algo que pretendo ainda tirar do papel e executar, também sem grandes pretensões, ainda ano que vem. Quem é do meu convívio sabe como sou extremamente de baladas de rock ao estilo Nazareth, Rolling Stones, Rory Gallagher, Gary Moore. Tenho algumas composições, mas nunca pude gravar. Com a Galo Power já tive oportunidade de trazer algumas dessas baladas que tanto gosto, como I fell in disgrace e Descarrilhado, mas também não dá pra ficar fazendo baladas por todo o disco ou em todos os discos, especialmente nesse momento caótico que estamos vivendo. Então o Thunderthroat seria algo voltado somente para essas baladas românticas. Espero que no ano que vem consiga executar e gravar para dar início a esse projeto, seria uma satisfação pessoal muito grande.

EC - Para finalizar, você já tem novos projetos em execução ou em mente?

BG - Antes de estourar essa pandemia a Galo Power já estava em processo de pré-produção do próximo disco, que irá carregar o nome Mato ou Morro (em primeira mão para vocês da Coluna Blues Rock, rs). Grande parte das músicas já está praticamente pronta, com um tom político extremamente ácido, fazendo jus ao momento. Muito fácil fazer canções rasas sobre carros, bebidas, drogas, sexo, todas essas coisas que não fazem o menor sentido diante do contexto de tudo que estamos passando. Novamente não iremos nos render a esse papel ultrapassado que o rock insiste em reproduzir ainda hoje. Na verdade, queríamos tirar onda disso também. Melodicamente falando, sem dúvidas esse disco vai traduzir o experimentalismo que idealizo, contemplar a brasilidade por completo. Além disso, antes desse disco iremos também lançar em breve duas canções, duas versões que fizemos de bandas que ouvimos e admiramos muito, O Terço e Leno. Sairão ainda este ano. Evandro e Rodolpho são grandes músicos, irmãos, companheiros de vida e nossas sincronias musical e ideológica sempre estão alinhadas. Isso torna fazer música, mesmo não sendo muito bons nisso, algo ainda mais prazeroso e necessário para viver sem enlouquecer (por completo).




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