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Brasil

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Bate-papo com Ana Bandarra (Digga Digga Duo)

05.04.2018

   Ana Bandarra é uma amante da cultura vintage, vive e venera os anos 1920 e 30.  A admiração por essas longínquas décadas se expressava através de vestimentas e poses, mas essa relação estreitou-se quando ganhou um ukelele, instrumento incomum no Brasil, e iniciou uma jornada na pesquisa musical. "Há muito tempo sou amante das velharias, aliás de uma maneira bem ampla na vida e não apenas na música. Mas na música houve um movimento ao longo dos anos,  voltando no tempo, sempre em busca de conhecer as influências de quem nós gostamos de ouvir", confessou Ana, que ainda toca o kazzoo.    

    Foi autodidata naquele delicado apetrecho musical tão parecido com o cavaquinho, lentamente adquirindo maior domínio, explorando um território que a aproximava, de fato, ao período adocicado o qual sempre a atraiu. Detentora de um talento natural - afinal nunca tocara nenhum instrumento - formou ao lado do marido (Edu Vila Maior, contrabaixo acústico, banjo tenor, sousaphone, kazzoo e voz) uma das bandas mais originais e criativas dos últimos tempo. O Digga Digga Duo é fantástico, mistura humor e tradição, tudo muito bem embasado em investigações musicais detalhadas, profundas. "O Digga Digga Duo nasceu em função da minha descoberta do ukulele e muito pelo fato dele ter sido uma febre nos anos 1920. Eu coleciono partituras originais antigas (sheetmusic) e percebi que muitas delas já vinham com arranjo e o desenho das cifras para o ukulele. Daí resolvi arriscar os primeiros acordes sozinha, logo começamos a tocar juntos dentro desse universo dos anos 1910, 20 e 30. Depois disso nunca mais parei de tocar", contou a ukelelista.  

    O show da banda é uma experiência pelo tempo, o público flutua em ondas sonoras de uma música inocente e dançante. A dupla coleciona elogios e é extremamente bem recebida pelo carioca, o qual terá duas ótimas oportunidades para conferir esse espetáculo que transpira criatividade: sexta-feira no Mississipi Delta Bar (Gamboa) e sábado no Blue Note Rio (Lagoa). O Digga Digga Duo injeta uma boa dose de entusiasmo em uma cidade que há tempos perdia a paixão pela música de qualidade ao vivo. Digga Digga Duo tem méritos e colhe o merecido sucesso, ainda aquém do seu potencial.  

 

Ugo Medeiros - Você toca dois instrumentos bem incomuns à música brasileira: ukelele e kazzoo. Você poderia falar um pouco sobre esses dois instrumentos? Digo, em relação à construção, sonoridades, possibilidades, etc.

 

Ana Bandarra - Realmente são instrumentos pouco convencionais por aqui,  tanto que nos shows sempre explicamos um pouco sobre a origem de cada um e seu papel na musica do período que retratamos. O ukulele é um instrumento havaiano que tem origem portuguesa, assim como o nosso cavaquinho, mas por lá ele ganhou cordas e afinações diferentes que proporcionam um som mais doce. E o kazoo é um instrumento super lúdico que começou a ser fabricado nos EUA na metade do século XIX, inspirado em um instrumento africano. Na verdade, apesar de parecer, ele não tem nada de sopro. Está mais próximo dos chamados membranofones, pois dentro daquele corpo de metal há uma membrana que vibra distorcendo o som das nossas vozes quando ali cantamos. Para o nosso formato, ele serve para fazermos pequenos solos e improvisos.

 

UM - No Digga Digga Duo vocês tocam uma música bem tradicional, dos anos 1920 e 30. Sua relação com a música começou pelas velharias ou por músicas mais modernas?

 

AB - Há muito tempo sou amante das velharias, aliás de uma maneira bem ampla na vida e não apenas na música. Mas na música houve um movimento ao longo dos anos,  voltando no tempo, sempre em busca de conhecer as influências de quem nós gostamos de ouvir. Assim fomos, indo do punk 77 ao rock'n'roll dos anos 1950 e 60, ao swing dos anos 1940, às dance bands dos anos 1930, aos foxtrots dos anos 1920 até chegar às canções populares do início dos anos 1910. Elas ainda possuem bastante influência lírica em sua estética.

 

UM - Como nasceu o Digga Digga Duo?

 

AB - Nem todos sabem mas somos um casal, e já estamos juntos há 23 anos. Edu sempre foi músico, tocou em diversas bandas e orquestras ao longo dos anos, mas eu nunca havia tocado nada antes. Até que em 2009 ele me deu um ukulele de presente. O Digga Digga Duo nasceu em função da minha descoberta do ukulele e muito pelo fato dele ter sido uma febre nos anos 1920. Eu coleciono partituras originais antigas (sheetmusic) e percebi que muitas delas já vinham com arranjo e o desenho das cifras para o ukulele. Daí resolvi arriscar os primeiros acordes sozinha, logo começamos a tocar juntos dentro desse universo dos anos 1910, 20 e 30. Depois disso nunca mais parei de tocar. 

 

UM - A banda toca ragtime, alguma coisa de blues, clássicos do jazz em releituras mais cruas e aquela música que acompanhava a dança foxtrote. Poderia falar um pouco sobre essas influências da banda? Qual o setlist básico nos show?

 

AB - Nós tocamos canções populares dos anos 1910, 20 e 30,  e o termo que era usado nessa época nos selos dos discos de bakelite e nas capas das partituras era "fox-trot song". Mas a verdade é que esse termo engloba uma grande variedade de estilos, e nós tentamos ter de tudo um pouco. Por isso pinçamos algumas canções populares das anos 1910 como Chinatown, my Chinatown (1910) ou Abba dabba honeymoon (1914), algumas estilo novelty com muito do humor dos anos 1920 como Do something (1929) ou Let's misbehave (1928), algumas outras mais românticas dos anos 1930 como Dream a little dream of me (1931) ou Cheek to cheek (1936). Além de velhos blues e ragtimes como After you've gone (1918) ou I ain't gonna give nobody none of my Jellyroll (1918). Os setlists mudam levemente de show para show, mas sempre tentamos cobrir um pouco de cada um desses estilos. E uma outra coisa que sempre chama a atenção das pessoas é o fato de que sempre gostamos de contextualizar cada número antes de tocar, contando um pouco da história de cada música.

 

UM - Vocês são apaixonados pelo Cole Porter, certo? Poderia falar um pouco sobre o músico e o quanto ele os influenciou?

 

AB - Somos, sim, apaixonados pelo Cole Porter. Para mim um dos melhores compositores de todos os tempos, são tantas as canções dele que ainda queremos incluir no repertório. Mas diria que recebemos influência igual de outros grandes compositores da época como Irving Berlin, George Gershwin, Dorothy Fields e Jimmy McHugh.  Boa parte do nosso repertório é de canções compostas para musicais da Broadway, e algumas dessas canções acabaram  por se tornar standards de jazz.  Nesse processo percebemos que quase sempre os versos introdutórios das canções, que eram parte da peça, foram retirados lentamente. O que é uma pena, pois há versos riquíssimos, por isso sempre que possível fazemos as versões dessas canções com seu verso original.

 

UM - Aquele jazz cigano do Django Reinhardt também é forte influência?

 

AB - Sim, gostamos muito do Django e do estilo Manouche. No Digga a influência desse estilo fica mais por conta da levada de base, que eles chamam de La Pompe. Mas como somos um duo não tem como ir muito além disso, não dá pra deixar a base e fazer os solos improvisados que dão o brilho ao estilo.  Mas temos um outro projeto que tem justamente essa proposta,  é o Manouke,  um trio de Gipsy Jazz com contrabaixo e dois ukuleles. Nesse projeto temos o prazer de tocar com um dos maiores ukulelistas da atualidade, Vinícius Vivas.

 

UM - Essa semana vocês terão uma agenda badalada, sexta no Mississipi Delta Bar e sábado no Blue Note Rio. Só posso parabenizá-los, vocês estão tocando (e sendo bem recebidos) um som completamente vintage em uma cidade que perdeu o interesse pela música ao vivo...

 

AB - Muito obrigada!  Realmente não temos do que reclamar. Os últimos 3 anos têm sido bastante agitados na nossa agenda.  Temos um agradecimento enorme pelas casas que nos convidam, sobretudo aquelas onde fomos residentes, e pelo público que vai aos nossos shows.  Mas tem mais novidade vindo por aí, assim como muitas outras pessoas para agradecer nessa empreitada. Nessa sexta lançamos um clipe novo da canção Blue Drag, produzido em parceria com a Lou Filmes, que fez nossos dois vídeos anteriores. E no fim desse mês devemos lançar um disco, que está sendo finalizado pelo amigo André Paixão do Super Studio.

 

UM - Vocês farão uma turnê estrangeira agora em abril? Quais países? 

 

AB - Sim, vamos tocar na Inglaterra, na Escócia e no País de Gales. 

 

 

 

 ENGLISH VERSION:

 

Ugo Medeiros - You play two very unusual instruments to Brazilian music: ukulele and kazzoo. Could you talk a little bit about these two instruments? I mean, in relation to construction, sonorities, possibilities, etc.

 

Ana Bandarra - They are really unconventional instruments here, so much so that in the shows we always explain a little about the origin of each one and their role in the music of the period that we portray. The ukulele is a Hawaiian instrument that has Portuguese origin, like our cavaquinho, but there he has won different strings and tunings that provide a sweet sound. And the kazoo is a super ludic instrument that began to be manufactured in the USA in the mid-nineteenth century, inspired by an African instrument. In fact, although it seems, it does not have anything to blow. It is closer to the so-called membranophones, for within that metal body there is a membrane that vibrates distorting the sound of our voices as we sing there. For our format, it serves to make small solos and improvisations.

 

UM - In the Digga Digga Duo you play very traditional songs, from the 1920s and 30s. Has your relationship with music started with oldies or more modern music?

 

AB - I have long been a lover of old things, in a very wide way in life and not just in music. But in music there has been a movement over the years, going back in time, always seeking to know the influences of whom we like to hear. That's how we went, from punk 77 to rock'n'roll from the 1950s and '60s, to the swing of the 1940s, to the dance bands of the 1930s, to the foxtrots of the 1920s to the popular songs of the early 1910s. That 10's songs have a lot of lyrical influence on their aesthetics.

 

UM - How the Digga Digga Duo was born?

 

AB - Not everyone knows but we are a couple, and we have been together for 23 years. Edu has always been a musician, has played in various bands and orchestras over the years, but I've never played anything before. Until in 2009 he gave me a ukulele as a gift. The Digga Digga Duo was born due to my discovery of the ukulele and much of the fact that it was a fever in the 1920s. I collect original original sheetmusic and realized that many of them already came with arrangement and drawing chords for ukulele . So I decided to risk the first chords alone, so we started playing together in this universe of 1910's, 20's and 30's. After that I never stopped playing.

 

UM - The band plays ragtime, some blues, jazz classics in raw rearrangements and the music that accompanied that foxtrot dance. Could you tell us a bit about these influences of the band? What is the basic setlist in the show?

 

AB - We play popular songs from the 1910s, the 20s and the 30s, and the term that was used at that time on the labels of bakelite records and the covers of sheetmusic was "fox-trot song". But the truth is that this term encompasses a wide variety of styles, and we try to have everything a little. So we took a few folk songs from the 1910s like Chinatown, My Chinatown (1910) or Abba Dabba Honeymoon (1914), some novelty style with much of the 1920s humor like Do Something (1929) or Let's Misbehave (1928) some more romantic of the 1930s like Dream to Little Dream of Me (1931) or Cheek to Cheek (1936). In addition to old blues and ragtimes like After You've Gone (1918) or I Ain't Gonna Give Nobody None of My Jellyroll (1918). Setlists change slightly from show to show, but we always try to cover a little of each of those styles. And another thing that always draws people's attention is the fact that we always like to contextualize each number before playing, telling a little of the history of each song.

 

UM - You guys are in love with Cole Porter, right? Could you tell us a little bit about the musician and how much he influenced them?

 

AB - We are, yes, in love with Cole Porter. For me one of the best composers of all time, there are so many of his songs that we still want to include in the repertoire. But I would say that we received equal influence from other great composers of the time like Irving Berlin, George Gershwin, Dorothy Fields and Jimmy McHugh. Much of our repertoire is from composite songs to Broadway musicals, and some of these songs eventually became jazz standards. In this process we realized that almost always the introductory verses of the songs, which were part of the play, were slowly withdrawn. Which is a shame, because there are very rich verses, so whenever possible we make the versions of these songs with their original verse.

 

UM - Is that Gypsy jazz from Django Reinhardt also strong influence?

 

AB - Yes, we really like Django and Manouche style. In Digga Digga Duo the influence of this style is more because of the basis, which they call La Pompe. But as we are a duo can not go much beyond this, you can not leave the basis and make the improvised solos that give the brightness to the style. But we have another project that has just this proposal, is the Manouke, a trio of Gipsy Jazz with upright bass and two ukuleles. In this project we have the pleasure to play with one of the greatest ukulele players of the present time, Vinícius Vivas.

 

UM - This week, you will have a full agenda, on friday at the Mississippi Delta Bar and on saturday at Blue Note Rio. I can only congratulate you, you are playing (and being well received) a completely vintage sound in a city that has lost interest in live music...

 

AB - Thank you! We really have nothing to complain about. The past 3 years have been quite hectic on our agenda. We have a huge thanks for the houses that invite us, especially those where we were residents, and the audience that goes to our shows. But there is more news coming out there, as do many other people to thank for it. This Friday we released a new clip of the song Blue Drag, produced in partnership with Lou Filmes, which made our previous two videos. And at the end of this month we have to release an album, which is being finalized by friend André Paixão from Super Studio.

 

UM - Will you do a european tour now in April? Which countries? 

 

AB - Yes, ww will play in England, Scotland and Wales.

 

 

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